21 setembro 2017

mediascape:desilusão rural

Pois é, afinal a coisa não era assim tão boa, tão fácil e tão promissora. Chegou ao fim o projecto "Novos Povoadores", cuja principal missão se traduzia na promoção do êxodo urbano e no repovoamento do interior rural do país. Eu, em devido tempo, referi-me a ela (à coisa) e houve quem não gostasse das minhas palavras. Lamento, apenas manifestei a minha opinião, baseada não só na minha sensibilidade, como também baseada naquilo que é o meu conhecimento da imensa ruralidade  em Portugal.
Frederico Lucas (na fotografia) era o líder e o rosto visível do projecto, incansável e empreendedor, acreditou que seria possível inverter a litoralização da população portuguesa. Tive o prazer de o conhecer, em Bragança, e com ele trocar umas impressões sobre o projecto e sobre a realidade do mundo rural na actualidade. Também trouxe aqui, a este espaço, um texto sobre o assunto, que na altura e porque eu o partilhei nas redes sociais, motivou algum desagrado no Frederico e seus pares.
O título da notícia do fim do projecto é muito forte e até humilhante para quem, como o Frederico, tanto lutou por conseguir fazer vingar a sua ideia e projecto. Não fico satisfeito com este desfecho, mas aceito-o como consequência natural da realidade demográfica e das políticas para o território nacional, nas últimas décadas.
Deixo-vos a referida notícia do Jornal de Notícias, do passado dia 18 de Setembro, assim como, ao arrepio do que me é habitual, re-publico o texto que escrevi no dia 10 de Agosto de 2012.


"êxodo urbano, novos povoadores e a reconquista do nordeste..."


Li hoje no jornal Mensageiro de Bragança a notícia de que o primeiro de cinco casais que já estava instalado no concelho de Alfândega da Fé, há cerca de um ano e ao abrigo do programa de repovoamento rural Novos Povoadores, abandonou o projecto e regressou ao litoral, de onde eram originários. Na mesma notícia, a actual presidente da respectiva Câmara Municipal admitiu que apesar de ter achado interessante e ter apoiado o projecto, sempre desconfiou da sua aplicabilidade e sucesso. Este era apenas o primeiro casal que o projecto, em fase piloto, conseguiu transferir e com esta desistência, os responsáveis pelo projecto serão obrigados a encontrar um casal em condições de substituir aquele que saiu.
Alguém terá ficado surpreendido com esta notícia? Não sei, mas eu não fiquei nada surpreendido. Admiro até como foi possível esse casal aguentar cerca de um ano longe de todas as suas referências e do seu "habitat natural". Não quero com isto dizer que este movimento é contra-natura, pois até considero o projecto teoricamente interessante, mas a verdade é que não é nada fácil, hoje em dia, trocar o conforto e as acessibilidades do espaço urbano pelo desconforto e distâncias dos territórios rurais e do interior do país. A promoção dos territórios rurais é importante e parte da fundamentação deste projecto assenta nas enormes assimetrias existentes no território nacional e na importância de tentar contrariar a forte tendência para a litoralização demográfica. Isso pode, de facto, acontecer através de um êxodo urbano, mas será sempre um esforço incomensurável e provavelmente, inglório.
Apesar da simpatia que o projecto me merece, penso que para quem conhece um pouco a realidade dos territórios rurais deprimidos e suas comunidades, não deixa de ser uma ideia romântica pensar que esses novos povoadores seriam um caminho para o repovoamento e a solução para todos os problemas dessas comunidades e territórios. Não são. Aliás, um dos problemas deste projecto é mesmo essa mensagem virginal, naturalista e idílica do mundo rural que desde logo me remete para as reminiscências de um ideário pastoral - movimento literário com forte expressão na segunda metade do século XIX - que exaltava o mundo rural por oposição à vida urbana.
Produzida por citadinos, a sensibilidade pastoral é gerada por um desejo de se retirar face ao poder e complexidade crescentes da civilização. O que é atraente no pastoralismo é a felicidade representada por uma imagem da paisagem natural, um terreno intocado ou, se cultivado, rural. O movimento em direcção a esta paisagem simbólica pode também ser entendido como um movimento para longe de um mundo artificial (...). Noutras palavras, este impulso dá azo a um movimento simbólico para longe dos centros da civilização em direcção ao seu oposto, natureza, para longe da sofisticação em direcção à simplicidade, ou, para introduzir a metáfora principal do modo literário, para longe da cidade em direcção ao campo. (Marx, 1967 in Silva, 2009)
De facto, os factores de atracção do campo estão relacionados com os seus atributos reais ou imaginários, tais como a liberdade, a tranquilidade, o bucolismo, a tradição, a natureza, a autenticidade, entre outras e no discurso destes "pioneiros" podemos, igualmente, encontrar expressões, tais como "tranquilidade, qualidade, tempo, ambiente, vida mais oxigenada, elite, província...", ou ainda, "...decidiu partir à aventura! Muitas vezes atrás de um sonho", que remetem igualmente para esse universo de simbologias ou mitologias do mundo rural.
Regressando à notícia em apreço, percebi que um dos elementos (ele) tinha um emprego em que poderia perfeitamente deslocalizar-se e o outro elemento (ela) iniciou um negócio de venda de mel na internet(?). Bem, muito poderia dizer acerca desta conceptualização do que é viver de uma actividade do sector primário, mas vou-me limitar a transcrever algo que um grande amigo, especialista nestas cousas da agricultura, um dia me disse: "Num território como o transmontano, cuja dimensão padrão das parcelas agrícolas é o microfundio, o meu conselho para todos os paraquedistas (leia-se, sem experiência) que pensam investir na agricultura, é que estejam quietinhos e deixem estar o dinheiro no banco. É uma perda de tempo e de dinheiro".
Gostaria um dia de poder viver num território rural deprimido, tão deprimido que só lá estivesse eu, mas com o pragmatismo mínimo necessário sei que isso só acontecerá se eu conseguir aforrar o suficiente para a minha sobrevivência e conforto. Pois é.
(in apurriar, 12 Agosto 2012)

LER já no final do Verão


Foi sem querer que dei com a revista à venda. Passado praticamente todo o Verão, nem me lembrei de que haveria de sair uma edição para esta época de veraneio. Cá está ela, já lida e consumida. 

14 setembro 2017

password

Vivemos um tempo em que nos é exigida palavra-passe para tudo e mais alguma coisa. Dou comigo, maior parte das vezes em que me é solicitada a criação de uma, incapaz de escolher a palavra certa, isto é, aquela que jamais esquecerei. Perante esta crónica dificuldade, foi com um sorriso no rosto que ouvi hoje a palavra-passe de uma rede wifi... oquetuqueresseieu

descomplicar....

no primeiro dia de aulas

Hoje foi o primeiro dia de aulas para a minha criança mais pequena. Sem ter qualquer ideia prévia do que o esperava, experimentou hoje pela primeira vez uma sala de aulas da escola primária. No fim comentou, ao telefone, com a mãe, sobre esta nova experiência:
- Ó mamã, a professora falou tanto, tanto, tanto, que eu fiquei cansado e até tapei os ouvidos.

07 setembro 2017

horas entre livros

Aproveitando a tarde soalheira e a pouca vontade de ficar encerrado entre, no mínimo, quatro paredes, fui visitar a Feira do Livro que decorre, uma vez mais, nos jardins do Palácio de Cristal. Com o espírito liberto e com os ponteiros do relógio desligados, deambulei vagaroso e anárquico de livreiro em livreiro, procurando novidades ou pechinchas, folheando os espécimes que me despertavam os sentidos e, principalemente, aqueles que vou cobiçando, ouvindo atento as conversas entre clientes e livreiros que iam acontecendo à minha volta e, claro está, desfrutando do espaço e do ambiente tranquilos que por lá se fazem sempre sentir. Não sei se impressão minha, mas daquilo que pude perceber da programação, está edição da Feira do Livro está mais rica e mais variada. Sempre um prazer regressar e, depois, regressar para casa com algum mimo debaixo do braço. Ainda lá irei outra e outra vez.

02 setembro 2017

21 agosto 2017

para ler

Para estes poucos dias em que vou estar como que retirado, ou seja, sem ocupação, compromissos ou afazeres, trouxe alguns livros para me entreter e passar o tempo...

o grilo difícil de encontrar

Soube da sua existência numa recensão no jornal Le Monde Diplomatique deste mês e logo tratei de o procurar nas livrarias para o adquirir. Tarefa difícil. Fui a todas as grandes livrarias e durante vários dias - Fnac, Bertrand, Book House, Almedina, Books & Living (antiga Leitura), Latina - e nada. Aliás, as indicações que me davam eram tão díspares que o resultado foi ter ficado ainda mais curioso e com vontade de o encontrar. Disseram-me, entre outros dislates, que estaria esgotado, que não existiria, ou que ainda nenhuma das suas lojas o recebera. Estranho facto: um livro da Tinta da China não chegar aos donos do monopólio das vendas de livros em Portugal...
Entretanto, lembrei-me de ligar para a UNICEPE - cooperativa livreira de estudantes do Porto, na Praça Carlos Alberto, para saber se tinham este livro e, surpresa ou nem por isso, tinham. Pedi para me reservarem um e lá fui eu, sem demora, buscá-lo. Curiosidade, não tinham um nem dois exemplares, tinham empilhados e em exposição doze destes livros. Mesmo em véspera de partir par férias consegui-o para o juntar aos demais que tenciono ler nestes dias de retiro em terras de Trás-os-Montes.

18 agosto 2017

esterco

porque só agora me apercebi disto...

O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver a possibilidade de qualquer um residir em Portugal se mantiver?
Pedro Passos Coelho, há uns dias, algures no Algarve.

grande

encontrei!

Porra! 
Não foi fácil, mas já encontrei a música que tanto procurei sem sucesso. Esqueçam o youtube, o Shazam. Não lá está. Apenas a encontrei no sítio da editora Cafetra Records. A banda ou cantor chama-se Éme e o álbum chama-se Domingo à Tarde. Fica a letra da música Roma - Sé (sétima no disco) para acompanhar o som da mesma.

Amigo, se estás triste
e o que queres não existe
traz um copo, bota em riste
e 'bora lá brindar:
Um brinde à manada
com bica na esplana,
Tuga não tem nada
mas há tanto mar.

Remar o dia inteiro,
ir dar ao Barreiro,
frota sem dinheiro
ali no Tejo a anhar,
alberga a neurinha,
traz a tua eu trago a minha,
neura assim sozinha
tem que ter um par
vem cá ter meu par
que é para seres meu par...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


E queres amor antigo
para cantares à nova
trago o meu comigo
e vai daqui à cova
puto eu tou contigo
se a vida dá-te sova.
tens amor de amigo e podes pôr à prova...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


17 agosto 2017

participar na res publica

Num tempo em que nos aproximamos das eleições autárquicas, Nelson Dias (sociólogo) escreve, no jornal Le Monde Diplomatique deste mês, um interessante artigo sobre os orçamentos participativos em Portugal. Nesta sua reflexão procura saber onde estão concentrados, qual a sua relação com a participação democrática (relação com os crescentes níveis de abstenção) e que capacidade têm os portugueses de se mobilizarem e associarem em torno de projectos concretos, assim como a sua capacidade de influenciarem o poder instituído, ou seja, o poder autárquico.
Diz-nos que foi num contexto de desaceleração do entusiasmo democrático, com uma confirmada tendência de descida dos índices de participação eleitoral, que surgiu, em Palmela, a primeira iniciativa de Orçamento Participativo(OP) em Portugal. Estávamos em 2002. A emergência e o desenvolvimento dos OP está intimamente relacionada com a quebra de confiança no regime e nos seus principais agentes políticos, assumindo-se como uma tentativa de resposta do Estado local, ainda que parcial, à necessidade de reconstruir pontes de diálogo e reaproximação com a população (...) o que, curiosamente, implicou uma actividade cívica e política mais intensa, pelo carácter anual destas práticas, e mais extensa, pelo cada vez maior número de pessoas envolvidas.
Numa análise mais profunda aos OP em Portugal, o sociólogo percebe que estes se transformaram , nalguns concelhos, nos principais barómetros para as autarquias, leia-se, presidentes e vereações, para a auscultação das sensibilidades e percepções dos seus munícipes e, assim, para o desenho das políticas públicas. Apresentando vários exemplos de OP em diferentes municípios, Nelson Dias afirma que estes instrumentos deixaram de ser mera curiosidade ou moda política. Entraram timidamente no nosso país e gradualmente instituíram-se como catalisadores de processos de mudança.
Nelson Dias termina o seu artigo num tom optimista ao afirmar que este modelo foi de tal forma apropriado pelas populações que hoje se converte num canal de interlocução directa para a discussão e definição de políticas públicas, cujos impactos sobre o território são muito superiores aos dos projectos dos próprios OP. Ao olharmos para estes nesta nova perspectiva entendemos que o seu potencial suplanta as expectativas iniciais, reforçando o seu potencial de credibilidade e, com isto, a sua sustentabilidade.
Sem querer discordar muito desta sua perspectiva optimista, eu seria um pouco mais cauteloso em relação às verdadeiras motivações e objectivos de muitos autarcas e executivos autárquicos em relação a este instrumento de participação cidadã. Digo isto, tendo em conta aquilo que é a minha experiência enquanto autarca. Se é verdade que inicialmente as autarquias desconfiavam dessas propostas, maioritariamente, apresentadas em sede de Assembleias Municipais e, nalguns (poucos) casos, de Freguesia, pelas oposições, rejeitando liminar e até jocosamente essas propostas, com o tempo e com algum esforço de conhecimento técnico, apropriaram-se desses instrumentos, passando-os a apresentar como propostas nos seus próprios manifestos programáticos e eleitorais, assim como nos seus orçamentos pluri-anuais. 
Recordo-me que em Bragança, enquanto membro da Assembleia Municipal (2005-2013) apresentei essa proposta  - a de criação de uma rubrica de Orçamento Participativo - durante vários anos e nunca foi aprovado pela maioria que governava o município que, primeiro, por ignorância, depois por receio e, por último, por despeito, ridicularizava essa ideia "comunal" e "cooperativa". Na verdade, mesmo em Bragança passou a existir um Orçamento Participativo no qual a população pode "participar" votando, no portal da autarquia, de entre um conjunto de projectos propostos pelos próprio executivo, aquele ou aqueles que gostariam que fossem concretizados. 
Concluindo, considero os OP uma excelente ferramenta naquilo que poderá ser um incremento da implicação dos munícipes no planeamento, reflexão e execução de projectos colectivos e de utilidade pública, mas também desconfio dos reais e verdadeiros propósitos dos autarcas que, por hábito e defeito da prática autárquica no nosso país, não quererão nunca abdicar do seu predicado poder de decisão e execução. Aquilo que assistimos na grande maioria dos OP existentes, salvo raras excepções, são adaptações e pequenas iniciativas que sob essa designação pomposa e pertencente às narrativas daquilo que é actualmente considerado correcto, não são mais do que instrumentos ao serviço do interesse e vontade dos executivos autárquicos e das suas clientelas, ou pura e simplesmente são verbo de encher em momentos como este, os de vésperas de eleições autárquicas.

irritante

Se há algo que me irrita seriamente são estas novas ferramentas dos aparelhos que todos nós, ou quase todos, utilizamos, que à medida que estamos a escrever o que queremos, nos vão corrigindo o texto, adulterando por completo o sentido e propósito daquilo que temos em mente. Nas mensagens de telemóvel isso é constante e eu não sei como alterar isso. Por exemplo, no Word eu tenho essa opção desactivada, mas no telefone não sei como o fazer e irrita-me a amígdala enviar mensagens sem sentido algum. Pronto, apenas isto.

11 agosto 2017

inveja

Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem. (Francisco José Viegas, aqui)

10 agosto 2017

o som que não consigo encontrar

Ando obcecado atrás de uma música portuguesa que tenho ouvido na Antena 3, mas não a tenho conseguido identificar. Como desconheço quem a canta e como se chama, tenho andado pelo youtube desesperado, mas sem qualquer sucesso, por hora (hei-de conseguir!). No entretanto, aqui ficam alguns sons em que tenho tropeçado e que, por tonalidades de ouvido diferenciadas, me agradam.





08 agosto 2017

mediascape:reutilizar, reutilizar e reutilizar os manuais escolares

A entrevista já foi publicada no dia 20 de Julho na Revista Visão, mas só hoje dei com ela, na sua versão online (ler aqui na íntegra). Falo de uma entrevista à Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, a propósito do programa de gratuitidade e reutilização dos manuais escolares que agora se põe na prática apenas para o primeiro ano do primeiro ciclo. Eu já simpatizava com esta senhora e com a sua atitude e discurso em relação às coisas da escola pública. Aqui, neste novo programa, está mais uma razão para admirar a sua posição política e cidadã.
Transcrevo partes do seu discurso:

A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita.
(...)
Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam.
(...)
De acordo com a lei, todos os manuais, sem exceção, devem ser concebidos para poderem ser reutilizados. Por exemplo, a prazo, temos de acabar com recortes, autocolantes. Sempre que for preciso escrever no manual, deve ser a lápis.
(...)
E não há qualquer relação direta entre o reaproveitamento e o aproveitamento. Pelo contrário, se ensinarmos às crianças o respeito pelo manual, a partilha, o respeito pelo outro que a seguir vai receber aquele livro, estamos a educar para a cidadania. É um avanço civilizacional e pode ser um elemento muito importante.
(...)
Portanto, o procedimento de aquisição está nas escolas desde julho do ano passado, o de reutilização desde maio. Mas admito que tudo isto seja muito novo e é preciso um período de adaptação. O sistema educativo é muito grande. Temos 811 agrupamentos, mais de três mil escolas, um milhão e trezentos mil alunos, 120 mil professores. Nós podemos informar, enviar as circulares, mas demora até se tornar rotina.
(...)
...tudo isto comporta já alguma incerteza do mercado. Incerteza com a qual os agentes económicos têm de viver. Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre.
(...)
Relativamente ao peso das mochilas, há duas soluções possíveis: deixar na sala de aula, até ao quarto ano, ou utilizar os cacifos, a partir do quinto. É uma questão de os alunos se habituarem a fazer a gestão dos livros que têm de ir para casa e os que podem ficar na escola. Outra solução será a desmaterialização dos manuais, garantindo que não vai cavar as assimetrias sociais.

Neste próximo ano lectivo, o meu filho mais novo irá frequentar o primeiro ano do ensino básico e eu, enquanto seu encarregado de educação, no momento de levantar o voucher para a aquisição gratuita dos seus livros, tive que assinar uma declaração em que me comprometia e responsabilizava pela manutenção dos manuais e pela sua devolução no final do ano lectivo. Muito bem, finalmente os livros passarão a ser propriedade das escolas e não dos alunos. Há medidas governamentais e políticas passíveis de discussão e debate, mas neste caso, se exceptuarmos o lobby da indústria dos manuais escolares, ninguém que use de senso se oporá à medida. Quanto a mim não só concordo, como a defendo. Digo mais, pecou por tardia.

25 julho 2017

sou snob?

A propósito do que poderá ser ou não a minha iliteracia, já aqui escrevi sobre aquilo que considerava ser a minha inépcia literária, naquela altura motivado pela incompetência sentida em ler Lobo Antunes. Nesse mesmo texto referi-me a Virginia Woolf, cuja leitura se me apresentava, desde a juventude, interdita. Pois bem, acabei de ler Momentos de Vida de Virginia Woolf, livro composto por cinco ensaios autobiográficos, encontrados entre os seus papeis após a sua morte, em 1941, mas apenas divulgados em 1976 e inéditos entre nós até esta edição (2017) da Ponto de Fuga. Já conseguira ler da mesma autora, num passado recente, "As Ondas" e "Flush: uma biografia" e agora estes Momentos de Vida, que nos propõem uma viagem pelas memórias e pensamentos da autora.
Com esta leitura confirmo, uma vez mais, a minha preferência pela dimensão biográfica dos escritores em detrimento das suas obras literárias. Por outras palavras, cada vez mais procuro conhecer a história de vida dos autores, sinto curiosidade pelas suas experiências de vida, independentemente de gostar ou não da sua literatura. Enquanto leitor, privilegio as polifonias sociais, familiares, psicológicas e físicas daqueles que, por diferentes razões, leio e admiro.


A determinado momento, no seu último ensaio deste livro, a autora questiona-se:
Sou snobe?
Logo depois escreve:
- O Snobe é uma criatura desmiolada e cabeça de vento tão pouco satisfeita com o seu estatuto que, com o propósito de consolidá-lo, esfrega a todo o momento um título ou uma honra na cara das outras pessoas para que estas possam acreditar, e o ajudem a acreditar, naquilo que ele mesmo, na realidade, não acredita: que ele ou ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que reconheço em mim mesma. (Virginia Woolf, 2017:238)

variações geográficas

Numa ampla sala-de-estar de um centro hospitalar público, na cidade do Porto e quase em surdina:
- Já viste estes desgraçados (profissionais de saúde)?!... Não param de um lado para o outro... trabalham horas e horas e recebem quase nada... a Fernanda disse-me que para tirar mil euros tem que trabalhar doze a catorze horas por dia... que vida! Eu lá tiro isso em duas semanas e sem me cansar muito... ainda me dizem para regressar!...

religião industrial

Na edição do mês de Julho do jornal Le Monde Diplomatique (Portugal), um texto muito interessante de Pierre Musso sobre o olhar antropológico que o Ocidente tem sobre si próprio e que remete para o processo de industrialização ocorrido a partir de 1800. Diz-nos este Professor jubilado que para que uma tal revolução industrial fosse concretizada foi preciso construir previamente uma visão do mundo partilhada e excludente de qualquer referente transcendente para celebrar a humanidade criadora e produtora. (...) Esse processo ocorre no interior da matriz cristã e estabelece as bases de uma religião secular.
Esta religião industrial ter-se-á desenvolvido no Ocidente em resultado de três momentos fracturantes, a saber:
1º - A Reforma Gregoriana, que conduz a uma primeira revolução industrial nos séculos XII e XIII, ligada à mudança do processo de trituração, com moinhos colocados ao longo dos rios a prefigurar as fábricas;
2º - O renascimento da ciência moderna e o programa de René Descartes destinado a "tornar-nos mestres e possuidores da natureza" em nome do progresso;
3º - A escolha industrialista de 1800 e a formulação simultânea de um "novo cristianismo" terrestre e científico;
Em cada um destes momentos, a industriação metamorfoseia-se e a instituição de produção que a encarna reorganiza-se: mosteiro, manufactura, fábrica e empresa. Cada uma destas instituições articula uma fé que dá sentido e uma lei que organiza uma comunidade de trabalho.
É estabelecida uma relação entre as ordens monásticas (S. Bento e S. Francisco) e seus mosteiros com a origem dessas comunidades de trabalho, argumentando-se que:
O monaquismo reconhece o "valor do trabalho" como complemento da oração e da contemplação. O trabalho representa ao mesmo tempo um instrumento de ascese, um meio de combater a ociosidade, uma actividade produtora e uma resposta à obrigação da caridade. Ainda hoje a regra de S. Bento é vista como um modelo de gestão. (...) O monge beneditino Hugues Minguet declara: "O monaquismo beneditino é sem dúvida a mais velha multinacional do mundo"...
No fim do século XI, a aceleração da circulação monetária e a multiplicação das trocas comerciais transformam a organização monástica e aí defrontam-se dois modelos: Cluny e Cister. Em Cluny vive-se na opulência, em Cister recusa-se o luxo. Nos seus mosteiros são implantadas todas as infra-estruturas da produção - rede de escoamento, moinhos, caminhos de serventia, oficinas, forja, lagar, celeiro, casa dos conversos - que fazem da abadia uma fábrica.
No século XVI ocorre uma segunda grande transformação, com a Reforma e em seguida com a revolução científica. A natureza torna-se o novo "grande Ser" que acolhe o mistério da Encarnação. Até então associada a Deus, a própria ideia de natureza modifica-se: o homem já não está "na", mas "perante" a natureza, e dedica-se a conhecê-la matematizando-a.
A terceira bifurcação da industrialização completa-se nos séculos XIX e XX, em dois momentos: por volta de 1830, com a revolução industrial, e entre 1880 e 1940 , com a revolução da gestão. A primeira formula a lei tecno-científica e a segunda fixa a lei da organização do trabalho. A fábrica-empresa liga-as solidamente. A crença num novo "grande Ser", a saber, a humanidade, reinveste o mistério da Encarnação tal como ele é instituído pelo filósofo Auguste Comte. Em 1848 o jovem Ernest Renan deseja "organizar cientificamente a humanidade..."
O criador todo-poderoso já não é um Deus supra-celeste, mas o próprio homem que se auto-realiza. Esta visão Faustiana de uma religião terrestre e racional tem por guia o progresso e a promessa de um bem-estar futuro.
(...) Depois de uma longa gestação nos claustros, a religião industrial manifesta-se de maneira fulminante por ocasião das revoluções industriais, atingindo o seu apogeu com a actual revolução digital.
Para lá da importação da novilíngua da gestão em política, o que triunfa é a religião industrial.

mediascape:ridiculum ultimatum

Ao ler as "gordas" da imprensa dou de caras com este título e com as declarações de Hugo Soares, líder da bancada do PSD na Assembleia da República, que em jeito de ameaça, fez ontem um ultimato ao governo para que apresente a lista dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande em 24 horas. Mas que raio de ameaça! Então e se o governo não satisfizer o pedido?! Qual é a grave consequência? Qual será o trunfo que a iluminária, líder parlamentar, tem para apresentar?!
Pois, como também se percebe nas suas palavras, nada ou quase. Apenas aproveitamento político de uma desgraça humana. Se houve ou não houve mais mortes do que aquelas que estão oficialmente contabilizadas não é relevante. Mais uma, duas?! Talvez. E depois? Qual é a responsabilidade do governo nessa contabilidade?
Ridículo, uma vez mais.

11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.

07 julho 2017

arrancar batatas

(fotografia roubada da internet)

Muitas vezes, enquanto criança e jovem, participei nessa actividade agrícola, normalmente um trabalho colectivo para a família, vizinhos, amigos e compadres, num esquema de torna-jeira, ajudando a apanhar da terra as batatas arrancadas a golpes de guinchas (na fotografia, utensílio visível nas mãos dos homens). Num claro exemplo daquilo que era, e ainda é, a clássica divisão do trabalho por género, aos homens competia-lhes percorrer os sulcos, alinhados e transversalmente (como também se vê na fotografia), e trazer para a superfície todos os batateiros que ficavam expostos e disponíveis para serem colhidas todas as suas batatas, numa tarefa destinada às mulheres e crianças que, logo atrás dos homens, as recolhiam num balde ou cesto e depois, quando estes cheios, vertiam-nas para sacas que iam ficando espalhadas pelo terreno. Para além da força e resistência necessárias para trabalhar com as guinchas, importava também não estragar as batatas, ou seja, escolher bem o sítio onde se golpeava a terra para não acertar em nenhuma - na terminologia local, para não enrilhar as batatas.
Pois bem, só hoje e já homem já mais do que adulto, é que tive o privilégio de usar umas guinchas e, por incrível que possa ter sido, não enrilhei nem uma batata. Alguém deveria ter registado esse longo momento, mas infelizmente tal não aconteceu.

06 julho 2017

a solução passaria por aqui...


Lamentavelmente foi rejeitada pela Assembleia da República com as abstenções do PSD e CDS e voto contra do PS.

gostei e por isso partilho


" Quatro anos "


Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.
A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.

28 junho 2017

ar pouco estival

Da janela deste quarto de hotel, onde estou de passagem, vislumbro a paisagem campestre que se estende ao longo de um vale encaixado e de tonalidades bem verdes. Perto da janela, dois plátanos maduros e frondosos fazem-me perceber o vento que os agita, teimoso a temperar o ambiente e a impedir que o calor estival se instalar definitivamente. Ainda há pouco, depois de almoço, quando subia de elevador, duas senhoras comentavam que hoje não era preciso ir apanhar ar. Ele já se tinha instalado em todo o lado.

26 junho 2017

mediascape:vergonha alheia

Num só dia, hoje, Pedro Passos Coelho, na sua missa de corpo presente (por ordem cronológica):

a) "Tenho conhecimento de vitimas indirectas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero". (Pedro Passos Coelho);

b) "Fui eu que dei ao Dr. Passos Coelho uma informação errada". (João Marques, candidato PSD Pedrogão Grande);

c) "Sinceramente peço desculpa por ter usado um dado não confirmado. Não devia ter utilizado essa informação". (Pedro Passos Coelho);

Não restam dúvidas, Pedro Passos Coelho é um cadáver político. E não me venham dizer que ele não sabe disso, que não está consciente da nulidade da sua posição!

a inevitabilidade e o estigma

Talvez seja apenas uma mera coincidência; Talvez apenas um azar; Quiçá, uma simples impressão, mas a verdade é que ser cliente dos CTT e frequentar as suas lojas e balcões transformou-se numa actividade irritantemente demorada e fastidiosa. Os dois ou três balcões de correios que frequentemente visito, salvo uma ou outra vez, estão sempre cheias de gente, o serviço é lento e os balcões, apesar de vários funcionários presentes e a circular de um lado para o outro, não estão a atender os clientes. Muitas vezes apenas um funcionário e um balcão a atender...
Aqui está um bom exemplo da inevitabilidade da privatização de um serviço outrora público, pois o estigma histórico e enraizado de tudo quanto era e é do Estado, era e é mal gerido, assim como o estigma perpétuo dos funcionários públicos e do seu absentismo, resultou nisto e mede-se agora pela qualidade do serviço prestado aos clientes, por uma gestão séria e rigorosa. Aqui, como em tantos outros casos, o serviço público é preterido por rádios de produtividade e variação percentual de lucros, ou seja, tudo aquilo que realmente interessa a essa casta iluminada, privilegiada e minoritária das elites económicas e financeiras.
Este exercício só foi possível porque primeiro, frequento e utilizo regularmente os serviços e os espaços CTT e, segundo, porque tenho memória e faço questão de me servir dela, assídua e convenientemente.

a des-cafeínar

Sentado à sombra e ao sabor de uma bem fresca brisa, proporcionada por um condicionado ar, tomo a dose de cafeína digestiva, enquanto penso sobre este nosso velho hábito do café expresso. Isto, porque constato que, nos últimos tempos, talvez meses, talvez já anos, esse hábito de prazer se transformou, acima de tudo, num hábito de necessidade. É verdade que estou, há longos anos, adicionado a esta substância excitadora dos sentidos e do cérebro, mas com o tempo fui perdendo o gosto pela bebida e muitos são os dias em que não tomo nenhuma dose, apercebendo-me da sua falta apenas quando se instala uma dor de cabeça, normalmente, ao final da tarde...
Agora, o ritual do café faz-se acompanhar com água, engarrafada ou da torneira, tanto me faz, sempre com o propósito de lavar a boca do sabor do café. Apesar disto, ir tomar café, estar a tomar café, ou ter ido tomar café, continua a ser um rito necessário para o equilíbrio de todo o organismo, principalmente, da mente e de seus humores.

gato morto, uma vez mais...

mediascape:patologias da democracia

Na edição de Junho do jornal Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), Evelybe Pieiller escreve um interessante e curioso artigo sobre os limites e as derivas das democracias, tal como as conhecemos na actualidade - "de um ideal, um progresso, uma conquista (...) a uma impossibilidade". Pondo em cheque a noção de soberania, a da nação e a do povo, a perda de confiança dos cidadãos e a imposição de poderes supranacionais como a União Europeia, cita Marcel Gauchet, que afirma: "nas nossas sociedades, a democracia já é apenas uma palavra, uma noção fantoche que dissimula, designadamente, o poder efectivo, exorbitante do complexo económico-financeiro". Um outro pensador citado, Alain Badiou, afirma que "a democracia está sempre ligada e enfeudada ao capital".
A nação já não é portadora da vontade geral, mas de um agregado de desejos particulares: o que pode corresponder a uma memorização, senão mesmo a uma perversão das lutas colectivas que ainda é preciso vencer para concretizar as promessas da democracia, em particular a igualdade, um dos nomes da emancipação. Apresentando um conjunto de abordagens múltiplas, a autora apresenta ainda o Comité Invisible, que saúda, na fragmentação em todos os domínios do nosso mundo, uma aspiração inaugural da "restituição a si próprias de todas as singularidades e a derrota dada à subsunção, à abstracção". Este Comité postula o seguinte: "Não há eu e o mundo, eu e os outros, há eu com os meus, neste pequeno pedaço do mundo que eu amo, irredutivelmente". Isto porque "a experiência vivida, fundamental, imemorial é a da comunidade". Malditos sejam, portanto, os engodos mortíferos intrínsecos à democracia, à nação, à humanidade, ou mesmo às divisões de classe...
São apresentadas duas razões principais para a crise democrática: as limitações impostas à soberania nacional (e a impotência do político); e a erosão de alguns valores que a fundam (e a suspeição em relação ao próprio sistema). Uma boa parte do povo já não se reconhece nos seus representantes habituais, os da moderação, e escolhem-se outsiders, alguns dos quais parecem perigosamente anti-democratas.
À questão: Por que motivo se esquece o povo de votar ou vota tão mal? A autora refere que esse fenómeno recebe explicações diversas, como, por exemplo, a de Ivan Krastev que diz: "os progressos das liberdades individuais e a difusão dos direitos humanos foram acompanhados por um declínio do poder do cidadão de mudar, pelo voto, não apenas de governo, mas também de orientação política". Uma outra ideia é a de que a dissolução das oposições essenciais entre a esquerda e a direita vai conduzir a que seja cada vez mais difícil diferenciá-las, portanto, para quê escolher entre elas? Nancy Fraser responde que a componente determinante do problema é que "o Liberalismo e o Fascismo constituem as duas vertentes profundamente interligadas do sistema mundial capitalista".
Como fazer então para que o povo de sinta representado? Como devolver ao povo a sua soberania?
É aqui que o pensamento dos ensaístas se torna, por vezes, surpreendente...
A filósofa Chantal Mouffe coloca a questão da necessidade de "construir um nós e um eles", de forma a conduzir um combate pela verdadeira concretização dos princípios ético-políticos da democracia liberal, porque "hoje, tudo o que se relaciona com a democracia entendida como igualdade e como soberania popular foi afastado pela hegemonia do liberalismo". Portanto, para derrubar estas relações de poder e dar uma representação autêntica ao "descontentamento órfão" dos cidadãos, importaria trabalhar na criação de um espaço público agonístico, isto é, conceitual, onde se exprimem os diferentes, os antagonismos e o desacordo, num quadro compatível com o pluralismo democrático. Para federar eficazmente os descontentamentos e as lutas contra as diversas subordinações, para além das clivagens esquerda-direita, torna-se indispensável a elaboração de um "arsenal simbólico" que contribuirá para envolver grupos sociais. Trata-se, portanto, não de acabar com a democracia representativa, mas de a radicalizar.
É com uma estratégia clara de "populismo de esquerda", alimentada, entre outras coisas, por batalhas culturais, que Chantal Mouffe propõe uma revitalização da representação democrática. Sendo que o mais notável nesta reflexão seja a importância dada aos "afectos". É que a teoria moderna da democracia associou-a durante muito tempo ao exercício da razão e seria, segundo esta autora, "incapaz de reconhecer que as paixões são a principal força motriz da política". Para construir uma distinção nós/eles progressista, seria necessário um discurso que apresentasse "identidades que dão sentido" a esta distinção. O acento tónico colocado sobre as "paixões", sujeito a variações múltiplas... o povo, os cidadãos, são frequentemente considerados como submetidos às suas emoções, particularmente quando vota fora das escolhas toleráveis. Como diz o jornalista David Van Reybrouck, "votar sobre uma questão precisa, que bem poucas pessoas realmente compreendem , quase só pode ter resultados desastrosos". Seria melhor, portanto, "designar ao acaso um pequeno número de pessoas, assegurando que elas dominam suficientemente as questões com as quais se vão confrontar e que estão em condições de tomar medidas sensatas"...
Mais do que pelas emoções e pelas insuficiências dos cidadãos, não é proibido pensar que as perversões actuais da democracia tal como a conhecemos são engendradas por um neoliberalismo notavelmente inventivo, que há muito tempo soube tornar desejáveis os seus valores e as suas soluções.

19 junho 2017

a culpa, essa maldita...

Pacheco Pereira, hoje, no jornal Público e a propósito do incêndio de Pedrógão Grande:

«O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.
A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.
Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. (…) Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. (…)
Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbiespoderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém. (…)
São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.»

18 junho 2017

de luto

Ainda antes de me deitar e quando o número de mortos confirmados era de 19, ouvia o Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande dizer que tinha quase a certeza que o número de vítimas mortais seria bem mais do dobro dessas (19). Hoje ao acordar o número de mortos neste inferno de chamas era de 57.
Não sei mais o que escrever. Já o fiz em anos anteriores e quando nem sequer havia vítimas humanas. Perante tamanha catástrofe não sei o que se deve dizer, ou fazer, ou pensar. Apenas o silêncio por respeito a todas as vidas humanas que se perderam e pelo sofrimento dos sobreviventes. Por isto, irrita-me o voyeurismo de alguns canais de televisão e jornais, assim como me irrita esta nacional teimosia em nada se fazer preventivamente e se investir tudo na reacção e no combate aos incêndios. Talvez agora, depois de tantas e tantas mortes, haja coragem para mudar definitivamente o paradigma em relação aos incêndios e à floresta.

03 junho 2017

no III Festival Literário de Bragança

Ontem à tarde, no auditório Paulo Quintela, na sessão "tarde da crónica e romance"...




01 junho 2017

humanismo

A propósito do dia que se assinala hoje - o dia mundial da criança - mais do que repetir lugares comuns interessa-me reafirmar a minha profunda crença no ser humano, nas suas virtudes e qualidades, assim como nos seus defeitos e perversidades, em todos os seus estádios de desenvolvimento ontogenético. Claro que, enquanto humanistas, deveremos sempre acarinhar as crianças e proporcionar-lhes o melhor futuro possível, pois este será sempre delas e para elas. Acreditar na generosidade, na capacidade e na ambição das novas gerações é um bom princípio para podermos continuar a colocar o Ser Humano no centro do nosso mundo, ou a entendê-lo como denominador comum em todas e quaisquer equações possíveis, previsíveis e desejáveis.

mediascape: desconforto

Ao contrário daquilo que o jornal Público intitula de desconforto para os partidos à esquerda do PS com a hipótese de Mário Centeno ir para o Eurogrupo, não é desconforto que se pode sentir com essa possibilidade, mas sim indignação pela campanha orquestrada para afastar do governo português o seu ministro das finanças. Ao contrário da ideia que agora se tenta fazer passar da genialidade de Centeno, sei que este não passa de um tecnocrata (aparentemente bom) que, até ao presente, tem defendido os interesses nacionais. Não me sinto desconfortável com a sua ida para essa instituição transnacional e europeia, mas sinto-me enojado com a estratégia das lideranças da UE ao alimentarem esse cenário, que não parece ser mais do que uma tentativa de desestabilização do executivo português e das suas políticas, que teimam em remar em contra-ciclo e afrontando as orientações e políticas emanadas do directório de Bruxelas e Berlim. Independentemente dos méritos e créditos pessoais e profissionais de Mário Centeno, acredito nessa conspiração orquestrada para destruir o caminho alternativo que Portugal, por hora, trilha com relativo sucesso. O resto é spin, isto para não dizer que apenas se trata de ridículas punchlines que procuram desviar a atenção daquilo que é essencial.

31 maio 2017

não vale a pena

Num dia em que não almocei, chego ao final da tarde esfomeado e, de certo modo, desorientado pela falta de cafeína que por esquecimento, primeiro e por distracção, segundo, acabei por não ingerir durante todo o dia. Mas essa hora final de tarde é já tarde para tomar café, pois as consequências dessa toma seriam catastróficas para essa noite e madrugada, mas acima de tudo, para o dia seguinte.
Portanto, até porque não sabia a que horas iria conseguir jantar, entrei num café para repor calorias. Azar, balcões expositores já vazios e onde sobreviviam dois ou três rissóis de caracter duvidoso e um único pão-de-chouriço, perdido num imenso tabuleiro. Sem hesitar, peço esse pão e uma Coca-Cola que, por outro azar, tem que ser uma Pepsi. Tudo bem, venha ela para absorver alguma cafeína. Três euros e vinte e cinco cêntimos que paguei e apenas pude beber, uma vez que o pão-sem-chouriço nem se conseguia trincar. Se calhar, não era por acaso que ainda ali estava para ser vendido... Ainda pensei reclamar e, às tantas, arranjar alguma confusão, mas fiquei quieto. Não vale a pena, já não me vale a pena. Saí desaustinado em direcção a uma máquina self-service, onde encontrei uma deliciosa sande-mista em pão-de-forma sem côdea.

26 maio 2017

X L I V

Numa conta sempre de somar, vamos juntando os dias e, por trágica multiplicação, as dores do corpo e da alma também.
Atenuadas apenas pela simples divisão de afectos e carinhos que, na subtração do porvir, vagarosos serão saboreados.

19 maio 2017

interminável senda

Com o propósito de colmatar velhas lacunas e ignorâncias conscientes do universo literário português, do mais clássico ao mais contemporâneo, mantenho esforço de recuperação dessas incomensuráveis falhas. Objectivo ambicioso e, acima de tudo, demorado. Esta noite, e por sugestão da amiga Joana, o objectivo é resgatar o dinaussauro excelentíssimo José Cardoso Pires.

na feira do livro de Vinhais

Hoje à tarde, no auditório da Casa da Cultura (Solar dos Condes de Vinhais), apresentando o meu livro na Feira do Livro de Vinhais. Entre alunos do ensino básico, secundário e superior sénior, mais alguns amigos, é sempre um prazer regressar, estar e ficar na nossa terra. Em Vinhais estarei sempre em minha casa.
Com apresentação do amigo João Cristiano Cunha e a recepção de Roberto Afonso, amigo e Vereador da Cultura da C. M. de Vinhais, mais um momento feliz e simpático na existência deste apurriar de dez anos.
Ainda que escassos, ficam alguns dos momentos do evento...

(a sala minutos antes)

(João Cristiano Cunha, Roberto Afonso e Luís Vale)

 (apresentação do João incluiu a recolha de grande parte das capas dos meus livros...)

(aqui, numa fotografia com qualidade, roubada aqui)

15 maio 2017

avarias

Mesmo sabendo e compreendendo que os objectos, os utensílios, equipamentos e electrodomésticos, se desgastam e estragam, é sempre um stress quando um deles avaria cá por casa. Detesto tê-los avariados ou estragados e, por isso, procuro sempre solucionar logo esses, maiores ou menores, problemas. Este mês tem sido um fartote de avarias e não-funcionamentos aos quais tenho tentado dar resposta, até que ontem foi a vez da velha televisão dar um estouro, deixando a minha criança num sobressalto com o susto e por lhe interromper o importante jogo de futebol que estava a jogar na PlayStation, assim como a casa a cheirar a plástico queimado para o resto do dia. Solucionado o problema do jogo da criança, tenho agora que resolver o que fazer e estas palavras apenas acontecem porque estou indeciso no que fazer... Compro ou não uma TV nova para substituir esta?! Se morasse sozinho, não tinha qualquer dúvida e o espaço que esta peça de museu ocupa, daria lugar para aconchegar mais alguns livritos, mas como partilho a habitação com mais pessoas, será difícil convencê-los a não ter televisão. Ainda assim, vou tentar.

14 maio 2017

tarde bem passada

À volta de livros velhos e antigos, a abrir armários e arcas carregadas de livros e escritos de alguém que nunca conheci, mas que logo percebi ter sido um leitor compulsivo, atento e interessado, que gostava de passar as suas horas vagas em prolongadas leituras, assim como um cidadão interventivo na comunidade em que vivia e era a sua, através do associativismo e da escrita em jornais e revistas regionais. A convite de um casal amigo, numa busca sem objectivo específico, apenas na esperança de poder ser surpreendido a cada momento, em cada capa ou em cada encadernação. Beneficiando da generosidade desses amigos, trouxe comigo duas dúzias de livros antigos, dois deles dos finais do século XIX sobre Ciência e Religião, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira e uma colecção de seis volumes, muito bem encadernada, sobre lendas nacionais, entre outros. Tal como sempre acontece, é com alegria e satisfação que vou reforçando o meu acervo.

13 maio 2017

querer e não poder, talvez, não dever

Tal como tenho afirmado, aqui e ali, permaneço muito atento às etnografias nascentes que me vão acontecendo ao longo dos dias. Pequenos nadas, instantes fugidios, rostos e corpos desconhecidos, que teimam em me excitar os sentidos e que converto em material de trabalho, em material para exercícios pantomineiros, em alimento para este meu Apurriar.
O impulso para o registo e para a escrita desses momentos e dessas personagens, muitas vezes obstrói-me o discernimento e, às tantas, tudo e qualquer coisa seria passível de publicação, por exemplo, neste espaço. Acontece que, avisado pelo juízo, aquilo a que alguns chamam razão e outros de senso (o bom), tenho contemporizado a publicação de alguns textos, pelo menos durante o tempo necessário para os ler, reler e, depois, dar a alguém a ler para a devida censura.
Esta hesitação e este melindre derrotam-me, retirando-me parte substancial do entusiasmo e da motivação para essa escrita, que se quer sempre atenta, espontânea e pungente. A verdade é que ao olhar para a "gaveta" [elemento estranho; vivo rodeado de prateleiras, suportes, apoios e armários; não há gavetas na minha vida] o monte de textos não publicados, ou melhor, não publicáveis, vai aumentando. Um destes dias vou olhar para eles com mais atenção. Relê-los e reescrevê-los de forma a os resgatar para uma qualquer forma de existência condigna. A ver vamos.

a propósito de Fátima, 13 de Maio, pastorinhos, azinheiras e afins

Com a exclusividade mediática conseguida, nos últimos dias, por esta visita do Papa Francisco a Fátima, veio-me à memória o primeiro momento em que tive conhecimento deste fenómeno. Foi enquanto criança, filho de bons cristãos e católicos praticantes, ao frequentar a catequese que ouvi, pela primeira vez, falar de uns pastorinhos a quem Nossa Senhora terá aparecido no cimo de uma Azinheira. Não devo ter percebido muito bem a história, mas recordo alguma estranheza pelos factos contados, pois eu também tinha primas e primos que eram pastores e eu próprio, nas férias, também ia com eles a pastorear os animais pelo monte, e nem por isso, alguma vez, tivéramos a visita de tal entidade...
O certo é que, por esses dias, depois de chegar a casa, comentei com o meu pai e, intrigado, quis conhecer a história dessas crianças. Pedi-lhe um livro sobre o assunto e, passados não muitos dias, recebi este livro que li com curiosidade e com expectativa de poder "compreender o mundo". Guardei-o e ainda hoje faz parte do meu acervo, sendo um dos meus primeiros livros. No seu frontispício escrevi apenas "Madalena" (localidade onde à época vivíamos), o que indica que está nas minhas mãos há mais de trinta anos. No canto superior direito, a lápis, a indicação do preço de 3$50.

12 maio 2017

pela primeira vez num festival literário



Aqui está o programa, em versão final, do III Festival Literário de Bragança. A minha vez será na tarde de dia 2 de Junho. Até lá.

09 maio 2017

a quem interessar...


Apareçam no Solar dos Condes de Vinhais. Eu vou lá estar.

08 maio 2017

LER da Primavera


Aí está mais um número da LER. Com vários atractivos e motivos para ser consumida nos próximos dias. Destaco, desde já, um dos manifestos de Francisco José Viegas, pela sua pertinência e objectividade...

03 maio 2017

apurriar em Vinhais

No próximo dia 19 de Maio estarei em Vinhais a apresentar o "Apurriar (2007-2017)", na Feira do Livro de Vinhais. O livro será apresentado pelo ilustre e amigo João Cristiano Cunha. Até lá.

30 abril 2017

mediascape: tolerâncias

Tem sido notícia a putativa tolerância de ponto para a função pública que o Governo se prepara para anunciar paro o próximo dia 12 de Maio, a propósito da visita do Papa Francisco ao Santuário de Fátima. Apesar de céptico relativamente ao fenómeno de Fátima e o considerar um mega-empreendimento do qual a Igreja Católica nunca conseguiu, nem nunca pretendeu, afastar-se, nada me opõe à crença e à devoção popular que aí se manifesta. Outra coisa é o Estado, que é constitucionalmente laico, e assim se deve manter, promover e incentivar os cidadãos a um qualquer culto ou fenómeno religioso. Claro que se percebem todas as motivações e intenções de António Costa ao conceder tal tolerância de ponto: populismo e eleitoralismo claros e evidentes. Nada contra a fé e a devoção de cada uma das pessoas que irão a Fátima por esses dias, mas tudo contra a tolerância de ponto para parte da população portuguesa que, como é óbvio, não irá a Fátima, mas sim usufruirá de mais um dia de férias e descanso ao sol ou à sombra. Não havia necessidade.

29 abril 2017

muito bom


Ofereceram este livro à Andreia no seu último aniversário e tem estado esquecido na estante, sem ser lido por ninguém. Até ontem, pois no momento em que reunia aquilo que queria trazer para o pequeno retiro de três dias por terras de Vinhais, lembrei-me de o trazer para as horas destes dias. Assim foi, hoje de manhã iniciei a sua leitura e agora, depois de almoço, terminei-o. Apenas posso dizer que gostei muito e que, mal o comecei a ler, percebi porque razão Agualusa é um escritor grande, reconhecido e premiado. Muito bom mesmo. Não deixem de ler.

21 abril 2017

ainda é assim

Está a aldeia repleta de seus filhos, reunidos em Páscoa. Tentando manter os ritos tradicionais católicos, cumprem-se as deambulações entre a igreja, a procissão e a visita pascal, momentos que esgotam largas horas da manhã e ameaçam as da tarde, obrigando as impacientes cozinheiras a manterem os leitões, os borregos e as vitelas, mais algum tempo ao lume para não arrefecerem.
Por fim, a hora do fausto manjar em família. Saboreiam-se as melhores carnes, bebem-se bons vinhos e, por último, apreciam-se as abundantes doçarias e sobremesas que rapidamente substituem, na mesa, as travessas dos despojos da refeição. Como se gosta tanto de açúcar, confirmando o velho dito de que é doce e bom porque não amarga.
Depois disto, larga tarde para conviver com família e amigos, rever velhos companheiros, ir até ao café e partilhar aventuras das andanças de cada um, entremeadas por tragos de vinho ou cerveja, ou ainda jogar às cartas para quem perder pagar os consumos efectuados.
Ao pôr do Sol, o regresso a casa para o jantar, normalmente, para acabar com a comida que sobrou do almoço. Mais tarde, ou na manhã seguinte, é hora de regressar às vidas das diásporas e do quotidiano, projectando sempre o próximo regresso ao lugar que os viu nascer.

17 abril 2017

mediascape: omnipresente

Sim, estou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa... quer dizer, desculpem, estou a falar do Presidente da República Portuguesa. Impressionante, ele está em todo o lado, conseguindo mesmo bater os recordes do nosso mediático emplastro.
Agora, noutro registo: É isto ser Presidente da República? Eu pergunto, porque nunca vi nada igual. Eu pergunto, porque a experiência anterior foi traumaticamente oposta. Eu pergunto, porque a memória já me falha ao tentar recordar a praxis dos seus precedentes. Eu pergunto, porque eu até simpatizo com a figura (na altura devida, não o considerei a pessoa indicada para o cargo).
Noutro registo ainda: O homem vai a todas, não perde uma oportunidade... quer estar ao lado de todos e cada um dos portugueses nas suas horas mais aflitas.
Ainda, registo outro: a sua omni-presença começa a ser exagerada. Tem-se revelado um interprete popular na sua magistratura e, por contraste com o seu antecessor, todos nós simpatizámos com ele, mas tudo tem os seus limites e Marcelo Rebelo de Sousa, parece-me, ainda não conseguiu distinguir bem os limites entre os diferentes papeis sociais que desempenhou e desempenha.
Lamento dizê-lo, mas o seu "reinado" será, assim, fácil e recorrentemente caricaturado e ridicularizado.

sarampo

Eu não tenho a certeza, mas acho que já me manifestei, aqui, sobre esta questão dos movimentos "anti-vacinas" ou "anti-vacinação". Contudo, e face ao que está a acontecer com esta nova epidemia de Sarampo em Portugal, não posso deixar de dizer, ou se calhar, voltar a dizer, como é estúpido e irresponsável não vacinar os filhos. Meus senhores e minhas senhoras, o que mata são mesmo as doenças e não as vacinas, apesar do residual risco de alguma complicação ou mesmo morte. Senhores e senhoras, não se trata de uma imposição do Estado, trata-se de uma questão de saúde pública e essas doenças só estavam e estão erradicadas da nossa sociedade, porque a maioria de nós sempre vacinou as criancinhas. Meus e minhas egoístas de merda, se vós vos podeis dar ao luxo de não vacinar os vossos filhos, é porque eu e a grande, e esmagadora, maioria de pais vacinamos os nossos e sabemos que ao fazê-lo estamos a contribuir para a imunidade deles, assim como para a de todos nós. O que não quer dizer que os ditos vírus e bactérias não estejam por aí, mas sim que vivemos numa sociedade com salubridade e cuidados de saúde suficientes para estarmos a salvo de tais enfermidades.
Basta espreitarmos a argumentação desses iluminados dos grupos e associações "anti-coisas", para percebermos que estamos em exclusividade no território das crenças, ou talvez, das crendices, com a ambição e pretensão de fundamentar o seu discurso e sua não-prática naquilo que é commumente denominada de pseudo-ciência, de braço dado com doses cavalares de teorias da conspiração para todos os gostos e feitios.
Tudo isto porque não se trata de uma questão de direitos ou liberdades, mas sim, total e exclusivamente, de uma questão de saúde pública e, assim sendo, não deveremos ser tolerantes, nem contemplativos.

adenda: (por esquecimento faltou escrever) Aquilo que é o conforto, o bem-estar e a saúde que hoje experimentamos devem-se, quase unicamente, à ciência e ao seu desenvolvimento teórico, tecnológico e laboratorial. Aquilo que se ambiciona sempre é uma ciência reflexiva e crítica que permita a sua evolução e desenvolvimento, mas atitudes como esta da não-vacinação, para além de demonstrarem um total desrespeito por todas as vítimas das respectivas doenças, demonstram a falta de dignidade para com todo o esforço e despesa realizados ao longo de décadas e décadas. Não contribuem em nada para esse esforço colectivo, muito pelo contrário. Disse.

a arte de bem escrever


No remanso destes poucos dias por terras de Trás-os-Montes, a leitura resumiu-se a este pequeno livro.
Servindo-se de três personagens centrais, Mário Cláudio tece uma ficção em volta do épico de Luís de Camões, Os Lusíadas, reabrindo uma velha discussão sobre a autoria dessa obra. Sem nos dar qualquer resposta ou novidade sobre essa dúvida(?), o autor, através dessas três personagens, percorre todo o tempo entre as aventuras e desventuras de Camões e os nossos dias, numa narrativa empolgante e muito bem escrita. Mário Cláudio, que chegou a ser meu professor na Escola Superior de Jornalismo, confirma aqui o seu génio literário. Muito bom.

16 abril 2017

domingo de páscoa

Dia inteiro na aldeia, desde a longa espera pela visita pascal para poder sentar à mesa e, gulosamente, comer borrego e leitão assados, até ao final do dia, com uma tarde inteira sentado à sombra da Figueira a jogar cartas (à Blota) e a beber cerveja (SuperBock). Rico e tranquilo dia passado em família. Sobraram alguns registos no telemóvel da Emília.





14 abril 2017

caminhar pelo monte

Todos os anos por esta altura dedico um dia para passear, caminhando pelo monte, naquilo que é o termo de Vila Boa, meu axis mundi, procurando sempre percursos diferentes e alternativos que possibilitem andar durante grande parte do dia sem sentir qualquer sinal de civilização. São passeios magníficos e, a cada momento, a contemplação de paisagens fabulosas faz-nos esquecer o cansaço crescente que nos invade o corpo. Em pequeno grupo familiar, sempre liderado e orientado pelo patriarca, é sempre um prazer observar a natureza neste seu momento de cíclico rejuvenescimento. Estes passeios remetem-me sempre para Jean-Jacques Rousseau e os seus "Devaneios do caminheiro solitário" (2007, Livros Cotovia), onde aproveita os seus passeios pelo campo para reflectir sobre as questões que lhe importunam a mente. É uma obra que me marcou e à qual, por razões várias, regresso regularmente.
Vou sair para o monte daqui a minutos e quando regressar, aproveitando as maravilhas da nova tecnologia, aqui partilharei alguns desses momentos e lugares. Bom passeio.






12 abril 2017

finalizando colecção

Aproveitando os dias estivais e o menor trânsito no centro da cidade Invicta, dediquei o início das manhãs desta semana à visita de livreiros e alfarrabistas, com o propósito de completar a minha colecção da revista Brigantia. Revista de Cultura, editada desde 1981, pela Assembleia Distrital de Bragança. Já há muito tempo decidi reunir todos os seus números, tarefa bastante difícil, principalmente, a partir do momento em que os seus promotores desinvestiram nesta publicação e a levaram quase à extinção. Ela ainda existe, mas já nada tem de parecido com as edições mais antigas e o momento decisivo para essa degenerescência foi o desaparecimento do seu fundador e director, Dr. Belarmino Afonso. Desde a sua morte que a revista deixou de ter a dinâmica que possuía anteriormente e, daí para cá, foi sempre em perda. Está na altura de lhe dar uma nova vida, pois continuo a acreditar que há lugar e espaço para a sua sobrevivência enquanto projecto editorial e cultural.
Regressando às deambulações matinais pelas livrarias alfarrabistas. Visitei a Livraria Sousa & Almeida, na rua da Fábrica, que soube através de notícia no JN, irá fechar até ao final do ano, pois o edifício foi vendido e será ocupado por uma unidade hoteleira (só podia...). Segundo me disse o seu proprietário, tem todos os livros a, pelo menos, 50% do preço de capa e está a tentar vender o maior número de livros possível para fechar as portas. Lá encontrei algumas preciosidades e questionei-o sobre a revista Brigantia, ao que me respondeu que sim, sabe que tem vários números no armazém, mas tem que ter tempo para lá ir e depois me dirá alguma coisa... até hoje, ainda não me disse nada. Vou lá regressar amanhã de manhã. Entretanto, fui à Livraria Académica, na rua Mártires da Liberdade, e falando com o Sr. Nuno Canavez, logo consegui o que pretendia. Faltavam-me 15 números da revista e na Académica consegui, desde já, 10 deles a um preço espectacular. Assim e agora, apenas me faltam 5 números da revista, que sei o Sr. Nuno lá tem, mas como fazem parte da sua colecção completa, ele não a quer desfazer e prefere esperar para a tentar vender inteira. Compreensível e por isso não insisti, apenas lhe pedi para me ligar caso consiga encontrar esses últimos números em falta.
Satisfeito termino estas palavras.

04 abril 2017

é hoje...

Daqui a pouco estarei na Universidade Católica a falar sobre Trás-os-Montes, numa viagem através dos seus caracteres culturais e identitários. Conceitos como a identidade, a alteridade, a nomeação e tradução cultural serão abordados. Apareçam.

01 abril 2017

a obsessão da portugalidade

Aproveitando a ilusão de promoções (flash sales) da Fnac, trouxe hoje comigo o mais recente livro de Onésimo Teotónio Almeida, publicado já em 2017 e que versa sobre as nuances da identidade nacional, ou melhor sobre a identidade da portugalidade. Sendo uma questão que me interessa - a identidade - e sobre a qual também tenho dedicado algum tempo e trabalho, ainda que numa outra perspectiva e dimensão, as expectativas são elevadas também porque se trata de Onésimo Teotónio Almeida. No momento em que releio partes do seu despenteando parágrafos, vou colocar este novo livro no cimo do monte de livros para ler. Em breve regressarei com os devidos comentários.

Os intelectuais, bem como os cientistas sociais, ignorarão à sua própria custa esta questão da identidade. Ela não passará, todavia, por mais que eles lhe fechem os olhos. Poderá mudar de nome - e talvez até conviesse, dado que, como espero ter demonstrado, o termo hoje incorpora um complexo de realidades em simultâneo. Todavia, ainda que mudasse de nome, não deixaria de existir. (autor, folha prévia ao frontispício)