11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.

07 julho 2017

arrancar batatas

(fotografia roubada da internet)

Muitas vezes, enquanto criança e jovem, participei nessa actividade agrícola, normalmente um trabalho colectivo para a família, vizinhos, amigos e compadres, num esquema de torna-jeira, ajudando a apanhar da terra as batatas arrancadas a golpes de guinchas (na fotografia, utensílio visível nas mãos dos homens). Num claro exemplo daquilo que era, e ainda é, a clássica divisão do trabalho por género, aos homens competia-lhes percorrer os sulcos, alinhados e transversalmente (como também se vê na fotografia), e trazer para a superfície todos os batateiros que ficavam expostos e disponíveis para serem colhidas todas as suas batatas, numa tarefa destinada às mulheres e crianças que, logo atrás dos homens, as recolhiam num balde ou cesto e depois, quando estes cheios, vertiam-nas para sacas que iam ficando espalhadas pelo terreno. Para além da força e resistência necessárias para trabalhar com as guinchas, importava também não estragar as batatas, ou seja, escolher bem o sítio onde se golpeava a terra para não acertar em nenhuma - na terminologia local, para não enrilhar as batatas.
Pois bem, só hoje e já homem já mais do que adulto, é que tive o privilégio de usar umas guinchas e, por incrível que possa ter sido, não enrilhei nem uma batata. Alguém deveria ter registado esse longo momento, mas infelizmente tal não aconteceu.

06 julho 2017

a solução passaria por aqui...


Lamentavelmente foi rejeitada pela Assembleia da República com as abstenções do PSD e CDS e voto contra do PS.

gostei e por isso partilho


" Quatro anos "


Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.
A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.

28 junho 2017

ar pouco estival

Da janela deste quarto de hotel, onde estou de passagem, vislumbro a paisagem campestre que se estende ao longo de um vale encaixado e de tonalidades bem verdes. Perto da janela, dois plátanos maduros e frondosos fazem-me perceber o vento que os agita, teimoso a temperar o ambiente e a impedir que o calor estival se instalar definitivamente. Ainda há pouco, depois de almoço, quando subia de elevador, duas senhoras comentavam que hoje não era preciso ir apanhar ar. Ele já se tinha instalado em todo o lado.

26 junho 2017

mediascape:vergonha alheia

Num só dia, hoje, Pedro Passos Coelho, na sua missa de corpo presente (por ordem cronológica):

a) "Tenho conhecimento de vitimas indirectas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero". (Pedro Passos Coelho);

b) "Fui eu que dei ao Dr. Passos Coelho uma informação errada". (João Marques, candidato PSD Pedrogão Grande);

c) "Sinceramente peço desculpa por ter usado um dado não confirmado. Não devia ter utilizado essa informação". (Pedro Passos Coelho);

Não restam dúvidas, Pedro Passos Coelho é um cadáver político. E não me venham dizer que ele não sabe disso, que não está consciente da nulidade da sua posição!

a inevitabilidade e o estigma

Talvez seja apenas uma mera coincidência; Talvez apenas um azar; Quiçá, uma simples impressão, mas a verdade é que ser cliente dos CTT e frequentar as suas lojas e balcões transformou-se numa actividade irritantemente demorada e fastidiosa. Os dois ou três balcões de correios que frequentemente visito, salvo uma ou outra vez, estão sempre cheias de gente, o serviço é lento e os balcões, apesar de vários funcionários presentes e a circular de um lado para o outro, não estão a atender os clientes. Muitas vezes apenas um funcionário e um balcão a atender...
Aqui está um bom exemplo da inevitabilidade da privatização de um serviço outrora público, pois o estigma histórico e enraizado de tudo quanto era e é do Estado, era e é mal gerido, assim como o estigma perpétuo dos funcionários públicos e do seu absentismo, resultou nisto e mede-se agora pela qualidade do serviço prestado aos clientes, por uma gestão séria e rigorosa. Aqui, como em tantos outros casos, o serviço público é preterido por rádios de produtividade e variação percentual de lucros, ou seja, tudo aquilo que realmente interessa a essa casta iluminada, privilegiada e minoritária das elites económicas e financeiras.
Este exercício só foi possível porque primeiro, frequento e utilizo regularmente os serviços e os espaços CTT e, segundo, porque tenho memória e faço questão de me servir dela, assídua e convenientemente.

a des-cafeínar

Sentado à sombra e ao sabor de uma bem fresca brisa, proporcionada por um condicionado ar, tomo a dose de cafeína digestiva, enquanto penso sobre este nosso velho hábito do café expresso. Isto, porque constato que, nos últimos tempos, talvez meses, talvez já anos, esse hábito de prazer se transformou, acima de tudo, num hábito de necessidade. É verdade que estou, há longos anos, adicionado a esta substância excitadora dos sentidos e do cérebro, mas com o tempo fui perdendo o gosto pela bebida e muitos são os dias em que não tomo nenhuma dose, apercebendo-me da sua falta apenas quando se instala uma dor de cabeça, normalmente, ao final da tarde...
Agora, o ritual do café faz-se acompanhar com água, engarrafada ou da torneira, tanto me faz, sempre com o propósito de lavar a boca do sabor do café. Apesar disto, ir tomar café, estar a tomar café, ou ter ido tomar café, continua a ser um rito necessário para o equilíbrio de todo o organismo, principalmente, da mente e de seus humores.

gato morto, uma vez mais...

mediascape:patologias da democracia

Na edição de Junho do jornal Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), Evelybe Pieiller escreve um interessante e curioso artigo sobre os limites e as derivas das democracias, tal como as conhecemos na actualidade - "de um ideal, um progresso, uma conquista (...) a uma impossibilidade". Pondo em cheque a noção de soberania, a da nação e a do povo, a perda de confiança dos cidadãos e a imposição de poderes supranacionais como a União Europeia, cita Marcel Gauchet, que afirma: "nas nossas sociedades, a democracia já é apenas uma palavra, uma noção fantoche que dissimula, designadamente, o poder efectivo, exorbitante do complexo económico-financeiro". Um outro pensador citado, Alain Badiou, afirma que "a democracia está sempre ligada e enfeudada ao capital".
A nação já não é portadora da vontade geral, mas de um agregado de desejos particulares: o que pode corresponder a uma memorização, senão mesmo a uma perversão das lutas colectivas que ainda é preciso vencer para concretizar as promessas da democracia, em particular a igualdade, um dos nomes da emancipação. Apresentando um conjunto de abordagens múltiplas, a autora apresenta ainda o Comité Invisible, que saúda, na fragmentação em todos os domínios do nosso mundo, uma aspiração inaugural da "restituição a si próprias de todas as singularidades e a derrota dada à subsunção, à abstracção". Este Comité postula o seguinte: "Não há eu e o mundo, eu e os outros, há eu com os meus, neste pequeno pedaço do mundo que eu amo, irredutivelmente". Isto porque "a experiência vivida, fundamental, imemorial é a da comunidade". Malditos sejam, portanto, os engodos mortíferos intrínsecos à democracia, à nação, à humanidade, ou mesmo às divisões de classe...
São apresentadas duas razões principais para a crise democrática: as limitações impostas à soberania nacional (e a impotência do político); e a erosão de alguns valores que a fundam (e a suspeição em relação ao próprio sistema). Uma boa parte do povo já não se reconhece nos seus representantes habituais, os da moderação, e escolhem-se outsiders, alguns dos quais parecem perigosamente anti-democratas.
À questão: Por que motivo se esquece o povo de votar ou vota tão mal? A autora refere que esse fenómeno recebe explicações diversas, como, por exemplo, a de Ivan Krastev que diz: "os progressos das liberdades individuais e a difusão dos direitos humanos foram acompanhados por um declínio do poder do cidadão de mudar, pelo voto, não apenas de governo, mas também de orientação política". Uma outra ideia é a de que a dissolução das oposições essenciais entre a esquerda e a direita vai conduzir a que seja cada vez mais difícil diferenciá-las, portanto, para quê escolher entre elas? Nancy Fraser responde que a componente determinante do problema é que "o Liberalismo e o Fascismo constituem as duas vertentes profundamente interligadas do sistema mundial capitalista".
Como fazer então para que o povo de sinta representado? Como devolver ao povo a sua soberania?
É aqui que o pensamento dos ensaístas se torna, por vezes, surpreendente...
A filósofa Chantal Mouffe coloca a questão da necessidade de "construir um nós e um eles", de forma a conduzir um combate pela verdadeira concretização dos princípios ético-políticos da democracia liberal, porque "hoje, tudo o que se relaciona com a democracia entendida como igualdade e como soberania popular foi afastado pela hegemonia do liberalismo". Portanto, para derrubar estas relações de poder e dar uma representação autêntica ao "descontentamento órfão" dos cidadãos, importaria trabalhar na criação de um espaço público agonístico, isto é, conceitual, onde se exprimem os diferentes, os antagonismos e o desacordo, num quadro compatível com o pluralismo democrático. Para federar eficazmente os descontentamentos e as lutas contra as diversas subordinações, para além das clivagens esquerda-direita, torna-se indispensável a elaboração de um "arsenal simbólico" que contribuirá para envolver grupos sociais. Trata-se, portanto, não de acabar com a democracia representativa, mas de a radicalizar.
É com uma estratégia clara de "populismo de esquerda", alimentada, entre outras coisas, por batalhas culturais, que Chantal Mouffe propõe uma revitalização da representação democrática. Sendo que o mais notável nesta reflexão seja a importância dada aos "afectos". É que a teoria moderna da democracia associou-a durante muito tempo ao exercício da razão e seria, segundo esta autora, "incapaz de reconhecer que as paixões são a principal força motriz da política". Para construir uma distinção nós/eles progressista, seria necessário um discurso que apresentasse "identidades que dão sentido" a esta distinção. O acento tónico colocado sobre as "paixões", sujeito a variações múltiplas... o povo, os cidadãos, são frequentemente considerados como submetidos às suas emoções, particularmente quando vota fora das escolhas toleráveis. Como diz o jornalista David Van Reybrouck, "votar sobre uma questão precisa, que bem poucas pessoas realmente compreendem , quase só pode ter resultados desastrosos". Seria melhor, portanto, "designar ao acaso um pequeno número de pessoas, assegurando que elas dominam suficientemente as questões com as quais se vão confrontar e que estão em condições de tomar medidas sensatas"...
Mais do que pelas emoções e pelas insuficiências dos cidadãos, não é proibido pensar que as perversões actuais da democracia tal como a conhecemos são engendradas por um neoliberalismo notavelmente inventivo, que há muito tempo soube tornar desejáveis os seus valores e as suas soluções.

19 junho 2017

a culpa, essa maldita...

Pacheco Pereira, hoje, no jornal Público e a propósito do incêndio de Pedrógão Grande:

«O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.
A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.
Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. (…) Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. (…)
Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbiespoderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém. (…)
São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.»

18 junho 2017

de luto

Ainda antes de me deitar e quando o número de mortos confirmados era de 19, ouvia o Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande dizer que tinha quase a certeza que o número de vítimas mortais seria bem mais do dobro dessas (19). Hoje ao acordar o número de mortos neste inferno de chamas era de 57.
Não sei mais o que escrever. Já o fiz em anos anteriores e quando nem sequer havia vítimas humanas. Perante tamanha catástrofe não sei o que se deve dizer, ou fazer, ou pensar. Apenas o silêncio por respeito a todas as vidas humanas que se perderam e pelo sofrimento dos sobreviventes. Por isto, irrita-me o voyeurismo de alguns canais de televisão e jornais, assim como me irrita esta nacional teimosia em nada se fazer preventivamente e se investir tudo na reacção e no combate aos incêndios. Talvez agora, depois de tantas e tantas mortes, haja coragem para mudar definitivamente o paradigma em relação aos incêndios e à floresta.

03 junho 2017

no III Festival Literário de Bragança

Ontem à tarde, no auditório Paulo Quintela, na sessão "tarde da crónica e romance"...




01 junho 2017

humanismo

A propósito do dia que se assinala hoje - o dia mundial da criança - mais do que repetir lugares comuns interessa-me reafirmar a minha profunda crença no ser humano, nas suas virtudes e qualidades, assim como nos seus defeitos e perversidades, em todos os seus estádios de desenvolvimento ontogenético. Claro que, enquanto humanistas, deveremos sempre acarinhar as crianças e proporcionar-lhes o melhor futuro possível, pois este será sempre delas e para elas. Acreditar na generosidade, na capacidade e na ambição das novas gerações é um bom princípio para podermos continuar a colocar o Ser Humano no centro do nosso mundo, ou a entendê-lo como denominador comum em todas e quaisquer equações possíveis, previsíveis e desejáveis.

mediascape: desconforto

Ao contrário daquilo que o jornal Público intitula de desconforto para os partidos à esquerda do PS com a hipótese de Mário Centeno ir para o Eurogrupo, não é desconforto que se pode sentir com essa possibilidade, mas sim indignação pela campanha orquestrada para afastar do governo português o seu ministro das finanças. Ao contrário da ideia que agora se tenta fazer passar da genialidade de Centeno, sei que este não passa de um tecnocrata (aparentemente bom) que, até ao presente, tem defendido os interesses nacionais. Não me sinto desconfortável com a sua ida para essa instituição transnacional e europeia, mas sinto-me enojado com a estratégia das lideranças da UE ao alimentarem esse cenário, que não parece ser mais do que uma tentativa de desestabilização do executivo português e das suas políticas, que teimam em remar em contra-ciclo e afrontando as orientações e políticas emanadas do directório de Bruxelas e Berlim. Independentemente dos méritos e créditos pessoais e profissionais de Mário Centeno, acredito nessa conspiração orquestrada para destruir o caminho alternativo que Portugal, por hora, trilha com relativo sucesso. O resto é spin, isto para não dizer que apenas se trata de ridículas punchlines que procuram desviar a atenção daquilo que é essencial.

31 maio 2017

não vale a pena

Num dia em que não almocei, chego ao final da tarde esfomeado e, de certo modo, desorientado pela falta de cafeína que por esquecimento, primeiro e por distracção, segundo, acabei por não ingerir durante todo o dia. Mas essa hora final de tarde é já tarde para tomar café, pois as consequências dessa toma seriam catastróficas para essa noite e madrugada, mas acima de tudo, para o dia seguinte.
Portanto, até porque não sabia a que horas iria conseguir jantar, entrei num café para repor calorias. Azar, balcões expositores já vazios e onde sobreviviam dois ou três rissóis de caracter duvidoso e um único pão-de-chouriço, perdido num imenso tabuleiro. Sem hesitar, peço esse pão e uma Coca-Cola que, por outro azar, tem que ser uma Pepsi. Tudo bem, venha ela para absorver alguma cafeína. Três euros e vinte e cinco cêntimos que paguei e apenas pude beber, uma vez que o pão-sem-chouriço nem se conseguia trincar. Se calhar, não era por acaso que ainda ali estava para ser vendido... Ainda pensei reclamar e, às tantas, arranjar alguma confusão, mas fiquei quieto. Não vale a pena, já não me vale a pena. Saí desaustinado em direcção a uma máquina self-service, onde encontrei uma deliciosa sande-mista em pão-de-forma sem côdea.

26 maio 2017

X L I V

Numa conta sempre de somar, vamos juntando os dias e, por trágica multiplicação, as dores do corpo e da alma também.
Atenuadas apenas pela simples divisão de afectos e carinhos que, na subtração do porvir, vagarosos serão saboreados.

19 maio 2017

interminável senda

Com o propósito de colmatar velhas lacunas e ignorâncias conscientes do universo literário português, do mais clássico ao mais contemporâneo, mantenho esforço de recuperação dessas incomensuráveis falhas. Objectivo ambicioso e, acima de tudo, demorado. Esta noite, e por sugestão da amiga Joana, o objectivo é resgatar o dinaussauro excelentíssimo José Cardoso Pires.

na feira do livro de Vinhais

Hoje à tarde, no auditório da Casa da Cultura (Solar dos Condes de Vinhais), apresentando o meu livro na Feira do Livro de Vinhais. Entre alunos do ensino básico, secundário e superior sénior, mais alguns amigos, é sempre um prazer regressar, estar e ficar na nossa terra. Em Vinhais estarei sempre em minha casa.
Com apresentação do amigo João Cristiano Cunha e a recepção de Roberto Afonso, amigo e Vereador da Cultura da C. M. de Vinhais, mais um momento feliz e simpático na existência deste apurriar de dez anos.
Ainda que escassos, ficam alguns dos momentos do evento...

(a sala minutos antes)

(João Cristiano Cunha, Roberto Afonso e Luís Vale)

 (apresentação do João incluiu a recolha de grande parte das capas dos meus livros...)

(aqui, numa fotografia com qualidade, roubada aqui)

15 maio 2017

avarias

Mesmo sabendo e compreendendo que os objectos, os utensílios, equipamentos e electrodomésticos, se desgastam e estragam, é sempre um stress quando um deles avaria cá por casa. Detesto tê-los avariados ou estragados e, por isso, procuro sempre solucionar logo esses, maiores ou menores, problemas. Este mês tem sido um fartote de avarias e não-funcionamentos aos quais tenho tentado dar resposta, até que ontem foi a vez da velha televisão dar um estouro, deixando a minha criança num sobressalto com o susto e por lhe interromper o importante jogo de futebol que estava a jogar na PlayStation, assim como a casa a cheirar a plástico queimado para o resto do dia. Solucionado o problema do jogo da criança, tenho agora que resolver o que fazer e estas palavras apenas acontecem porque estou indeciso no que fazer... Compro ou não uma TV nova para substituir esta?! Se morasse sozinho, não tinha qualquer dúvida e o espaço que esta peça de museu ocupa, daria lugar para aconchegar mais alguns livritos, mas como partilho a habitação com mais pessoas, será difícil convencê-los a não ter televisão. Ainda assim, vou tentar.

14 maio 2017

tarde bem passada

À volta de livros velhos e antigos, a abrir armários e arcas carregadas de livros e escritos de alguém que nunca conheci, mas que logo percebi ter sido um leitor compulsivo, atento e interessado, que gostava de passar as suas horas vagas em prolongadas leituras, assim como um cidadão interventivo na comunidade em que vivia e era a sua, através do associativismo e da escrita em jornais e revistas regionais. A convite de um casal amigo, numa busca sem objectivo específico, apenas na esperança de poder ser surpreendido a cada momento, em cada capa ou em cada encadernação. Beneficiando da generosidade desses amigos, trouxe comigo duas dúzias de livros antigos, dois deles dos finais do século XIX sobre Ciência e Religião, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira e uma colecção de seis volumes, muito bem encadernada, sobre lendas nacionais, entre outros. Tal como sempre acontece, é com alegria e satisfação que vou reforçando o meu acervo.

13 maio 2017

querer e não poder, talvez, não dever

Tal como tenho afirmado, aqui e ali, permaneço muito atento às etnografias nascentes que me vão acontecendo ao longo dos dias. Pequenos nadas, instantes fugidios, rostos e corpos desconhecidos, que teimam em me excitar os sentidos e que converto em material de trabalho, em material para exercícios pantomineiros, em alimento para este meu Apurriar.
O impulso para o registo e para a escrita desses momentos e dessas personagens, muitas vezes obstrói-me o discernimento e, às tantas, tudo e qualquer coisa seria passível de publicação, por exemplo, neste espaço. Acontece que, avisado pelo juízo, aquilo a que alguns chamam razão e outros de senso (o bom), tenho contemporizado a publicação de alguns textos, pelo menos durante o tempo necessário para os ler, reler e, depois, dar a alguém a ler para a devida censura.
Esta hesitação e este melindre derrotam-me, retirando-me parte substancial do entusiasmo e da motivação para essa escrita, que se quer sempre atenta, espontânea e pungente. A verdade é que ao olhar para a "gaveta" [elemento estranho; vivo rodeado de prateleiras, suportes, apoios e armários; não há gavetas na minha vida] o monte de textos não publicados, ou melhor, não publicáveis, vai aumentando. Um destes dias vou olhar para eles com mais atenção. Relê-los e reescrevê-los de forma a os resgatar para uma qualquer forma de existência condigna. A ver vamos.

a propósito de Fátima, 13 de Maio, pastorinhos, azinheiras e afins

Com a exclusividade mediática conseguida, nos últimos dias, por esta visita do Papa Francisco a Fátima, veio-me à memória o primeiro momento em que tive conhecimento deste fenómeno. Foi enquanto criança, filho de bons cristãos e católicos praticantes, ao frequentar a catequese que ouvi, pela primeira vez, falar de uns pastorinhos a quem Nossa Senhora terá aparecido no cimo de uma Azinheira. Não devo ter percebido muito bem a história, mas recordo alguma estranheza pelos factos contados, pois eu também tinha primas e primos que eram pastores e eu próprio, nas férias, também ia com eles a pastorear os animais pelo monte, e nem por isso, alguma vez, tivéramos a visita de tal entidade...
O certo é que, por esses dias, depois de chegar a casa, comentei com o meu pai e, intrigado, quis conhecer a história dessas crianças. Pedi-lhe um livro sobre o assunto e, passados não muitos dias, recebi este livro que li com curiosidade e com expectativa de poder "compreender o mundo". Guardei-o e ainda hoje faz parte do meu acervo, sendo um dos meus primeiros livros. No seu frontispício escrevi apenas "Madalena" (localidade onde à época vivíamos), o que indica que está nas minhas mãos há mais de trinta anos. No canto superior direito, a lápis, a indicação do preço de 3$50.

12 maio 2017

pela primeira vez num festival literário



Aqui está o programa, em versão final, do III Festival Literário de Bragança. A minha vez será na tarde de dia 2 de Junho. Até lá.

09 maio 2017

a quem interessar...


Apareçam no Solar dos Condes de Vinhais. Eu vou lá estar.

08 maio 2017

LER da Primavera


Aí está mais um número da LER. Com vários atractivos e motivos para ser consumida nos próximos dias. Destaco, desde já, um dos manifestos de Francisco José Viegas, pela sua pertinência e objectividade...

03 maio 2017

apurriar em Vinhais

No próximo dia 19 de Maio estarei em Vinhais a apresentar o "Apurriar (2007-2017)", na Feira do Livro de Vinhais. O livro será apresentado pelo ilustre e amigo João Cristiano Cunha. Até lá.

30 abril 2017

mediascape: tolerâncias

Tem sido notícia a putativa tolerância de ponto para a função pública que o Governo se prepara para anunciar paro o próximo dia 12 de Maio, a propósito da visita do Papa Francisco ao Santuário de Fátima. Apesar de céptico relativamente ao fenómeno de Fátima e o considerar um mega-empreendimento do qual a Igreja Católica nunca conseguiu, nem nunca pretendeu, afastar-se, nada me opõe à crença e à devoção popular que aí se manifesta. Outra coisa é o Estado, que é constitucionalmente laico, e assim se deve manter, promover e incentivar os cidadãos a um qualquer culto ou fenómeno religioso. Claro que se percebem todas as motivações e intenções de António Costa ao conceder tal tolerância de ponto: populismo e eleitoralismo claros e evidentes. Nada contra a fé e a devoção de cada uma das pessoas que irão a Fátima por esses dias, mas tudo contra a tolerância de ponto para parte da população portuguesa que, como é óbvio, não irá a Fátima, mas sim usufruirá de mais um dia de férias e descanso ao sol ou à sombra. Não havia necessidade.

29 abril 2017

muito bom


Ofereceram este livro à Andreia no seu último aniversário e tem estado esquecido na estante, sem ser lido por ninguém. Até ontem, pois no momento em que reunia aquilo que queria trazer para o pequeno retiro de três dias por terras de Vinhais, lembrei-me de o trazer para as horas destes dias. Assim foi, hoje de manhã iniciei a sua leitura e agora, depois de almoço, terminei-o. Apenas posso dizer que gostei muito e que, mal o comecei a ler, percebi porque razão Agualusa é um escritor grande, reconhecido e premiado. Muito bom mesmo. Não deixem de ler.

21 abril 2017

ainda é assim

Está a aldeia repleta de seus filhos, reunidos em Páscoa. Tentando manter os ritos tradicionais católicos, cumprem-se as deambulações entre a igreja, a procissão e a visita pascal, momentos que esgotam largas horas da manhã e ameaçam as da tarde, obrigando as impacientes cozinheiras a manterem os leitões, os borregos e as vitelas, mais algum tempo ao lume para não arrefecerem.
Por fim, a hora do fausto manjar em família. Saboreiam-se as melhores carnes, bebem-se bons vinhos e, por último, apreciam-se as abundantes doçarias e sobremesas que rapidamente substituem, na mesa, as travessas dos despojos da refeição. Como se gosta tanto de açúcar, confirmando o velho dito de que é doce e bom porque não amarga.
Depois disto, larga tarde para conviver com família e amigos, rever velhos companheiros, ir até ao café e partilhar aventuras das andanças de cada um, entremeadas por tragos de vinho ou cerveja, ou ainda jogar às cartas para quem perder pagar os consumos efectuados.
Ao pôr do Sol, o regresso a casa para o jantar, normalmente, para acabar com a comida que sobrou do almoço. Mais tarde, ou na manhã seguinte, é hora de regressar às vidas das diásporas e do quotidiano, projectando sempre o próximo regresso ao lugar que os viu nascer.

17 abril 2017

mediascape: omnipresente

Sim, estou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa... quer dizer, desculpem, estou a falar do Presidente da República Portuguesa. Impressionante, ele está em todo o lado, conseguindo mesmo bater os recordes do nosso mediático emplastro.
Agora, noutro registo: É isto ser Presidente da República? Eu pergunto, porque nunca vi nada igual. Eu pergunto, porque a experiência anterior foi traumaticamente oposta. Eu pergunto, porque a memória já me falha ao tentar recordar a praxis dos seus precedentes. Eu pergunto, porque eu até simpatizo com a figura (na altura devida, não o considerei a pessoa indicada para o cargo).
Noutro registo ainda: O homem vai a todas, não perde uma oportunidade... quer estar ao lado de todos e cada um dos portugueses nas suas horas mais aflitas.
Ainda, registo outro: a sua omni-presença começa a ser exagerada. Tem-se revelado um interprete popular na sua magistratura e, por contraste com o seu antecessor, todos nós simpatizámos com ele, mas tudo tem os seus limites e Marcelo Rebelo de Sousa, parece-me, ainda não conseguiu distinguir bem os limites entre os diferentes papeis sociais que desempenhou e desempenha.
Lamento dizê-lo, mas o seu "reinado" será, assim, fácil e recorrentemente caricaturado e ridicularizado.

sarampo

Eu não tenho a certeza, mas acho que já me manifestei, aqui, sobre esta questão dos movimentos "anti-vacinas" ou "anti-vacinação". Contudo, e face ao que está a acontecer com esta nova epidemia de Sarampo em Portugal, não posso deixar de dizer, ou se calhar, voltar a dizer, como é estúpido e irresponsável não vacinar os filhos. Meus senhores e minhas senhoras, o que mata são mesmo as doenças e não as vacinas, apesar do residual risco de alguma complicação ou mesmo morte. Senhores e senhoras, não se trata de uma imposição do Estado, trata-se de uma questão de saúde pública e essas doenças só estavam e estão erradicadas da nossa sociedade, porque a maioria de nós sempre vacinou as criancinhas. Meus e minhas egoístas de merda, se vós vos podeis dar ao luxo de não vacinar os vossos filhos, é porque eu e a grande, e esmagadora, maioria de pais vacinamos os nossos e sabemos que ao fazê-lo estamos a contribuir para a imunidade deles, assim como para a de todos nós. O que não quer dizer que os ditos vírus e bactérias não estejam por aí, mas sim que vivemos numa sociedade com salubridade e cuidados de saúde suficientes para estarmos a salvo de tais enfermidades.
Basta espreitarmos a argumentação desses iluminados dos grupos e associações "anti-coisas", para percebermos que estamos em exclusividade no território das crenças, ou talvez, das crendices, com a ambição e pretensão de fundamentar o seu discurso e sua não-prática naquilo que é commumente denominada de pseudo-ciência, de braço dado com doses cavalares de teorias da conspiração para todos os gostos e feitios.
Tudo isto porque não se trata de uma questão de direitos ou liberdades, mas sim, total e exclusivamente, de uma questão de saúde pública e, assim sendo, não deveremos ser tolerantes, nem contemplativos.

adenda: (por esquecimento faltou escrever) Aquilo que é o conforto, o bem-estar e a saúde que hoje experimentamos devem-se, quase unicamente, à ciência e ao seu desenvolvimento teórico, tecnológico e laboratorial. Aquilo que se ambiciona sempre é uma ciência reflexiva e crítica que permita a sua evolução e desenvolvimento, mas atitudes como esta da não-vacinação, para além de demonstrarem um total desrespeito por todas as vítimas das respectivas doenças, demonstram a falta de dignidade para com todo o esforço e despesa realizados ao longo de décadas e décadas. Não contribuem em nada para esse esforço colectivo, muito pelo contrário. Disse.

a arte de bem escrever


No remanso destes poucos dias por terras de Trás-os-Montes, a leitura resumiu-se a este pequeno livro.
Servindo-se de três personagens centrais, Mário Cláudio tece uma ficção em volta do épico de Luís de Camões, Os Lusíadas, reabrindo uma velha discussão sobre a autoria dessa obra. Sem nos dar qualquer resposta ou novidade sobre essa dúvida(?), o autor, através dessas três personagens, percorre todo o tempo entre as aventuras e desventuras de Camões e os nossos dias, numa narrativa empolgante e muito bem escrita. Mário Cláudio, que chegou a ser meu professor na Escola Superior de Jornalismo, confirma aqui o seu génio literário. Muito bom.

16 abril 2017

domingo de páscoa

Dia inteiro na aldeia, desde a longa espera pela visita pascal para poder sentar à mesa e, gulosamente, comer borrego e leitão assados, até ao final do dia, com uma tarde inteira sentado à sombra da Figueira a jogar cartas (à Blota) e a beber cerveja (SuperBock). Rico e tranquilo dia passado em família. Sobraram alguns registos no telemóvel da Emília.





14 abril 2017

caminhar pelo monte

Todos os anos por esta altura dedico um dia para passear, caminhando pelo monte, naquilo que é o termo de Vila Boa, meu axis mundi, procurando sempre percursos diferentes e alternativos que possibilitem andar durante grande parte do dia sem sentir qualquer sinal de civilização. São passeios magníficos e, a cada momento, a contemplação de paisagens fabulosas faz-nos esquecer o cansaço crescente que nos invade o corpo. Em pequeno grupo familiar, sempre liderado e orientado pelo patriarca, é sempre um prazer observar a natureza neste seu momento de cíclico rejuvenescimento. Estes passeios remetem-me sempre para Jean-Jacques Rousseau e os seus "Devaneios do caminheiro solitário" (2007, Livros Cotovia), onde aproveita os seus passeios pelo campo para reflectir sobre as questões que lhe importunam a mente. É uma obra que me marcou e à qual, por razões várias, regresso regularmente.
Vou sair para o monte daqui a minutos e quando regressar, aproveitando as maravilhas da nova tecnologia, aqui partilharei alguns desses momentos e lugares. Bom passeio.






12 abril 2017

finalizando colecção

Aproveitando os dias estivais e o menor trânsito no centro da cidade Invicta, dediquei o início das manhãs desta semana à visita de livreiros e alfarrabistas, com o propósito de completar a minha colecção da revista Brigantia. Revista de Cultura, editada desde 1981, pela Assembleia Distrital de Bragança. Já há muito tempo decidi reunir todos os seus números, tarefa bastante difícil, principalmente, a partir do momento em que os seus promotores desinvestiram nesta publicação e a levaram quase à extinção. Ela ainda existe, mas já nada tem de parecido com as edições mais antigas e o momento decisivo para essa degenerescência foi o desaparecimento do seu fundador e director, Dr. Belarmino Afonso. Desde a sua morte que a revista deixou de ter a dinâmica que possuía anteriormente e, daí para cá, foi sempre em perda. Está na altura de lhe dar uma nova vida, pois continuo a acreditar que há lugar e espaço para a sua sobrevivência enquanto projecto editorial e cultural.
Regressando às deambulações matinais pelas livrarias alfarrabistas. Visitei a Livraria Sousa & Almeida, na rua da Fábrica, que soube através de notícia no JN, irá fechar até ao final do ano, pois o edifício foi vendido e será ocupado por uma unidade hoteleira (só podia...). Segundo me disse o seu proprietário, tem todos os livros a, pelo menos, 50% do preço de capa e está a tentar vender o maior número de livros possível para fechar as portas. Lá encontrei algumas preciosidades e questionei-o sobre a revista Brigantia, ao que me respondeu que sim, sabe que tem vários números no armazém, mas tem que ter tempo para lá ir e depois me dirá alguma coisa... até hoje, ainda não me disse nada. Vou lá regressar amanhã de manhã. Entretanto, fui à Livraria Académica, na rua Mártires da Liberdade, e falando com o Sr. Nuno Canavez, logo consegui o que pretendia. Faltavam-me 15 números da revista e na Académica consegui, desde já, 10 deles a um preço espectacular. Assim e agora, apenas me faltam 5 números da revista, que sei o Sr. Nuno lá tem, mas como fazem parte da sua colecção completa, ele não a quer desfazer e prefere esperar para a tentar vender inteira. Compreensível e por isso não insisti, apenas lhe pedi para me ligar caso consiga encontrar esses últimos números em falta.
Satisfeito termino estas palavras.

04 abril 2017

é hoje...

Daqui a pouco estarei na Universidade Católica a falar sobre Trás-os-Montes, numa viagem através dos seus caracteres culturais e identitários. Conceitos como a identidade, a alteridade, a nomeação e tradução cultural serão abordados. Apareçam.

01 abril 2017

a obsessão da portugalidade

Aproveitando a ilusão de promoções (flash sales) da Fnac, trouxe hoje comigo o mais recente livro de Onésimo Teotónio Almeida, publicado já em 2017 e que versa sobre as nuances da identidade nacional, ou melhor sobre a identidade da portugalidade. Sendo uma questão que me interessa - a identidade - e sobre a qual também tenho dedicado algum tempo e trabalho, ainda que numa outra perspectiva e dimensão, as expectativas são elevadas também porque se trata de Onésimo Teotónio Almeida. No momento em que releio partes do seu despenteando parágrafos, vou colocar este novo livro no cimo do monte de livros para ler. Em breve regressarei com os devidos comentários.

Os intelectuais, bem como os cientistas sociais, ignorarão à sua própria custa esta questão da identidade. Ela não passará, todavia, por mais que eles lhe fechem os olhos. Poderá mudar de nome - e talvez até conviesse, dado que, como espero ter demonstrado, o termo hoje incorpora um complexo de realidades em simultâneo. Todavia, ainda que mudasse de nome, não deixaria de existir. (autor, folha prévia ao frontispício)

pita arisca

Foi no passado fim-de-semana que, em grupo de amigos, me levaram a jantar à casa de pasto Pita Arisca, em Torno, concelho de Lousada. A única informação que tinha era que iria comer um cabrito no forno delicioso. Apreciador como sou dessa carne, foi com alguma expectativa que viajei pela velhinha nacional 15 (a caminho de Amarante), trajecto que fiz semanalmente, durante anos e anos, até à conclusão da A4 entre o Porto e Amarante, mas que desde então não voltei a fazer. Também por isso foi uma experiência interessante, pois reconheci todas as curvas dessa estrada e muitos dos elementos da paisagem que permanecem.
Mal acabados de sentar à mesa, logo começaram a servir as fartas travessas de cabrito e de batatas assadas em forno a lenha. Se o cabrito é bom, as batatas não lhe ficam atrás, sendo que o segredo para o seu excelente sabor é serem assadas em tabuleiros colocados por baixo das grelhas onde assam os cabritos. Muito, muito bom. Tudo isto acompanhado por um verde tinto da casa, bem fresco e bebido em tigelas de louça branca e que encaixou superiormente com a carne do cabrito.
Comemos e bebemos até ficarmos consolados e o preço final não foi além daquilo que a casa anuncia, ou seja, vinte euros por pessoa. Foi tempo então de regressar a casa e acabar a noite com um refrescante Gin Tónico.
Nota final para reafirmar o meu prazer em descobrir novos locais, em viajar para degustar aquilo que de bom se faz um pouco por todo o nosso país, sempre acompanhado por bons amigos igualmente amantes de boa comida.

31 março 2017

pena é não ser ouvido por quem deveria

Frederico Lourenço, escritor e filólogo, ao receber o Prémio Fernando Pessoa, no dia 29 de Março, referiu-se à importância das línguas clássicas e à necessidade de as incluir novamente nos programas do ensino secundário. O Latim e o Grego não são línguas mortas e são centrais para a compreensão da nossa História, enquanto nação, enquanto cultura, enquanto civilização. As ciências humanas, tão desprezadas nas últimas décadas pelos decisores políticos e pelos responsáveis do ministério da educação, dependem de um conhecimento claro e estabelecido destas línguas.
Eu, felizmente, quando ingressei no 10º ano, ainda tive a oportunidade de escolher uma delas, tendo optado pelo Latim. O fascínio pela História e pela civilização Romana foram as motivações para a escolha, mas na altura estava longe de imaginar que um dia esse conhecimento, ainda que básico e pouco trabalhado, me iria ser útil para o meu "modo de vida".
Deixo aqui a ligação para a notícia da excelente intervenção de Frederico Lourenço.

29 março 2017

sobressalto pessoal

Foi por estes dias, durante uma aula, quando eu falava da relação entre cuidador, tratador ou médico e doente, paciente ou utente, que fui interrompido por uma aluna de enfermagem que me disse que agora o termo utilizado não seria doente, paciente ou utente, mas sim cliente. Não me apercebi logo do que estava a ser dito e questionei a referida aluna sobre o contexto onde essa alteração se tinha verificado, ao que ela respondeu que tinha sido na própria universidade que um, ou mais professores (?), lhes ensinara que o termo apropriado é cliente.
Não quis acreditar, mas acho que me consegui controlar e ninguém terá percebido a minha súbita indisposição. Então agora são as próprias instituições de ensino especializado e superior, que preparam e formam os profissionais da saúde de amanhã, quem incute e "evangeliza" o credo liberal. Irei tentar perceber o que está acontecer...
A transformação de doentes, pacientes e utentes em clientes é mais uma prova de como o capital subtraiu aos sistemas de saúde, qualquer réstia de humanismo, de cuidado, de relação pessoal entre cuidadores e seus doentes. É também uma transformação radical nas percepções e nas representações sociais relativamente aos sistemas de saúde. Agora, mais do que nunca, apenas os clientes - leia-se, apenas quem tem dinheiro - poderão aceder a cuidados de saúde com qualidade. Depois, mesmo etimologicamente, ser cliente implica a presença do factor valor (dinheiro), enquanto que os termos doente, paciente e utente ilibam ou permitem a ausência desse factor. Daí esta persistência liberal em conquistar e dominar os sistemas de saúde. Estes e a Segurança Social são e serão, nos próximos anos, os grandes negócios para o capital, que só descansará quando conseguir eliminar o Estado desses sectores, ou melhor, quando conseguir eliminar o Estado da nossa sociedade.
Resistirei, resistiremos até não podermos mais. Quando vou ao médico, ao centro de saúde, ou ao hospital e necessito de qualquer cuidado médico, sou e serei sempre um doente, um paciente, ou quando muito, um mero utente do Serviço Nacional de Saúde.

25 março 2017

passado recente da cultura e sociedade portuguesa


Tive conhecimento deste livro na última revista LER (Inverno 2016), onde o autor, António Araújo é entrevistado e apresenta o livro. Chamou-me a atenção o propósito da obra e o jeito, claro, objectivo e desempoeirado, com que o autor falava desse passado recente e, em concreto, da década de 80, tão desprezada pelo mainstream cultural e editorial da actualidade, procurando, a partir da direita, as clivagens que continuam a dividir as culturas de esquerda e de direita. Tal como explica o autor no inicio do livro e também explicara na entrevista à revista LER, este projecto editorial implicou a edição de um outro livro, escrito por João Pedro George, sobre o mesmo período histórico só que do ponto de vista da esquerda e que virá a público ainda este ano de 2017.
Rapidamente procurei o livro e o trouxe para casa. Foi a leitura das últimas noites - naqueles momentos em que já nada mais poderá acontecer a não ser esperar que o sono chegue.
Aconselho a todos e a todas que queiram conhecer um pouco melhor a nossa sociedade das últimas décadas.
Espero com alguma expectativa o livro de João Pedro George.

21 março 2017

racismo, europa e democracia

Nem de propósito, ou nem a pedido. Estava eu a dizer no texto anterior que os europeus deveriam cuidar dos seus cidadãos para evitarem populismos e suas personagens, quando nos chega esta pérola da boca de Jeroen Dijsselbloem, ainda ministro das finanças da Holanda e ainda presidente do Eurogrupo, que acusou os europeus do Sul de gastarem o seu dinheiro “em copos e mulheres” e “depois pedirem que os ajudem”. Pois muito bem, para além do óbvio, ou seja, que este senhor não tem condições para exercer os cargos que exerce, esta declaração diz muito mais acerca da sua mundivisão do que diz dos povos do sul da Europa. Este senhor, desesperado pelo resultado obtido pelo seu partido na Holanda e vendo o seu chão a desabar, revela-se em todo o seu ressentimento e racismo. Sim, esta declaração não é xenófoba, esta declaração é completamente racista e transmite todo o ódio e incompreensão pelos diferentes e variados modos de vida existentes na Europa democrática e pluralista.
Só tem uma escolha, demitir-se dos cargos europeus e regressar ao seu mundo perfeito, sério e responsável, aquele das virtudes públicas e dos vícios truncados pela privacidade. Siga sr. coiso.

populismos, europa e democracia

Ainda a propósito do rescaldo das eleições na Holanda e quando todos, ou quase todos, suspiram de alívio pela não vitória do partido de extrema-direita de Wilders, fartam-me os comentários dos eruditos do costume. É tão simples quanto isto:
Eu também fiquei satisfeito pela relativa derrota dessa política nacionalista, extremista e xenófoba, mas não entendo a deriva generalizada, na opinião publicada, acerca daquilo que é comum tratar-se por populismo. Estou farto desse raciocínio. E mais agoniado estou com o lugar comum das justificações encontradas para o crescimento desses populismos pela Europa. Reparem, segundo a maioria dos opinadeiros da nossa praça, a razão quase exclusiva dessa evolução é o esvaziamento dos centros políticos ou partidários (numa lógica direita/centro/esquerda). Não estou com isto a defender esse ou outro populismo, mas, parece-me esta explicação muito redutora e insuficiente, principalmente, quando e porque proferida sempre por quem ocupa esse centro, habituado aos privilégios das grandes organizações, ao mainstream da comunicação social e, não menos importante, à grande resistência e conservadorismo desses privilegiados do sistema em relação às periferias e, acima de tudo, em relação às mudanças de paradigma.
Minhas senhoras, meus senhores, vivemos ou não em democracia?! E a democracia é isso mesmo, permitir a existência de quem pensa, opina, age e acredita noutra estruturação para a sociedade. Podemos gostar ou não, podemos acreditar ou não, mas em democracia deveremos sempre aceitar os resultados do voto livre, consciente e democrático.
Tal como referi em relação aos EUA e à vitória de Trump - que me subtraiu qualquer vontade de comentar o que passou a chegar do outro lado do Atlântico - e direi sempre, vencedores e vencidos deverão sempre adaptar-se às novas realidades. Se não são dignas ou são impróprias, tratem de alterar as leis e os regulamentos, tratem de cuidar dos cidadãos e das suas comunidades. Assim se derrotarão todos e quaisquer populismos e seus personagens.

20 março 2017

a quem interessar...


Aula aberta a toda a comunidade escolar e não escolar. A quem interessar, apareça.

15 março 2017

hoje, na Holanda...

No próprio dia em que decorrem as eleições na Holanda e quando um dos possíveis vencedores poderá ser um extremista de direita, partilho aqui a minha preocupação perante tal possibilidade. Bem sei que será só mais um país onde o projecto europeu caducou, mas assusta verificar que os nacionalismos, ainda por cima populistas, estão de regresso um pouco por toda a Europa. Para além dessa preocupação, um outro sentimento me assaltou um destes dias, quando espreitei o "tempo contado" de J. Rentes de Carvalho e li:

Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver.

Cada um de nós tem o direito à sua opinião e a todas elas é devido o respeito e a tolerância democrática. Em relação a esta declaração de voto de Rentes de Carvalho, eu não posso deixar de a respeitar, mas desapontado direi que eu até poderia subscrever grande parte das suas preocupações e protestos, mas discordo totalmente quando esse voto é justificado como um instrumento para uma oposição construtiva, pois havendo a possibilidade de Wilders vencer, aquilo que teremos não será uma oposição nacionalista e defensora dos cidadãos holandeses, será a execução de um programa xenófobo e racista, que conduzirá a Holanda e, depois, a Europa, para um percurso perigoso e desconhecido.
Espero e quero que Wilders perca e bem estas eleições.

12 março 2017

na livraria Traga-Mundos, em Vila Real



Eu e o António Sá Gué à conversa sobre o livro "apurriar (2007-2017)" e sobre tantas outras coisas que o ambiente, acolhedor e intimista, proporcionou. No fim, registámos o momento com um trago de Porto. Simpático.

09 março 2017

mediascape: velha portugalidade

Depois do tão propalado e infeliz incidente com a conferência que Jaime Nogueira Pinto foi impedido de proferir na Universidade Nova, dei conta da existência de uma coisa chamada "nova portugalidade" e fiquei curioso. Vai daí e pûs-me a googlar e encontrei, para além dos feeds das notícias sobre o caso, uma página de facebook dessa associação(?), movimento(?), ou lá o que isso é(?) e fui conhecê-la. Bem, se a portugalidade nova é isto, se é assim que se apresentam ao mundo, então temos duas hipóteses: ou fugimos para bem longe dessa novidade, ou então rimos a bom rir, pela estupidez e soberba deste(s) indivíduo(s). Eu optei pela segunda hipótese, pois chega a ser vergonhosa a ideia de "novo" Portugal que se defende, pois não é mais do que um saudosismo bacoco dos mitificados feitos dos nossos lusos antepassados, uma glorificação masturbadora de personagens anacrónicos e perdidos na penumbra do tempo, uma sobrevivência ignorante de algo em extinção. Lamento informar, mas o que lá vai, já foi, não volta a ser e Portugal será sempre novo e, em simultâneo, sempre velho. Não tenho dúvidas, este protagonismo mediático foi o clímax de uma existência breve, pois aquilo que aqui se pretende não é uma nova, mas sim uma velha portugalidade.
Não, muito obrigado.

Adenda:
para que não julguem que é conversa minha ou fiada de alguém, deixo aqui duas ligações importantes para perceber ao que esta gente vem...

https://www.facebook.com/novaportugalidade/?ref=ts&fref=ts 
(página facebook nova portugalidade)

http://bomdia.lu/reerguer-a-portugalidade-e-o-dever-da-hora/ 
(um artigo do seu membro fundador(?) - aqui poderão encontrar autênticas preciosidades ou pérolas significantes da ignorância deste rapaz. Leiam, é giro!)

semiótica infantil

Ontem, dia em que se assinalou o dia internacional da mulher, a criança trouxe da escola um presente para a mãe. Em grande excitação entregou-lhe este desenho, dizendo-lhe que era pelo dia das mulheres.


Como não poderia deixar de ser, a mãe ficou toda contente e embevecida pela arte do filho. Ao olhar com atenção para o desenho não percebeu alguns pormenores e pediu ao seu autor para lhe explicar todos os elementos figurados, o que este fez com desembaraço e sem qualquer hesitação. Para além do óbvio, a figura humana é a mãe e o ponto que se vê entre as pernas desta é, disse ele, o umbigo. A mãe, tentando ser pedagógica, quis-lhe explicar que o umbigo é na barriga e não a meio das pernas. Resposta imediata da criança:
- ó mãe, não percebes nada! Se eu fizesse o pontinho na barriga da menina, não era um umbigo, ia ser um botão da roupa... por isso fiz ali e assim ninguém diz que é um botão.

08 março 2017

brinde a nós

Não me perguntem porquê, mas sinto-me invadido por uma alegria, talvez próxima da euforia. Estou sentado, e sozinho, num sofá e essa invasão repentina fez-me lembrar esta bonita e pouco sóbria cantiga. Estou a ouvi-la e a saborear cada estrofe da sua letra. Brinde a nós, a vós e a quem aí vier.

04 março 2017

solilóquio

Ainda que frequente, por opção, as caóticas praças de alimentação da modernidade, procuro sempre um canto ou recanto que me possibilite a sensação, ainda que ilusória, de refúgio desse caos visual, sonoro e olfativo.

nova paragem


Para quem possa estar ou passar por perto. Até lá.

25 fevereiro 2017

possuir

Ao percorrer a paisagem de sempre, por caminhos e canelhas dos lugares que sempre conheci, vou descobrindo as alterações que se vão verificando, aqui e ali, nem sempre felizes ou positivas, mas quase sempre significantes do tempo que passa, ou do desgaste e envelhecimento dos materiais e das pessoas, ou ainda do abandono compulsivo do território. É por tudo isto que o sobressalto é maior quando deparamos com algo como o que está na fotografia... Uma porta com carabelho, bem característica deste lugar, gasta pelo tempo e pelo uso, remendada para a poder perpetuar até um futuro desconhecido e uma imponente soleira, que para além de gasta, partida significa o abandono e a falta de serventia. Uma porta que já não serve nada, nem ninguém, mas ainda assim merece o cuidado da nomeação. Essa eterna preocupação da identidade e, acima dela, a essencialista necessidade de posse da terra e do património, que teima em perseguir o Homem, ainda que seja a posse de um monte de pedras, ou de um pedaço de nada.

23 fevereiro 2017

refúgios

Mesmo em espaços concebidos e destinados para considerável confusão e visível anarquia, como são as praças de alimentação dos centros comerciais, que eu também com regularidade frequento, procuro sempre um espaço, canto ou recanto, mais sossegado. Nem sempre o consigo, ou nem sempre é possível, o que me leva a querer sair dali. Por vezes, mesmo perante o aparente caos visual e sonoro, consigo encontrar refúgios improváveis e, assim, manter-me em paz e sossegado, alheado de tudo que me rodeia.

diálogos maiores

Encontrado, quase por mero acaso, numa feira de livros a preços reduzidos, aquilo que me despertou a atenção foi o nome de Marguerite Duras. Pois bem, por 4,90 € comprei este livro que compila cinco conversas entre a referida escritora e o então Presidente da República Francesa, François Mitterrand. Conversas improváveis pensarão muitos, e pensei eu, pois desconhecia a amizade e a longa história que este dois ilustres gauleses partilhavam, desde que a segunda guerra mundial os uniu na resistência francesa.
A estação de correios da rua Dupin, foi o título escolhido para esta edição, pela própria Duras e conta com um prefácio de Mazarine Pingeot, filha de François Mitterrand. Foi leitura das últimas horas e, uma vez mais, foi com surpresa que percebi a cumplicidade, o respeito e a amizade que se percebe a cada momento das conversas, que ocorreram entre 24 de Julho de 1985 e 16 de Abril de 1986, sendo que a primeira tem por título: "A estação dos correios da rua Dupin"; a segunda: "O último país antes do mar"; a terceira: "O Céu e a Terra"; a quarta: "África, África"; e a quinta: "A Nova Angoulême".
Mesmo tendo em conta a diversidade dos temas abordados e a frontalidade e franqueza perceptível em cada frase ou afirmação, a conversa que mais gostei foi a segunda, o último país antes do mar, que aconteceu no dia 23 de Janeiro de 1986, no Palácio do Eliseu e na qual os dois reflectem sobre o seu país, as suas qualidades, os seus defeitos, o seu ethos;e, parece-me, o seu pathos. Ao ler este diálogo pude perceber como a percepção da realidade social francesa era tão distinta da actual, ou então, como tudo evoluiu desde então e até à actualidade.


Como não poderia deixar de ser, fiz uma pequena ficha de leitura, que agora aqui partilho e onde se destacam alguns dos seus pensamentos:

[conversa: o último país antes do mar (23/01/1986)]
M.D. - A França é um país muitas vezes invadido e outras completamente invadido. (p.46)
F.M. - Mas é um país que absorve, absorve tudo. E com o que absorve faz uma coisa original. Uma catálise é sempre extraordinária. Sabe, o contributo das populações exteriores não me inquieta nada, não tenho de modo algum a impressão de que vamos perder um valor qualquer - aliás, bastante vago - que seria a "alma francesa". A alma francesa também é feita desses contributos e é muito bom que assim seja. (p.46)
F.M. - Há muito poucos excessos racistas em França. Há minorias racistas, mas raramente contaminam a nação inteira... (p.49)
M.D. - Você diz que é o passado comum, a História comum, nos eventos, feitos e ideias, que fazem a nação. Mas eu digo que somos compatriotas porque lemos os mesmos livros na mesma língua que aprendemos. (p.51)

[conversa: África, África (25/02/1986)]
F.M. - Na Palestina, a Bíblia reinventou uma das mais belas paisagens do mundo que se pode, assim, ler duas vezes. A alma tem a impressão de contornar a curva das colinas e de penetrar no segredo da terra e do mundo. Mas reconheço que você também tem razão: é necessário passar pela escrita. (p.98)
F.M. - Agora, é diferente. Há Israel.
M.D. - Sim, agora Israel é temível. É o segundo exército mais poderoso do mundo.
F.M. - Evitemos as comparações com as grandes potências. Mas se a grandeza está, como creio, na resolução, na força do espírito, Israel não está mal colocado.
M.D. - O Ocidente é judeu. Esta faculdade de o homem europeu ser simultaneamente o outro e ele mesmo é judia.
F.M. - O nosso mundo ocidental, sim, talvez. Os outros, os Chineses, os Indianos, já não.
M.D. - Concordo que é unicamente o nosso mundo ocidental. Somos todos judaico-cristãos. É a nossa origem comum. (p.99)
F.M. - Você faz-me pensar nos Carvalhos que eu planto. Serão adultos aos cem anos. Os meus netos não os verão na sua plenitude. É assim. Prever o que se passará depois de nós dá à vida a sua dimensão, uma dimensão individual - eu planto - e colectiva - os outros desfrutarão a doçura da sombra, admirarão a força e a harmonia de uma arquitectura viva. Existe uma filosofia da árvore. (p.103)

[conversa: a nova Angoulême (16/04/1986)]
F.M. - Nada se constrói assente no medo. O que espero da França é que não tenha medo do amanhã, nem da ciência, nem do pensamento, nem das formas. E que ela ouse e persevere no seu apreço pelas considerações universais, que ela se interrogue sobre os outros, sobre si mesma. Isso não proíbe nem as ideias, nem as palavras, nem as acções quotidianas. (p.123)

O encontro de dois vultos maiores da história recente francesa, que eu há muito e por razões diferentes admiro, resultou neste livro, que se apresenta também como um documento histórico e testemunha das experiências vividas pelos dois intervenientes. Leitura que se recomenda.

20 fevereiro 2017

imperdível, apurriar no Alvim

Para aqueles e aquelas que, por distracção ou omissão, não assistiram ao vivo, aqui fica o registo imperdível e para memória futura.
 

16 fevereiro 2017

amor inteiro

Ela diz que se devia conseguir viver como eles vivem, o corpo abandonado num deserto e, no espírito, a recordação de um único beijo, de uma única palavra, de um único olhar para um amor inteiro.
(Margarite Duras, in "olhos azuis, cabelo preto", 2014:53)

14 fevereiro 2017

ao espelho

Eu e o apurriar fomos conversar com o Alvim. Gravámos hoje de manhã, vai passar no próximo dia 17, sexta-feira, pelas 24 horas, no Canal Q. Não percam.

10 fevereiro 2017

solilóquio

Serei um cáustico? Sim, sou. Sou um cáustico e com sádico prazer! Sempre. Qualidade indispensável para uma mente sã.

alma da vinha

Foi algures neste último Verão que eu conheci este vinho. Por um mero acaso, quando fui comprar um maduro branco chamado Porrais, que descobrira uns meses antes e do qual fiquei bebedor, a funcionária da loja aconselhou-me este Alma da Vinha, também maduro branco e com um preço excepcional. Aceitei o desafio apenas porque adorei o seu nome. Trouxe uma caixa de seis garrafas.
Entretanto, o Verão que durou até finais de Outubro, obrigou-me a bebê-lo e a querer sempre mais. Afrutado e bem fresquinho encaixou sempre muito bem nas conversas estivais, diurnas ou nocturnas, que foram acontecendo.
Mais tarde e com a chegada do tempo mais fresco, foi altura de experimentar a sua versão tinta, ou seja, maduro tinto. Boa escolha, também com um preço estúpido e de razoável qualidade, apesar de não ter o mesmo nível que o branco, até porque se exige sempre mais de um tinto, a verdade é que fiquei seu consumidor e, nos momentos quotidianos em que me apetece beber um copo de vinho, é a ele que me dirijo.
Foi por isto e assim que me lembrei de contactar os seus produtores, a empresa Caves do Monte, para me patrocinarem, com maduro branco, o livro que agora lancei. Foi com reforçado prazer que pudemos confraternizar nessa tarde de Janeiro e enrolar as palavras no sabor da alma dessa vinha.

09 fevereiro 2017

caminho certo

EDITORIAL

A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa!

Depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa.
Provavelmente nenhum outro país, como Portugal, é tão cioso de querelas ortográficas. As línguas com maior difusão no planeta lidam com o tema de forma simples: aceitam as suas diversidades e seguem adiante. Isso sucede com o Inglês, o Francês ou o Espanhol, sendo que, no caso dos dois últimos, as respectivas academias não se coíbem de propor alterações, mas meramente indicativas.
Os acordos ortográficos são, também, uma originalidade nossa. Depois da revolucionária reforma de 1911, feita a pretexto de “simplificar” a escrita e o ensino, veio o AO de 1945 e, por fim, o AO de 1990 (ressuscitado em 2006 para ser depois imposto em 2011). Pelo meio, houve várias alterações e mexidas de pormenor e tentativas abortadas de fazer outros acordos, alguns até bastante radicais (o de 1986, por exemplo, abolia quase todos os acentos e criava palavras absolutamente ininteligíveis).
Chegámos a 2017 com um quadro muito pouco animador: um comprovado caos na escrita (há cada vez mais exemplos, estão online, e todos os dias são coligidos mais) e as mesmas críticas de sempre, dia a dia ampliadas pela absoluta inércia dos poderes decisórios. A diferença é que, além de vários grupos de cidadãos não terem desmobilizado, a Academia das Ciências de Lisboa veio enfim apontar uma série de erros evidentes e propor a sua correcção. Porquê? Porque a Academia está a refazer o seu Dicionário (até finais de 2018) e quer usar nele uma ortografia digna desse nome. Por isso veio propor um conjunto de “aperfeiçoamentos” que põem em causa muitas opções consagradas no AO.
Claro que, a isto, o ministro Augusto Santos Silva já veio dizer “não”, embora acrescente que “nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria”. Ou seja: está mal, mal continuará. Que as crianças aprendam erros, problema delas. Que pais e professores sejam obrigados a ensiná-los, pouco importa. Isto é uma posição insustentável e mostra como o PS, que revê e reverte tudo e mais alguma coisa, só não revoga aquilo que manifestamente não entende: e isso chama-se ortografia.
O problema é que, depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa. Políticos e partidos não podem furtar-se à responsabilidade. É preciso agir, de forma consciente (e, como diz a Academia, com bases científicas), abandonando de vez a inércia. A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa! Ou dispam-na de vez. Mas façam algo digno, por favor.
(Nuno Pacheco, in Jornal Público, 9/2/17)

03 fevereiro 2017

embaraço meu

Foi com prazer que, pela primeira vez, pude declarar na contra-capa de um livro, a minha repulsa pelo acordo ortográfico que está em uso por decreto. É que já em momentos anteriores, leia-se publicações, tentei fazê-lo, mas fui sempre convencido por terceiros a não vincar de tal forma esse meu sentimento, e acabei sempre por remeter para a ficha técnica a minha agonia. Curioso, eu diria mesmo, desconcertante é agora aperceber-me que, afinal, também escrevi palavras segundo a nova regra. Pois foi. Neste exercício masoquista de ler em busca de gralhas e erros, aterrador foi encontrar essas palavras mal escritas. Eu até sei que para muitos leitores não passam de pequenos nadas, mas para quem vincou de tal forma a indisposição face à nova prática, não deixa de ser embaraçoso. Lamento.