28 junho 2017

ar pouco estival

Da janela deste quarto de hotel, onde estou de passagem, vislumbro a paisagem campestre que se estende ao longo de um vale encaixado e de tonalidades bem verdes. Perto da janela, dois plátanos maduros e frondosos fazem-me perceber o vento que os agita, teimoso a temperar o ambiente e a impedir que o calor estival se instalar definitivamente. Ainda há pouco, depois de almoço, quando subia de elevador, duas senhoras comentavam que hoje não era preciso ir apanhar ar. Ele já se tinha instalado em todo o lado.

26 junho 2017

mediascape:vergonha alheia

Num só dia, hoje, Pedro Passos Coelho, na sua missa de corpo presente (por ordem cronológica):

a) "Tenho conhecimento de vitimas indirectas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero". (Pedro Passos Coelho);

b) "Fui eu que dei ao Dr. Passos Coelho uma informação errada". (João Marques, candidato PSD Pedrogão Grande);

c) "Sinceramente peço desculpa por ter usado um dado não confirmado. Não devia ter utilizado essa informação". (Pedro Passos Coelho);

Não restam dúvidas, Pedro Passos Coelho é um cadáver político. E não me venham dizer que ele não sabe disso, que não está consciente da nulidade da sua posição!

a inevitabilidade e o estigma

Talvez seja apenas uma mera coincidência; Talvez apenas um azar; Quiçá, uma simples impressão, mas a verdade é que ser cliente dos CTT e frequentar as suas lojas e balcões transformou-se numa actividade irritantemente demorada e fastidiosa. Os dois ou três balcões de correios que frequentemente visito, salvo uma ou outra vez, estão sempre cheias de gente, o serviço é lento e os balcões, apesar de vários funcionários presentes e a circular de um lado para o outro, não estão a atender os clientes. Muitas vezes apenas um funcionário e um balcão a atender...
Aqui está um bom exemplo da inevitabilidade da privatização de um serviço outrora público, pois o estigma histórico e enraizado de tudo quanto era e é do Estado, era e é mal gerido, assim como o estigma perpétuo dos funcionários públicos e do seu absentismo, resultou nisto e mede-se agora pela qualidade do serviço prestado aos clientes, por uma gestão séria e rigorosa. Aqui, como em tantos outros casos, o serviço público é preterido por rádios de produtividade e variação percentual de lucros, ou seja, tudo aquilo que realmente interessa a essa casta iluminada, privilegiada e minoritária das elites económicas e financeiras.
Este exercício só foi possível porque primeiro, frequento e utilizo regularmente os serviços e os espaços CTT e, segundo, porque tenho memória e faço questão de me servir dela, assídua e convenientemente.

a des-cafeínar

Sentado à sombra e ao sabor de uma bem fresca brisa, proporcionada por um condicionado ar, tomo a dose de cafeína digestiva, enquanto penso sobre este nosso velho hábito do café expresso. Isto, porque constato que, nos últimos tempos, talvez meses, talvez já anos, esse hábito de prazer se transformou, acima de tudo, num hábito de necessidade. É verdade que estou, há longos anos, adicionado a esta substância excitadora dos sentidos e do cérebro, mas com o tempo fui perdendo o gosto pela bebida e muitos são os dias em que não tomo nenhuma dose, apercebendo-me da sua falta apenas quando se instala uma dor de cabeça, normalmente, ao final da tarde...
Agora, o ritual do café faz-se acompanhar com água, engarrafada ou da torneira, tanto me faz, sempre com o propósito de lavar a boca do sabor do café. Apesar disto, ir tomar café, estar a tomar café, ou ter ido tomar café, continua a ser um rito necessário para o equilíbrio de todo o organismo, principalmente, da mente e de seus humores.

gato morto, uma vez mais...

mediascape:patologias da democracia

Na edição de Junho do jornal Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), Evelybe Pieiller escreve um interessante e curioso artigo sobre os limites e as derivas das democracias, tal como as conhecemos na actualidade - "de um ideal, um progresso, uma conquista (...) a uma impossibilidade". Pondo em cheque a noção de soberania, a da nação e a do povo, a perda de confiança dos cidadãos e a imposição de poderes supranacionais como a União Europeia, cita Marcel Gauchet, que afirma: "nas nossas sociedades, a democracia já é apenas uma palavra, uma noção fantoche que dissimula, designadamente, o poder efectivo, exorbitante do complexo económico-financeiro". Um outro pensador citado, Alain Badiou, afirma que "a democracia está sempre ligada e enfeudada ao capital".
A nação já não é portadora da vontade geral, mas de um agregado de desejos particulares: o que pode corresponder a uma memorização, senão mesmo a uma perversão das lutas colectivas que ainda é preciso vencer para concretizar as promessas da democracia, em particular a igualdade, um dos nomes da emancipação. Apresentando um conjunto de abordagens múltiplas, a autora apresenta ainda o Comité Invisible, que saúda, na fragmentação em todos os domínios do nosso mundo, uma aspiração inaugural da "restituição a si próprias de todas as singularidades e a derrota dada à subsunção, à abstracção". Este Comité postula o seguinte: "Não há eu e o mundo, eu e os outros, há eu com os meus, neste pequeno pedaço do mundo que eu amo, irredutivelmente". Isto porque "a experiência vivida, fundamental, imemorial é a da comunidade". Malditos sejam, portanto, os engodos mortíferos intrínsecos à democracia, à nação, à humanidade, ou mesmo às divisões de classe...
São apresentadas duas razões principais para a crise democrática: as limitações impostas à soberania nacional (e a impotência do político); e a erosão de alguns valores que a fundam (e a suspeição em relação ao próprio sistema). Uma boa parte do povo já não se reconhece nos seus representantes habituais, os da moderação, e escolhem-se outsiders, alguns dos quais parecem perigosamente anti-democratas.
À questão: Por que motivo se esquece o povo de votar ou vota tão mal? A autora refere que esse fenómeno recebe explicações diversas, como, por exemplo, a de Ivan Krastev que diz: "os progressos das liberdades individuais e a difusão dos direitos humanos foram acompanhados por um declínio do poder do cidadão de mudar, pelo voto, não apenas de governo, mas também de orientação política". Uma outra ideia é a de que a dissolução das oposições essenciais entre a esquerda e a direita vai conduzir a que seja cada vez mais difícil diferenciá-las, portanto, para quê escolher entre elas? Nancy Fraser responde que a componente determinante do problema é que "o Liberalismo e o Fascismo constituem as duas vertentes profundamente interligadas do sistema mundial capitalista".
Como fazer então para que o povo de sinta representado? Como devolver ao povo a sua soberania?
É aqui que o pensamento dos ensaístas se torna, por vezes, surpreendente...
A filósofa Chantal Mouffe coloca a questão da necessidade de "construir um nós e um eles", de forma a conduzir um combate pela verdadeira concretização dos princípios ético-políticos da democracia liberal, porque "hoje, tudo o que se relaciona com a democracia entendida como igualdade e como soberania popular foi afastado pela hegemonia do liberalismo". Portanto, para derrubar estas relações de poder e dar uma representação autêntica ao "descontentamento órfão" dos cidadãos, importaria trabalhar na criação de um espaço público agonístico, isto é, conceitual, onde se exprimem os diferentes, os antagonismos e o desacordo, num quadro compatível com o pluralismo democrático. Para federar eficazmente os descontentamentos e as lutas contra as diversas subordinações, para além das clivagens esquerda-direita, torna-se indispensável a elaboração de um "arsenal simbólico" que contribuirá para envolver grupos sociais. Trata-se, portanto, não de acabar com a democracia representativa, mas de a radicalizar.
É com uma estratégia clara de "populismo de esquerda", alimentada, entre outras coisas, por batalhas culturais, que Chantal Mouffe propõe uma revitalização da representação democrática. Sendo que o mais notável nesta reflexão seja a importância dada aos "afectos". É que a teoria moderna da democracia associou-a durante muito tempo ao exercício da razão e seria, segundo esta autora, "incapaz de reconhecer que as paixões são a principal força motriz da política". Para construir uma distinção nós/eles progressista, seria necessário um discurso que apresentasse "identidades que dão sentido" a esta distinção. O acento tónico colocado sobre as "paixões", sujeito a variações múltiplas... o povo, os cidadãos, são frequentemente considerados como submetidos às suas emoções, particularmente quando vota fora das escolhas toleráveis. Como diz o jornalista David Van Reybrouck, "votar sobre uma questão precisa, que bem poucas pessoas realmente compreendem , quase só pode ter resultados desastrosos". Seria melhor, portanto, "designar ao acaso um pequeno número de pessoas, assegurando que elas dominam suficientemente as questões com as quais se vão confrontar e que estão em condições de tomar medidas sensatas"...
Mais do que pelas emoções e pelas insuficiências dos cidadãos, não é proibido pensar que as perversões actuais da democracia tal como a conhecemos são engendradas por um neoliberalismo notavelmente inventivo, que há muito tempo soube tornar desejáveis os seus valores e as suas soluções.

19 junho 2017

a culpa, essa maldita...

Pacheco Pereira, hoje, no jornal Público e a propósito do incêndio de Pedrógão Grande:

«O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.
A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.
Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. (…) Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. (…)
Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbiespoderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém. (…)
São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.»

18 junho 2017

de luto

Ainda antes de me deitar e quando o número de mortos confirmados era de 19, ouvia o Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande dizer que tinha quase a certeza que o número de vítimas mortais seria bem mais do dobro dessas (19). Hoje ao acordar o número de mortos neste inferno de chamas era de 57.
Não sei mais o que escrever. Já o fiz em anos anteriores e quando nem sequer havia vítimas humanas. Perante tamanha catástrofe não sei o que se deve dizer, ou fazer, ou pensar. Apenas o silêncio por respeito a todas as vidas humanas que se perderam e pelo sofrimento dos sobreviventes. Por isto, irrita-me o voyeurismo de alguns canais de televisão e jornais, assim como me irrita esta nacional teimosia em nada se fazer preventivamente e se investir tudo na reacção e no combate aos incêndios. Talvez agora, depois de tantas e tantas mortes, haja coragem para mudar definitivamente o paradigma em relação aos incêndios e à floresta.

03 junho 2017

no III Festival Literário de Bragança

Ontem à tarde, no auditório Paulo Quintela, na sessão "tarde da crónica e romance"...




01 junho 2017

humanismo

A propósito do dia que se assinala hoje - o dia mundial da criança - mais do que repetir lugares comuns interessa-me reafirmar a minha profunda crença no ser humano, nas suas virtudes e qualidades, assim como nos seus defeitos e perversidades, em todos os seus estádios de desenvolvimento ontogenético. Claro que, enquanto humanistas, deveremos sempre acarinhar as crianças e proporcionar-lhes o melhor futuro possível, pois este será sempre delas e para elas. Acreditar na generosidade, na capacidade e na ambição das novas gerações é um bom princípio para podermos continuar a colocar o Ser Humano no centro do nosso mundo, ou a entendê-lo como denominador comum em todas e quaisquer equações possíveis, previsíveis e desejáveis.

mediascape: desconforto

Ao contrário daquilo que o jornal Público intitula de desconforto para os partidos à esquerda do PS com a hipótese de Mário Centeno ir para o Eurogrupo, não é desconforto que se pode sentir com essa possibilidade, mas sim indignação pela campanha orquestrada para afastar do governo português o seu ministro das finanças. Ao contrário da ideia que agora se tenta fazer passar da genialidade de Centeno, sei que este não passa de um tecnocrata (aparentemente bom) que, até ao presente, tem defendido os interesses nacionais. Não me sinto desconfortável com a sua ida para essa instituição transnacional e europeia, mas sinto-me enojado com a estratégia das lideranças da UE ao alimentarem esse cenário, que não parece ser mais do que uma tentativa de desestabilização do executivo português e das suas políticas, que teimam em remar em contra-ciclo e afrontando as orientações e políticas emanadas do directório de Bruxelas e Berlim. Independentemente dos méritos e créditos pessoais e profissionais de Mário Centeno, acredito nessa conspiração orquestrada para destruir o caminho alternativo que Portugal, por hora, trilha com relativo sucesso. O resto é spin, isto para não dizer que apenas se trata de ridículas punchlines que procuram desviar a atenção daquilo que é essencial.