25 julho 2017

sou snob?

A propósito do que poderá ser ou não a minha iliteracia, já aqui escrevi sobre aquilo que considerava ser a minha inépcia literária, naquela altura motivado pela incompetência sentida em ler Lobo Antunes. Nesse mesmo texto referi-me a Virginia Woolf, cuja leitura se me apresentava, desde a juventude, interdita. Pois bem, acabei de ler Momentos de Vida de Virginia Woolf, livro composto por cinco ensaios autobiográficos, encontrados entre os seus papeis após a sua morte, em 1941, mas apenas divulgados em 1976 e inéditos entre nós até esta edição (2017) da Ponto de Fuga. Já conseguira ler da mesma autora, num passado recente, "As Ondas" e "Flush: uma biografia" e agora estes Momentos de Vida, que nos propõem uma viagem pelas memórias e pensamentos da autora.
Com esta leitura confirmo, uma vez mais, a minha preferência pela dimensão biográfica dos escritores em detrimento das suas obras literárias. Por outras palavras, cada vez mais procuro conhecer a história de vida dos autores, sinto curiosidade pelas suas experiências de vida, independentemente de gostar ou não da sua literatura. Enquanto leitor, privilegio as polifonias sociais, familiares, psicológicas e físicas daqueles que, por diferentes razões, leio e admiro.


A determinado momento, no seu último ensaio deste livro, a autora questiona-se:
Sou snobe?
Logo depois escreve:
- O Snobe é uma criatura desmiolada e cabeça de vento tão pouco satisfeita com o seu estatuto que, com o propósito de consolidá-lo, esfrega a todo o momento um título ou uma honra na cara das outras pessoas para que estas possam acreditar, e o ajudem a acreditar, naquilo que ele mesmo, na realidade, não acredita: que ele ou ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que reconheço em mim mesma. (Virginia Woolf, 2017:238)

variações geográficas

Numa ampla sala-de-estar de um centro hospitalar público, na cidade do Porto e quase em surdina:
- Já viste estes desgraçados (profissionais de saúde)?!... Não param de um lado para o outro... trabalham horas e horas e recebem quase nada... a Fernanda disse-me que para tirar mil euros tem que trabalhar doze a catorze horas por dia... que vida! Eu lá tiro isso em duas semanas e sem me cansar muito... ainda me dizem para regressar!...

religião industrial

Na edição do mês de Julho do jornal Le Monde Diplomatique (Portugal), um texto muito interessante de Pierre Musso sobre o olhar antropológico que o Ocidente tem sobre si próprio e que remete para o processo de industrialização ocorrido a partir de 1800. Diz-nos este Professor jubilado que para que uma tal revolução industrial fosse concretizada foi preciso construir previamente uma visão do mundo partilhada e excludente de qualquer referente transcendente para celebrar a humanidade criadora e produtora. (...) Esse processo ocorre no interior da matriz cristã e estabelece as bases de uma religião secular.
Esta religião industrial ter-se-á desenvolvido no Ocidente em resultado de três momentos fracturantes, a saber:
1º - A Reforma Gregoriana, que conduz a uma primeira revolução industrial nos séculos XII e XIII, ligada à mudança do processo de trituração, com moinhos colocados ao longo dos rios a prefigurar as fábricas;
2º - O renascimento da ciência moderna e o programa de René Descartes destinado a "tornar-nos mestres e possuidores da natureza" em nome do progresso;
3º - A escolha industrialista de 1800 e a formulação simultânea de um "novo cristianismo" terrestre e científico;
Em cada um destes momentos, a industriação metamorfoseia-se e a instituição de produção que a encarna reorganiza-se: mosteiro, manufactura, fábrica e empresa. Cada uma destas instituições articula uma fé que dá sentido e uma lei que organiza uma comunidade de trabalho.
É estabelecida uma relação entre as ordens monásticas (S. Bento e S. Francisco) e seus mosteiros com a origem dessas comunidades de trabalho, argumentando-se que:
O monaquismo reconhece o "valor do trabalho" como complemento da oração e da contemplação. O trabalho representa ao mesmo tempo um instrumento de ascese, um meio de combater a ociosidade, uma actividade produtora e uma resposta à obrigação da caridade. Ainda hoje a regra de S. Bento é vista como um modelo de gestão. (...) O monge beneditino Hugues Minguet declara: "O monaquismo beneditino é sem dúvida a mais velha multinacional do mundo"...
No fim do século XI, a aceleração da circulação monetária e a multiplicação das trocas comerciais transformam a organização monástica e aí defrontam-se dois modelos: Cluny e Cister. Em Cluny vive-se na opulência, em Cister recusa-se o luxo. Nos seus mosteiros são implantadas todas as infra-estruturas da produção - rede de escoamento, moinhos, caminhos de serventia, oficinas, forja, lagar, celeiro, casa dos conversos - que fazem da abadia uma fábrica.
No século XVI ocorre uma segunda grande transformação, com a Reforma e em seguida com a revolução científica. A natureza torna-se o novo "grande Ser" que acolhe o mistério da Encarnação. Até então associada a Deus, a própria ideia de natureza modifica-se: o homem já não está "na", mas "perante" a natureza, e dedica-se a conhecê-la matematizando-a.
A terceira bifurcação da industrialização completa-se nos séculos XIX e XX, em dois momentos: por volta de 1830, com a revolução industrial, e entre 1880 e 1940 , com a revolução da gestão. A primeira formula a lei tecno-científica e a segunda fixa a lei da organização do trabalho. A fábrica-empresa liga-as solidamente. A crença num novo "grande Ser", a saber, a humanidade, reinveste o mistério da Encarnação tal como ele é instituído pelo filósofo Auguste Comte. Em 1848 o jovem Ernest Renan deseja "organizar cientificamente a humanidade..."
O criador todo-poderoso já não é um Deus supra-celeste, mas o próprio homem que se auto-realiza. Esta visão Faustiana de uma religião terrestre e racional tem por guia o progresso e a promessa de um bem-estar futuro.
(...) Depois de uma longa gestação nos claustros, a religião industrial manifesta-se de maneira fulminante por ocasião das revoluções industriais, atingindo o seu apogeu com a actual revolução digital.
Para lá da importação da novilíngua da gestão em política, o que triunfa é a religião industrial.

mediascape:ridiculum ultimatum

Ao ler as "gordas" da imprensa dou de caras com este título e com as declarações de Hugo Soares, líder da bancada do PSD na Assembleia da República, que em jeito de ameaça, fez ontem um ultimato ao governo para que apresente a lista dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande em 24 horas. Mas que raio de ameaça! Então e se o governo não satisfizer o pedido?! Qual é a grave consequência? Qual será o trunfo que a iluminária, líder parlamentar, tem para apresentar?!
Pois, como também se percebe nas suas palavras, nada ou quase. Apenas aproveitamento político de uma desgraça humana. Se houve ou não houve mais mortes do que aquelas que estão oficialmente contabilizadas não é relevante. Mais uma, duas?! Talvez. E depois? Qual é a responsabilidade do governo nessa contabilidade?
Ridículo, uma vez mais.

11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.

07 julho 2017

arrancar batatas

(fotografia roubada da internet)

Muitas vezes, enquanto criança e jovem, participei nessa actividade agrícola, normalmente um trabalho colectivo para a família, vizinhos, amigos e compadres, num esquema de torna-jeira, ajudando a apanhar da terra as batatas arrancadas a golpes de guinchas (na fotografia, utensílio visível nas mãos dos homens). Num claro exemplo daquilo que era, e ainda é, a clássica divisão do trabalho por género, aos homens competia-lhes percorrer os sulcos, alinhados e transversalmente (como também se vê na fotografia), e trazer para a superfície todos os batateiros que ficavam expostos e disponíveis para serem colhidas todas as suas batatas, numa tarefa destinada às mulheres e crianças que, logo atrás dos homens, as recolhiam num balde ou cesto e depois, quando estes cheios, vertiam-nas para sacas que iam ficando espalhadas pelo terreno. Para além da força e resistência necessárias para trabalhar com as guinchas, importava também não estragar as batatas, ou seja, escolher bem o sítio onde se golpeava a terra para não acertar em nenhuma - na terminologia local, para não enrilhar as batatas.
Pois bem, só hoje e já homem já mais do que adulto, é que tive o privilégio de usar umas guinchas e, por incrível que possa ter sido, não enrilhei nem uma batata. Alguém deveria ter registado esse longo momento, mas infelizmente tal não aconteceu.

06 julho 2017

a solução passaria por aqui...


Lamentavelmente foi rejeitada pela Assembleia da República com as abstenções do PSD e CDS e voto contra do PS.

gostei e por isso partilho


" Quatro anos "


Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.
A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.