18 novembro 2017

melancólico mas bom

Meia-noite e meia, estação de comboios de Valadares, à espera da minha adolescente que regressava do Dragão. A rádio estava sintonizada na TSF e, a determinado momento, começo a ouvir um som envolvente, melodioso e melancólico. Desconhecia de todo o som, nem sabia quem estava a tocar. No final da música, Pedro Adão e Silva, anfitrião do programa, informou que eram os Cigarettes After Sex. Mal cheguei a casa, ávido, tratei de procurar e passei o resto da noite a ouvir esta banda, para mim perfeitos desconhecidos, e gostei. Sim, é um pop melancólico, mas soa bem. Soa a simples e melodioso. Gostei muito deste "Apocalypse".

16 novembro 2017

solidão e criatividade

Porque há uma diferença entre solidão e isolamento. A solidão é um estado criativo, e esse estado só me é cortado pela banalidade. Estou sempre em solidão, de noite e de dia, na multidão ou não, e quando deixo de estar é por causa de algum desvio. E aí recolho-me imediatamente. Preciso de manter permanentemente este estado criativo, interior, de solidão. (...) Não é fácil aguentar esta vida interior durante tantos anos sem ceder...
Luís Oliveira, editor da Antígona, in Revista LER, Outono 2017.

14 novembro 2017

verbo: proibir

A esquizofrenia social em que as nossas sociedades, actualmente, vivem, determinou que se chegasse à normalização do radicalismo, ou como se costuma ouvir e ler por aí, ao novo normal. É verdade: um dos verbos mais servidos e reivindicados é o proibir. Paradoxalmente, é em sociedades livres e com democracias adultas e estabelecidas, que verificamos esta apetência por coagir, limitar, coactar, controlar, as liberdades mais básicas dos indivíduos, condicionando a cidadania e, depois, as próprias democracias.
As redes sociais e os órgãos de comunicação social a reboque, e pelas primeiras influenciados, são o locus por excelência de todas as proibições, manifestadas grandemente através das múltiplas e variadas indignações que povoam e colonizam esses espaços virtuais, em processos distópicos, exclusivos e disruptivos, sem aparente censura, controlo ou vigilância.
Apetece decretar: é proibido proibir!

13 novembro 2017

para o Outono

Agora que o Outono está a chegar ao fim, mas quando ainda parece que estamos em finais de Verão, chegou às bancas a revista LER de Outono 2017. Para as próximas horas, que se querem frias e chuvosas.

07 novembro 2017

que mal pergunte

O que é a Websummit? É que estive a ver algumas imagens da abertura do evento que contou com o Primeiro-Ministro, o Presidente da Câmara de Lisboa, com António Guterres e com a participação surpresa do físico Stephan Hawking e não percebi. Para além do enorme show off e aparato tecnológico, o que aconteceu? Milhares de participantes com bilhetes a 1500 euros (?!), muitas caras larocas e sorridentes selfies, para quê e porquê? Depois ouvi o nosso Primeiro dos ministros falar inglês e não quis acreditar... depois ouvi Fernando Medina, com um enorme sorriso, afirmar: "Há 500 anos foram os navegadores, hoje são vocês: os empreendedores" e comecei a rir desbragado, enquanto mudava de canal.
Websummit o que significa? Quer dizer propriamente o quê? Alguém me explica como se eu fosse muito anacrónico, atávico e misantropo? Palavras (e adjectivos) estas tão bonitas por comparação com este newspeak geek, nerd e aparvalhado - veja-se a cara de felicidade aparvalhada nos rostos daqueles que por lá andam, tais quais crentes de uma qualquer seita religiosa, quiçá pelas ilusões virtuais que por lá são vendidas. Desculpem-me os crentes, mas quanto mais sei sobre estes eventos, cuja mais-valia se resume à dinâmica turística e hoteleira da cidade de Lisboa, mais realizado me sinto ao dedicar o meu tempo e saber a perscrutar e indagar sobre o passado e aqueles que, de uma forma ou outra, conseguiram deixar a sua marca, o seu trabalho, nessa linha invisível e sem fim, à qual chamamos tempo.

escritores russos


Camaradas leitores, faço autocrítica: na verdade vim em turismo burguês com a minha mulher Inês, pagando - como se costuma dizer - do nosso próprio bolso, mas aproveitando a época baixa, e sem qualquer compromisso a não ser passearmos, vermos museus, cúpulas acetoladas e sairmos descongelados do (súbito) mais frio Natal ortodoxo dos últimos cem anos.
Não gosto de viajantes modernos, de pessoas que fazem de conta que há sítios inéditos na superfície da Terra, considero-me um turista de cocktail. (...) A admiração pelos escritores russos, cem anos para trás da Revolução e cem anos para a frente, umas duzentas voltas ao Sol de poderosa beleza literária, comédia e tragédia. É por isso que estou sentado ao lado do salvar de Dostoiévski, aparelho em latão em que só ele podia mexer...
Rui Cardoso Martins, in Granta Portugal nº 10, 2017:69 e 70.

solilóquio

Dizem que há sempre um dia para os que sabem esperar. Pois bem, eu continuo à espera.

03 novembro 2017

mediascape: a burguesa

Só hoje tive oportunidade de ler a "pluma caprichosa" de Clara Ferreira Alves, na revista E do Expresso de 28 de Outubro. Do alto da sua burra, refastelada, a burguesa escreve:
Quando um problema se torna demasiado grande atira-se dinheiro para cima. Garantindo aos parceiros desprovidos de compaixão pelas vítimas que o dinheiro não virá do bolso deles. O PCP berrou logo que queria saber quem ia pagar. Eles só cuidam dos funcionários públicos, sindicatos, autarcas e clientelas que alimentam e de que se alimentam. O país nunca lhes interessou mais do que a manutenção da ideologia cujo sucesso assenta na pobreza. Se, por um milagre, Portugal passasse a ser bem administrado e menos desigual e injusto, os comunistas desapareciam. E do bloquismo restaria o perfume do caviar.

01 novembro 2017

de um simples

Há perguntas que eu gostava de fazer.
Eu não sei e gostava que alguém me conseguisse explicar!
Eu não sei onde fica o céu! Mas deve ser bem longe...
Eu não sei, mas deve ser difícil lá chegar... e vir de lá!
A Senhora veio cá várias vezes falar com pessoas... como é possível Ela vir de tão longe para falar com as crianças?!...
Ninguém me explica!

31 outubro 2017

cagança suprema

Este senhor não tem sequer a noção do ridículo que é. Ainda por cima têm-se numa conta... o melhor do mundo e arredores, só pode! Não há paciência. Vergonha alheia.


mediascape:poder divino

Com todo o respeito que a personagem me merece e respeitando a crença de cada um, parece-me ridículo, quando toda a gente já sabe que está prevista chuva para os próximos dias, o Cardeal de Lisboa indicar aos sacerdotes que façam uma oração depois da homilia para solicitar intervenção divina e chova. Pois bem, vai chover nos próximos dias e nós já sabemos disso graças à ciência humana e não à divina. Sem querer imiscuir-me nas coisas do sagrado, esteve tanto tempo calado e só agora que está prestes a acontecer, é que se lembra de publicar tal. Quererá os méritos para o que aí vem? (leia aqui o texto na íntegra)

28 outubro 2017

inacreditável

Então não é que logo à noite será o momento de atrasarmos uma hora o relógio e ainda anda toda a gente (menos eu) a veranear por aí com as carnes excedentárias à solta e a poluir a paisagem! Um ano destes, ainda vamos comer o bacalhau cozido da Consoada, depois de uma rica tarde na praia, em chinelos de enfiar o dedo e com as borras da salitre bem visíveis. O raio do calor!

venha o Diabo e escolha

Ainda a propósito do Acórdão da Relação do Porto, não sei o que é mais preocupante, se o atavismo, misoginia e beatice do juiz Joaquim Neto de Moura, se a incompetência declarada da sua colega, Maria Luísa Arantes, que subscreveu o documento e, agora, admite que nem sequer leu todo o texto desse Acórdão. Vergonha para a justiça portuguesa neste arcaísmo declarado e nesta incompetência assumida.

26 outubro 2017

em vias de extinção


É ao olhar para grafismos como este, no qual acabei de tropeçar, que se percebe como se pode extinguir um povo, ou uma nação. Bem sei que a questão palestiniana não colhe grande entusiasmo junto da civilização ocidental, capitalista e em grande parte, simpatizante da causa sionista. Eu nada tenho contra o povo judeu e seu estado, mas isso não quer dizer que concorde com aquilo que esse estado tem vindo, ao longo de décadas, a realizar - uma limpeza étnica sistemática, persistente e duradoura do território da Palestina. Uma vergonha para o mundo e para o povo Judeu. Não deixa de ser irónico serem os Judeus, tão perseguidos ao longo da História, a procederem desta forma. Como é possível não simpatizar com a causa Palestiniana?
E ainda me querem convencer que a identidade das pessoas e dos povos não está directamente associada a um território?! É que andam por aí muitos pós-modernos e neo-cosmopolitas que teimam em afirmar e em escrever que a identidade das pessoas e das comunidades não tem relação com o espaço, ou melhor, com os lugares onde se estabelecem, onde nascem, vivem e morrem...

viagem relâmpago

Para satisfazer velho desejo de um familiar, incapacitado de grande parte da sua autonomia, levei-o a Lourdes - França. Há muito tempo me falava da sua vontade de lá ir, da sua fé na Senhora que lá dita as narrativas do milagre e da crença. Pois bem, um destes dias saímos do Porto às cinco da manhã, viajámos de carro ao longo de 950 quilómetros, estivemos lá cerca de duas horas, o tempo necessário para ele conhecer o santuário, cumprir todos os preceitos de fé, rituais de purificação e de oblações, e se impressionar com a dimensão de todo o complexo religioso, e regressámos a Portugal e a casa, ao longo dos mesmos 950 quilómetros. Chegámos às duas da manhã do dia seguinte. Terá sido uma aventura, uma loucura para muitos com quem comento, mas para mim uma experiência de condução como nunca tinha realizado e a confirmação de que ao volante a fadiga, em mim, tarda a chegar.

(fachada da igreja) 

(gruta da aparição - destino principal das peregrinações)

23 outubro 2017

posso vir a arrepender-me de escrever isto, mas...

O Acordo decretado pelo colectivo da Relação do Porto em relação a uma mulher vítima de violência doméstica é uma vergonha para todos nós. Alegar uma lei obsoleta de um século de antanho e fazer censura moral baseada em princípios de fé, é inadmissível num Estado de Direito, Republicano e Democrático. Gostava de saber quem são estes doutos bafientos, senhores juízes para, alegando a Bíblia, proferirem sentenças. Era quem lhe partisse as bentas com as respectivas Bíblias, mas domesticamente, para não poderem alegar o que fosse... Puta que os pariu. Gente bolorenta, atávica e com perfume a naftalina. Como se a infidelidade feminina (ou qualquer outra) desse o direito ao respectivo macho (cornudo e besta) de ser violento e agressor.
Por fim, por mais triste que seja, por mais infeliz que possa ser, por mais inacreditável que possa parecer, a realidade em Portugal, e em pleno século XXI, é que somos ainda uma comunidade sexista,  machista e misógina e o que o homem-macho pensa, verdadeiramente, é que elas só têm é que abrir as pernas, calar e mais nada. Pior ainda, muitas das vítimas desta violência concorda com este devir, com esta fatalidade, chegando mesmo a subscrever sentenças deste tipo. Vergonha.

19 outubro 2017

é tempo

É tempo de perceber que o OE, a dívida, o défice e o funcionalismo público não são o país. Este é feito de pessoas que têm sentimentos. António Costa ou percebe isso, ou não.
(Fernando Sobral in Jornal de Negócios)

lixo vegetal e resiliência

Ainda no rescaldo dos trágicos incêndios de Domingo, uma amiga comentava que achava impressionante como o fogo chega tão perto das habitações e do centro das aldeias. Ao olhar para as imagens dos incêndios e da permanente invasão do fogo de espaços habitados, não percebia como era isso possível. A essa estranheza mostrei-lhe, através da paisagem que percorríamos de carro, em territórios eminentemente urbanos, de periferia de grandes centros urbanos, como todos nós vivemos rodeados de lixo vegetal, de autêntico combustível pronto e disponível para ser rastilho e alimentador de fogo. Reparem como mesmo em espaços urbanos ou peri-urbanos, espaços com enorme pressão urbanística e demográfica, as pequenas matas, silvados, fetos e outra vegetação selvagem, crescem fácil e livremente, sem qualquer reacção ou medida para evitar esse perigo eminente. Depois queixam-se e não percebem como foi, ou é, possível o fogo aí chegar...
Se olharmos para o interior do país, ou melhor, se sairmos dos grandes centros urbanos e mergulharmos na paisagem rural do nosso país, muito facilmente iremos verificar como as pessoas vivem, literalmente, mergulhadas nesse lixo vegetal, sem qualquer utilidade ou proveito, mas que em situações como as que agora experimentámos, são pasto e autênticas vias rápidas para a gula do fogo devorar tudo o que se lhe apresente pela frente e chegar até ao centro dos povoados. Impressionante. Vejam as imagens que ainda hoje passam nas televisões e poderão constatar isto mesmo. Só que ninguém fala nisto e a pergunta que se impõe é: porquê?

17 outubro 2017

responsabilidades

Apesar de saber que não é pela demissão e substituição de ministros, secretários de estado, chefias, comandantes e comandos que os problemas desaparecerão, impõe-se em todo o caso uma responsabilização de todo o aparelho de estado relacionado com a Protecção Civil e Ministério da Administração Interna. Concordo que a actual Ministra da Administração Interna e sua equipa não têm qualquer condição para se manterem nos cargos que ocupam e que deveriam ser substituídos quanto antes, mas também defendo que os demais elementos da hierarquia de poder, nas diversas instituições que compõem a Protecção Civil deveriam ser substituídos. Deveriam correr com todas chefias e corpos dirigentes, cujas carreiras são políticas e substituí-los por novos elementos, sujeitos a concursos, com relevância para o seu mérito técnico, académico e experiência profissional. Assim como também defendo que nos bombeiros haja modificações nos seus quadros dirigentes. Aliás, é aqui neste universo das corporações dos bombeiros que está o grosso do filão dos incêndios. É aí que se constroem verdadeiras fortunas. Não se percebe como figuras como Jaime Marta Soares consiga passar por entre as pingas desta chuva e não seja também ele responsabilizado e, de uma vez por todas, erradicado de seu trono de "dono dos bombeiros e seus interesses". Se em todo este cenário há uma figura indigesta, que me induz a vesícula biliar a libertar bílis, é esse senhor. É que não há pachorra.

ainda do raio que os partam!

Neste tempo de reflexão e de luto nacional pelas vítimas dos incêndios e a propósito daquilo que ainda ontem aqui escrevi sobre esta moda da defesa exacerbada dos direitos dos animais, que tem distraído a nossa classe política daquilo que é importante e essencial para a nossa sociedade, na verdade, nos últimos anos, talvez desde 2009 e, com maior incidência a partir de 2011, fomos completamente esmagados pelas questões financeiras e económicas, por uma trupe de especialistas - políticos, jornalistas, astrólogos e afins - que monopolizavam a opinião pública e esgotavam a comunicação social publicada, não dando qualquer espaço para se poder falar do resto. Lembro-me de já aqui ter manifestado o meu desagrado por tal esmagamento...
Aqui está um bom exemplo, as florestas, mas foi preciso uma desgraça como a destes dias para ela entrar na agenda política e mediática. Se pararmos para pensar sobre todos estes anos, não houve espaço nem para a floresta, nem para o território, nem para justiça, nem para a protecção civil, nem para a educação, nem para a agricultura, nem para a saúde, nem para a pesca, nem para a cultura, nem para mais nada a não ser o discurso financeiro/económico da dívida pública, do défice, do endividamento, dos ratings e da recessão. Talvez se a opção não tivesse sido essa, parte dos problemas nos outros sectores da nossa comunidade; talvez desgraças como as deste Verão/Outono não tivessem a dimensão catastrófica que tiveram; talvez, talvez.

16 outubro 2017

raios os partam!

Escrevo estas linhas, no rescaldo, ou quase, de mais uma tragédia humana em Portugal, provocada pelos incêndios. Até este momento, e entre ontem e hoje, morreram trinta e seis pessoas em diferentes locais do país. Existem várias dezenas de feridos, entre os quais muitos com gravidade e correndo o risco de vida, sete pessoas estão desaparecidas e o cenário pode, a cada momento, ficar ainda mais catastrófico. Inacreditável. Mesmo depois do que aconteceu em Pedrogão Grande, e passados cerca de quatro meses, nada se fez para corrigir os erros aí verificados: nada se alterou na protecção civil, nas cadeias de comando, na protecção das populações rurais, na organização do território, nem na reorganização da floresta nacional. Não houve tempo!?
Mas tempo não faltou para, nas últimas semanas, andar elite política, urbana e cosmopolita, entretida a elaborar legislação, a discutí-la e a votá-la na Assembleia da República, sobre a permissão de animais de estimação em estabelecimentos de restauração. Bem sei que um e outro assunto não têm relação, mas aquilo que aflige é a futilidade, perante tantos assuntos importantes e urgentes para resolver, andarem entretidos e muito preocupados com os animaizinhos e os seus putativos direitos.
Raios os partam! Esta gente só pode viver numa realidade alternativa, desligada da realidade. Qualquer dia, provavelmente num futuro próximo, vai querer legislar sobre a possibilidade de os sentarem à mesa connosco e serem servidos de igual forma. Ou pior, para alguns radicais desta nova PANizização na nossa sociedade, o objectivo será pôr-nos a comer o mesmo que os tais animais de estimação... [prestem bem atenção aos seus programas, discursos e agendas...]
Eu gosto de animais, nomeadamente de cães, mas não confundo a sua condição com a humana, naquilo que são os seus pretensos direitos e, pasme-se, suas obrigações. Enfim, o ridículo é tal que estou ansioso pela discussão parlamentar na especialidade destas leis. Estou também curioso para saber qual a percentagem de proprietários, dos referidos estabelecimentos comerciais, que irão permitir a permanência de animais de estimação.

11 outubro 2017

é o que se chama pôr a carne toda no assador...




mercado de livros

Uma vez mais está a decorrer [de 3 a 25 de Outubro] o Mercado do Livro, no Pavilhão Rosa Mota. Hoje foi dia de o visitar. Aproveitando duas horas livres antes do almoço, lá fui eu, equipado a rigor, à busca de espécimes a bom preço. Claro que encontrei, encontro sempre, algo que me interessa, mas na verdade é-me cada vez mais difícil essa descoberta. Primeiro, porque ano após ano, os títulos são sempre os mesmos; Segundo, porque maior parte daquilo que lá está disponível não interessa, eu diria, a quase ninguém - muita literatura de qualidade duvidosa, muita edição sem qualidade, muitos títulos e, principalmente, autores desconhecidos e, acima de tudo e apesar do amplo espaço, enorme anarquia nos temas, na disposição dos livros e na dispersão de autores e editoras. Terceiro, porque de ciências sociais já nada encontro que me seja estranho, que tenha interessa, ou que não tenha já em casa. Claro que sempre que acontecer, eu vou lá estar, mas, de certeza, cada vez mais com menor expectativa. No entretanto, hoje trouxe mais uns livritos apetitosos.

COMER (com letra grande)

Sim, come-se bem em Trás-os-Montes. À antiga. Dando graças a Deus, e com esperança de que por estas bandas não deitem raiz as ideias dos fanáticos que, mandassem eles, nos obrigariam a esquecer os prazeres da mesa, e nos poriam a uma dieta de alface e repolho, com sobremesa de dióspiros. (J. Rentes de Carvalho, 2017:54)

10 outubro 2017

dor de alma

Hoje perdi um livro. Por incrível que possa parecer, perdi um livro que estava a ler no conforto do meu carro. A determinado momento pousei-o na prateleira da porta do carro e com o abrir e fechar dessa porta, ele deve ter caído ao chão sem eu me ter apercebido. Só quando cheguei a casa e o procurei, me apercebi da perda. Terrível sensação. Solução imediata: aproveitar o horário do jogo da selecção portuguesa para ir comprar um novo exemplar e, assim, repor a ordem na leitura e no acervo.

09 outubro 2017

a última

Chegou-me às mãos a nova Granta Portugal, que será a última edição desta sua versão só portuguesa. A partir do próximo número passará a chamar-se Granta Portugal / Brasil e será publicada em simultâneo nos dois países e com autores lusófonos. Aguardemos então por esse novo formato. Entretanto...

06 outubro 2017

a jovem chorava

Num café, faço horas para ir buscar a minha criança à escola. Concentrado na leitura que trago, só a espaços levanto o olhar para o horizonte à minha disposição. Na mesa contígua vem sentar-se uma jovem, sozinha, traz um semblante triste. Pede algo à empregada e, reparo, pelo seu rosto caem-lhe lágrimas pesadas, que a custo vai sustendo com um lenço. Desvio o olhar no momento em que me olha. Percebo-lhe o incómodo por alguém já ter percebido a sua tristeza. Mergulho de novo na minha leitura, mas já não consigo abstrair-me do seu rosto sofrido. Mesmo sem a olhar, percebo que chora e que sofre. Hesito se devo abordá-la e confortá-la... penso, precisará falar, desabafar com alguém?... precisará apenas de um ombro amigo para continuar a chorar?... num momento seguinte, a dúvida é como a abordar... levanto-me, vencendo toda a resistência inata, seja timidez, seja cobardia, e dirijo-me a ela: - a menina está bem? - precisa de alguma coisa? Algo atrapalhada, segurando o lenço, responde-me: - muito obrigada. Não, não estou bem. Morreu-me um amigo e não sei como vai ser... Agora o embaraço é meu e apenas consigo pronunciar um lamento. Ela agradece e o seu rosto desaparece por trás da chávena de chá. Regresso ao meu lugar.
Isto foi o que imaginei ter podido acontecer se lá tivesse ido, mas não consegui vencer a inércia e deixei-me ficar sentado, atento aos sinais que lhe percebia, apenas fiz aquilo que costumo: pûs-me a escrever.

literatura e a distinção sueca

Ontem foi conhecido o Prémio Nobel da Literatura 2017. Mais uma vez o prémio foi entregue a alguém que não fazia parte da bolsa dos principais candidatos sugeridos pelos "especialistas". O distinguido foi o escritor inglês, nascido no Japão, Kazuo Ishiguro, cuja obra foi descrita como:  "romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo". Desconheço por completo a sua obra, os seus livros, nem sequer o seu nome me era familiar. Sei agora que está traduzido em Português pela Gradiva. Pois bem, tal como tem acontecido nos últimos anos, também este ano, continuarei a ignorar o laureado. Não questiono a qualidade da sua escrita, mas não tenho tempo, nem paciência, nem vontade, sequer, de a descobrir e conhecer. Ignorante, mas com tanto que tenho para ler... venha o próximo.

04 outubro 2017

escrever, um ambiente para

Quando miúdo, e mesmo quando mais graúdo, não havia Verão em que não fosse, com a restante família, passar umas semanas à aldeia natal de meus pais, em Trás-os-Montes. Esses dias de descanso e, principalmente, de brincadeiras e aventuras, eram partilhados com outros familiares que também para lá convergiam, por esses dias estivais.
Uma das recordações que guardo desses dias e que, na altura, enquanto criança, não entendia, era o desespero de um tio que, atolado em papéis (processos e outras peças judiciais) tentava despachar mesmo em tempo de férias, nunca encontrava o lugar propício para se poder concentrar e trabalhar. Havia sempre algo a perturbá-lo - moscas, correntes de ar, calor, ruídos de animais ou pessoas, entre outras distracções - e a impedi-lo de se manter por algum tempo no mesmo lugar. Era vê-lo, exasperado, a carregar pastas e papéis, de casa para casa, de palheiro para varandas, de cabanais para garagens, num rodopio que não percebia e numa aflição intangível para mim.
Só agora, muito mais tarde e quando sinto os mesmos sintomas e semelhante dificuldade para o processo da escrita - iniciá-la ou mantê-la - é que alcanço a sua dificuldade em encontrar o local ideal para se poder refugiar do ambiente, adverso e hostil, que o rodeava.

03 outubro 2017

capitulação

Finalmente Pedro Passos Coelho reconheceu o óbvio e indesmentível: não tem condições para continuar como líder do PSD. Para alguns, trata-se da consequência natural do resultado desastroso nas autárquicas, para outros, muitos, é algo que mais tarde ou mais cedo teria que acontecer, face ao sucesso do actual governo da "geringonça". Para outros ainda, o que aconteceu hoje já deveria ter sucedido há muito tempo.
Mais do que os ódios que Pedro Passos Coelho conseguiu coleccionar enquanto Primeiro Ministro, o que sempre me impressionou foi a sua resiliência, numa teimosia doentia e cega. Mais do que a queda de Pedro Passos Coelho, fico satisfeitíssimo com a saída de cena, e do círculo de poder e de influência, de personagens como Marco António Costa, Miguel Morgado, Bruno Maçães e afins, que por intermédio da liderança de Passos Coelho, tiveram espaço e tempo para difundir as suas teorias e conceitos racistas, xenófobos e que, deliberadamente, prejudicaram a maioria da população portuguesa. Espero também que luminárias como Maria Luís Albuquerque, Hugo Soares, Carlos Abreu Amorim e António Leitão Amaro acabem por desaparecer numa manhã de nevoeiro lá para os lados da São Caetano.
Independentemente dos novos intervenientes e das lideranças possíveis, os próximos tempos não se adivinham fáceis para o PSD.

duas de letra

Sou um solitário, amante do silêncio e devorador de vazios. Esses tempos da minha vida em que consigo retirar-me, ainda que no epicentro do maior caos ou confusão, são os mais terapêuticos, os mais adoráveis e os mais apetecíveis. Nas andanças quotidianas, nos interstícios daqui para ali e dali para acolá, felizmente, consigo sempre encontrar um desses tempos vazio, que me permite, por breves ou largos minutos, estar e fazer aquilo que mais aprecio. Por norma, associo sempre esses tempos a lugares, aos quais regresso sempre que possível. São lugares onde, por diferentes razões, me sinto bem, confortável e onde me deixo ficar. Um desses lugares é este café junto à Biblioteca Municipal do Porto e de frente para o Jardim de São Lázaro, onde, não me servindo de seu nome, solitário permaneço.

(imagem roubada da internet)

02 outubro 2017

as minhas autárquicas

Os meus interesses, não no sentido de qualquer benefício pessoal, mas sim no sentido das minhas preferências e, acima de tudo, no sentido das disputas eleitorais locais que me importavam, situavam-se no quadrilátero entre Valadares, Vila Nova de Gaia, Bragança e Vinhais.
Naquilo que foram as primeiras eleições autárquicas deste século nas quais não participei, tal como já aqui referi, foi com alguma ansiedade e enorme expectativa que aguardei até bem perto das quatro da madrugada, por todos os resultados finais que me importavam. Em relação ao cenário nacional não me vou pronunciar, apenas referir que fiquei satisfeito, grosso modo, com o resultado final, pois interessa-me muito mais partilhar os meus sentimentos relativos ao referido quadrilátero geográfico.
Em Valadares, onde sou cidadão-eleitor, venceu com maioria absoluta o actual presidente, que é um dinossauro com várias dezenas de anos de exercício autárquico em Gulpilhares e, agora também, em Valadares. O agora candidato do PS, depois de já ter sido candidato independente, do PSD e do PS, não mereceu o meu voto, pois mantive a minha lealdade partidária. Contudo fiquei satisfeito que tivesse ganho, principalmente, pela candidatura adversária do PSD, encabeçada por alguém que apenas direi merece todo o meu desprezo enquanto cidadão.
Em Vila Nova de Gaia o resultado ainda foi mais expressivo e Eduardo Vitor Rodrigues, candidato do PS e actual presidente de Câmara, atingiu uma enormíssima votação, derrotando clamorosamente o seu candidato adversário do PSD. No concelho de Vila Nova de Gaia, o PSD foi varrido da presidência das Juntas de Freguesia, nem uma só ficou nas mãos dos sociais democratas, o que não deixou de me alegrar a amígdala. Humilhação total e completa. Fiquei satisfeito. Resta referir que apesar do meu candidato, o Renato Soeiro, não ter conseguido ser eleito para a vareação, a candidata do BE à assembleia de freguesia de Gulpilhares-Valadares conseguiu ser eleita pela primeira vez. Muito bom.
Em Vinhais o meu desejo era que o PSD conseguisse derrotar o PS. Não aconteceu por apenas 78 votos. Lamento pois era imperioso remover da Câmara Municipal todo o caciquismo, toda a clientela que por lá existe há décadas. Sem ter qualquer simpatia pessoal com o candidato Laranja, a minha proximidade a alguns dos membros das suas listas, garantiam-me honestidade e seriedade mais do que suficiente para desejar a vitória do PSD/CDS-PP. Muito mau.
Em Bragança, mais do mesmo! Vitória claríssima e esmagadora do PSD. PS apenas consegue eleger dois vereadores e três presidentes de Juntas de Freguesia (em 39 possíveis). A surpresa da noite e para grande espanto, alegria e regozijo meu, foi a eleição de dois membros do BE, pela primeira vez, para a Assembleia Municipal. Passámos a ser a terceira força partidária aí representada. Excelente.
Estas foram as minhas eleições autárquicas, nos locais que fazem parte da minha cidadania, da minha existência sentimental.

01 outubro 2017

mediascape:o princípio do fim

As imagens que nos chegam de Barcelona e de toda a Catalunha são as esperadas, tendo em conta a tensão e a incapacidade política de Madrid face à iminência da realização do referendo catalão. Uma vergonha para o Estado que não conseguiu, nem consegue, resolver as questões políticas relacionadas com as autonomias e, depois, as pretensões de cada nação à auto-determinação ou independência. Aquilo que podemos assistir hoje permanecerá durante muito tempo na memória dos Catalães e só servirá para engrossar as fileiras dos movimentos independentistas, em Espanha e em qualquer outro lugar. Ao Estado, ao PP e a Madrid resta-lhes o argumento da força policial, da repressão e da violência, só que estes serão sempre insuficientes para impedir o destino das suas nações. Sim, Espanha não é uma nação e o seu futuro estará, agora mais do que nunca, em jogo. Veremos.

29 setembro 2017

regras básicas de racionalidade, de método e os embustes (1)

- Parte 1 -
Isabel do Carmo, médica e professora, escreveu na edição de Setembro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), um magnífico artigo sobre os embustes que se verificam às custas de uma tentativa de legitimação científica, em particular na área da saúde e da alimentação. Logo o título O pensamento mágico de fachada científica, sintetiza muito bem a estrutura de todo o texto, servindo-se do extenso sub-título para dizer ao que vem, afirmando: ...Mas é importante reflectir sobre as disputas que, ocorrendo fora do campo científico e não se sujeitando às regras básicas da sua racionalidade e método, tentam legitimar-se com embustes sobre o que é "natural" ou "científico".
Começa por afirmar que, ao contrário do que se possa pensar, o pensamento mágico aplicado ao quotidiano, em particular à saúde e alimentação, está associado e tem evoluído de acordo com as mudanças dos grupos mais jovens das populações urbanizadas, e não nas zonas rurais... trata-se de modas urbanas, que têm acompanhado o vestuário e os costumes.
Depois, fazendo um resumo histórico dos confrontos das massas juvenis e dos movimentos na segunda metade do século XX, procura "descobrir" as origens de uma cultura New Age e, ao mesmo tempo, de um neo-orientalismo que, apesar de diferente do olhar extasiado dos europeus aventureiros que descobriram as culturas orientais no século XIX, mas igualmente maravilhado e acrítico como se fosse finalmente descoberto o paraíso perdido em que muitos ainda acreditam. Daqui ao momento em que o Ocidente passou a olhar paternalista para essas culturas, foi um instante e, a par desta descoberta de soluções para a saúde e para a doença, instalou-se sem resistência o comércio e a marcantilização, que gera muito mais dinheiro do que poderiam sugerir umas simples ervinhas.
No segmento seguinte do texto, Isabel do Carmo começa por questionar: O que é o "natural"*? À pergunta, apresenta a palavra que os cientistas deveriam ter, se não recearem as tendências e a fúria das modas... toda a paisagem dos campos com que nos maravilhamos não é natural. Foi obra do ser humano, não estava lá. Logo, o raciocínio é fácil e lógico: O que querem dizer os comerciantes sempre que usam o adjectivo "natural"? O que querem os nossos amigos e os doentes quando falam dos produtos "naturais"? Quererão dizer que sendo "natural" é "bom"?!
Perguntar-se-á então se se trata de plantas espontâneas, colhidas com o saber antigo dos druidas ou se são cultivadas e bem cultivadas, adubadas e pulverizadas de insecticidas para crescerem bem e depressa, responderem à procura do mercado e encherem prateleiras de lojas especializadas. A autora inclina-se mais para esta segunda hipótese.
Depois, em tom interrogativo, regressa à associação entre "natural" e "bom", afirmando que esta ideia releva de um antropocentrismo muito entranhado nas religiões e nas culturas... e que mesmo a natureza nos oferece uma panóplia de substâncias perigosas para a saúde e vida dos seres humanos, apresentando vários exemplos dessas substâncias e fazendo uma síntese da evolução do conhecimento popular relativo à flora e à sua utilização para fins farmacológicos, terapêuticos e medicinais. A este propósito é dito: o respeito pela história dos saberes populares ou de vultos do passado não nos pode levar a concluir que é melhor chupar o salgueiro quando se tem dores, em vez de tomar uma aspirina de síntese, ou procurar fungos para combater uma infecção com bactérias, em vez de tomar um antibiótico. (...)
Portanto, todos os produtos "naturais", "plantas", "suplementos alimentares", mesmo sendo vendidos nas farmácias, o que lhes confere uma dignidade técnica e científica indesmentível, estão no mercado tendo apenas declarado que existem no Ministério da Agricultura e, embora sejam usados para fins medicamentosos, não têm qualquer dossiê nem de eficácia, nem de toxidade. Longe de estarem diabolizados como acontece aos medicamentos, a sua propagação assenta numa base culturalmente bem sólida.
Assim, para Isabel do Carmo, este é o mundo das nossas populações urbanas, escolarizadas, de um grupo etário dos jovens aos jovens-adultos e pelos vistos com poder de compra para frequentar os múltiplos pontos de comércio destes produtos. (...) Tudo o que vem atrás tem sido revestido de explicações "científicas", indo buscar palavras da esfera da ciência, como seja "energia" (...), com um significado quase cabalístico... O aspecto placebo é aqui de grande importância...
Agora temos a fachada científica a funcionar em pleno. É o caso das intolerâncias ao glúten e à lactose, da dieta paleolítica e a pesquisa (utilizando aparelhos e tecnologias) de défices causadores de doenças presentes e futuras.
O artigo termina com uma reflexão sobre a literária em saúde, e aqui a questão coloca-se ao nível da informação do conhecimento que é fornecida para o público em geral. Reconhecendo que tem sido realizado um esforço considerável, a verdade é que os alunos actuais têm muita mais informação do que os seus pais e avós.

* esta questão do "natural" relembra-me outra moda vigente e rentável - a da agricultura "biológica". Mas então não é toda a agricultura biológica?

regras básicas de racionalidade, de método e os embustes (2)

- Parte 2 -
Comprei recentemente este livro, pois trata de algo muito importante nos dias de hoje: na era da pós-verdade e dos factos alternativos, todos os dias parecem 1 de Abril. Este livro procura ajudar as pessoas a não serem enganadas por afirmações falsas e sem valor, apresentando um conjunto de exemplos de cariz duvidoso. Ensina e promove o uso do pensamento crítico e racional, com apoio do método científico, e promove o desenvolvimento de uma postura céptica face a tudo quanto nos é impingido, ensina a distinguir a ciência da pseudo-ciência, hoje em dia tão difundida por todo o lado.
Comprei este livro para aprender, mais e melhor. Comprei este livro pela sua dimensão pedagógica e como ferramenta para, depois, partilhar com os meus alunos. Será uma das minhas referências bibliográficas, já neste ano lectivo, para a cadeira de Epistemologia.
Paulo Pinto, no blogue Jugular, faz uma apresentação detalhada e crítica deste livro. Aconselho a sua leitura através do link - abaixo entre parêntesis.

É um verdadeiro manual de iniciação científica sobre dúvidas correntes que nos invadem o quotidiano, os murais, as notícias e os fóruns. Um verdadeiro guia sobre crendices, mitos, desinformação, temores e terrores da era global, que busca – e alcança plenamente – um único objetivo: informar o que diz a ciência acerca de cada um deles. O principal mérito desta primeira obra do Comcept é o de conseguir esclarecer evitando juízos de valor ou considerações morais ou religiosas. (Paulo Pinto, in jugular)

28 setembro 2017

ausência voluntária

Em plena campanha eleitoral autárquica e quando nos aproximamos rapidamente do seu fim, logo, do dia das eleições, verifico uma mudança naquilo que é o entendimento dos candidatos e candidaturas e, depois, a percepção da maioria da população, têm sobre estes tempos, espaços e momentos de eleição. Finalmente, talvez como sinal da maturação da democracia em Portugal, abandonámos toda aquela parafernália visual, sonora e poluidora que, durante décadas caracterizaram estes momentos e infernizaram a vida aos cidadãos. Para além das grandes estruturas que são os outdoors, e que estão espalhados por todos concelhos, por todo o país, meia-dúzia de cartazes pendurados aqui e acolá, pouco ou nada nos diz que estamos em campanha eleitoral. Ainda bem, penso e digo eu. Assim vivemos todos muito melhor. Se não ligássemos as TVs e Rádios, ou se não lêssemos Jornais, nem sequer sabíamos ao que vamos.
Pessoalmente, constato também que, desde 2001, por vontade própria, é o primeiro momento de eleições autárquicas em que não participo activamente, em que não sou candidato a um qualquer lugar ou cargo autárquico. É claro que senti isso, até porque ao contrário do que é a percepção generalizada, foram para mim excelentes experiências e que contribuíram para minha formação cidadã e humana.

peculiaridades

A propósito de uma recente aparição intensa nas redes sociais e, principalmente, nas rádios nacionais, do universo de The Smiths e de Morrissey, talvez às custas de um qualquer data assinalável nesses universos, compreendi como esses ambientes sempre me passaram ao lado e, apesar de conhecer e ter ouvido muita da sua música, nunca essas sonoridades me fascinaram. O culto e a veneração a Morrissey são, ainda hoje e para mim, incompreensíveis. Aceito a peculiaridade da sonoridade de Morrissey que, de alguma forma, se funde ainda nos ambientes da sua ex-banda, mas daí até à inquietude que se percebe à sua volta?!... ainda por cima, o gajo é uma besta, afectado, arrogante e sociopata. Mas tudo bem, quem sou eu para julgar um dos deuses do sempre etéreo e pungente Olimpo do pop-rock contemporâneo?... Entretanto, deles, desse tempo e para todo o sempre, ficou este som.


(optei pelo video oficial, pois as opções ao vivo disponíveis representam precisamente tudo aquilo que detesto [e adjectivei acima] em Morrissey)

lack of

I think I need to find a bigger place
Cause when you have
more than you think
you need more space.
(Eddie Vedder, Society, in Into the Wild)

21 setembro 2017

mediascape:desilusão rural

Pois é, afinal a coisa não era assim tão boa, tão fácil e tão promissora. Chegou ao fim o projecto "Novos Povoadores", cuja principal missão se traduzia na promoção do êxodo urbano e no repovoamento do interior rural do país. Eu, em devido tempo, referi-me a ela (à coisa) e houve quem não gostasse das minhas palavras. Lamento, apenas manifestei a minha opinião, baseada não só na minha sensibilidade, como também baseada naquilo que é o meu conhecimento da imensa ruralidade  em Portugal.
Frederico Lucas (na fotografia) era o líder e o rosto visível do projecto, incansável e empreendedor, acreditou que seria possível inverter a litoralização da população portuguesa. Tive o prazer de o conhecer, em Bragança, e com ele trocar umas impressões sobre o projecto e sobre a realidade do mundo rural na actualidade. Também trouxe aqui, a este espaço, um texto sobre o assunto, que na altura e porque eu o partilhei nas redes sociais, motivou algum desagrado no Frederico e seus pares.
O título da notícia do fim do projecto é muito forte e até humilhante para quem, como o Frederico, tanto lutou por conseguir fazer vingar a sua ideia e projecto. Não fico satisfeito com este desfecho, mas aceito-o como consequência natural da realidade demográfica e das políticas para o território nacional, nas últimas décadas.
Deixo-vos a referida notícia do Jornal de Notícias, do passado dia 18 de Setembro, assim como, ao arrepio do que me é habitual, re-publico o texto que escrevi no dia 10 de Agosto de 2012.


"êxodo urbano, novos povoadores e a reconquista do nordeste..."


Li hoje no jornal Mensageiro de Bragança a notícia de que o primeiro de cinco casais que já estava instalado no concelho de Alfândega da Fé, há cerca de um ano e ao abrigo do programa de repovoamento rural Novos Povoadores, abandonou o projecto e regressou ao litoral, de onde eram originários. Na mesma notícia, a actual presidente da respectiva Câmara Municipal admitiu que apesar de ter achado interessante e ter apoiado o projecto, sempre desconfiou da sua aplicabilidade e sucesso. Este era apenas o primeiro casal que o projecto, em fase piloto, conseguiu transferir e com esta desistência, os responsáveis pelo projecto serão obrigados a encontrar um casal em condições de substituir aquele que saiu.
Alguém terá ficado surpreendido com esta notícia? Não sei, mas eu não fiquei nada surpreendido. Admiro até como foi possível esse casal aguentar cerca de um ano longe de todas as suas referências e do seu "habitat natural". Não quero com isto dizer que este movimento é contra-natura, pois até considero o projecto teoricamente interessante, mas a verdade é que não é nada fácil, hoje em dia, trocar o conforto e as acessibilidades do espaço urbano pelo desconforto e distâncias dos territórios rurais e do interior do país. A promoção dos territórios rurais é importante e parte da fundamentação deste projecto assenta nas enormes assimetrias existentes no território nacional e na importância de tentar contrariar a forte tendência para a litoralização demográfica. Isso pode, de facto, acontecer através de um êxodo urbano, mas será sempre um esforço incomensurável e provavelmente, inglório.
Apesar da simpatia que o projecto me merece, penso que para quem conhece um pouco a realidade dos territórios rurais deprimidos e suas comunidades, não deixa de ser uma ideia romântica pensar que esses novos povoadores seriam um caminho para o repovoamento e a solução para todos os problemas dessas comunidades e territórios. Não são. Aliás, um dos problemas deste projecto é mesmo essa mensagem virginal, naturalista e idílica do mundo rural que desde logo me remete para as reminiscências de um ideário pastoral - movimento literário com forte expressão na segunda metade do século XIX - que exaltava o mundo rural por oposição à vida urbana.
Produzida por citadinos, a sensibilidade pastoral é gerada por um desejo de se retirar face ao poder e complexidade crescentes da civilização. O que é atraente no pastoralismo é a felicidade representada por uma imagem da paisagem natural, um terreno intocado ou, se cultivado, rural. O movimento em direcção a esta paisagem simbólica pode também ser entendido como um movimento para longe de um mundo artificial (...). Noutras palavras, este impulso dá azo a um movimento simbólico para longe dos centros da civilização em direcção ao seu oposto, natureza, para longe da sofisticação em direcção à simplicidade, ou, para introduzir a metáfora principal do modo literário, para longe da cidade em direcção ao campo. (Marx, 1967 in Silva, 2009)
De facto, os factores de atracção do campo estão relacionados com os seus atributos reais ou imaginários, tais como a liberdade, a tranquilidade, o bucolismo, a tradição, a natureza, a autenticidade, entre outras e no discurso destes "pioneiros" podemos, igualmente, encontrar expressões, tais como "tranquilidade, qualidade, tempo, ambiente, vida mais oxigenada, elite, província...", ou ainda, "...decidiu partir à aventura! Muitas vezes atrás de um sonho", que remetem igualmente para esse universo de simbologias ou mitologias do mundo rural.
Regressando à notícia em apreço, percebi que um dos elementos (ele) tinha um emprego em que poderia perfeitamente deslocalizar-se e o outro elemento (ela) iniciou um negócio de venda de mel na internet(?). Bem, muito poderia dizer acerca desta conceptualização do que é viver de uma actividade do sector primário, mas vou-me limitar a transcrever algo que um grande amigo, especialista nestas cousas da agricultura, um dia me disse: "Num território como o transmontano, cuja dimensão padrão das parcelas agrícolas é o microfundio, o meu conselho para todos os paraquedistas (leia-se, sem experiência) que pensam investir na agricultura, é que estejam quietinhos e deixem estar o dinheiro no banco. É uma perda de tempo e de dinheiro".
Gostaria um dia de poder viver num território rural deprimido, tão deprimido que só lá estivesse eu, mas com o pragmatismo mínimo necessário sei que isso só acontecerá se eu conseguir aforrar o suficiente para a minha sobrevivência e conforto. Pois é.
(in apurriar, 12 Agosto 2012)

LER já no final do Verão


Foi sem querer que dei com a revista à venda. Passado praticamente todo o Verão, nem me lembrei de que haveria de sair uma edição para esta época de veraneio. Cá está ela, já lida e consumida. 

14 setembro 2017

password

Vivemos um tempo em que nos é exigida palavra-passe para tudo e mais alguma coisa. Dou comigo, maior parte das vezes em que me é solicitada a criação de uma, incapaz de escolher a palavra certa, isto é, aquela que jamais esquecerei. Perante esta crónica dificuldade, foi com um sorriso no rosto que ouvi hoje a palavra-passe de uma rede wifi... oquetuqueresseieu

descomplicar....

no primeiro dia de aulas

Hoje foi o primeiro dia de aulas para a minha criança mais pequena. Sem ter qualquer ideia prévia do que o esperava, experimentou hoje pela primeira vez uma sala de aulas da escola primária. No fim comentou, ao telefone, com a mãe, sobre esta nova experiência:
- Ó mamã, a professora falou tanto, tanto, tanto, que eu fiquei cansado e até tapei os ouvidos.

07 setembro 2017

horas entre livros

Aproveitando a tarde soalheira e a pouca vontade de ficar encerrado entre, no mínimo, quatro paredes, fui visitar a Feira do Livro que decorre, uma vez mais, nos jardins do Palácio de Cristal. Com o espírito liberto e com os ponteiros do relógio desligados, deambulei vagaroso e anárquico de livreiro em livreiro, procurando novidades ou pechinchas, folheando os espécimes que me despertavam os sentidos e, principalemente, aqueles que vou cobiçando, ouvindo atento as conversas entre clientes e livreiros que iam acontecendo à minha volta e, claro está, desfrutando do espaço e do ambiente tranquilos que por lá se fazem sempre sentir. Não sei se impressão minha, mas daquilo que pude perceber da programação, está edição da Feira do Livro está mais rica e mais variada. Sempre um prazer regressar e, depois, regressar para casa com algum mimo debaixo do braço. Ainda lá irei outra e outra vez.

02 setembro 2017

21 agosto 2017

para ler

Para estes poucos dias em que vou estar como que retirado, ou seja, sem ocupação, compromissos ou afazeres, trouxe alguns livros para me entreter e passar o tempo...

o grilo difícil de encontrar

Soube da sua existência numa recensão no jornal Le Monde Diplomatique deste mês e logo tratei de o procurar nas livrarias para o adquirir. Tarefa difícil. Fui a todas as grandes livrarias e durante vários dias - Fnac, Bertrand, Book House, Almedina, Books & Living (antiga Leitura), Latina - e nada. Aliás, as indicações que me davam eram tão díspares que o resultado foi ter ficado ainda mais curioso e com vontade de o encontrar. Disseram-me, entre outros dislates, que estaria esgotado, que não existiria, ou que ainda nenhuma das suas lojas o recebera. Estranho facto: um livro da Tinta da China não chegar aos donos do monopólio das vendas de livros em Portugal...
Entretanto, lembrei-me de ligar para a UNICEPE - cooperativa livreira de estudantes do Porto, na Praça Carlos Alberto, para saber se tinham este livro e, surpresa ou nem por isso, tinham. Pedi para me reservarem um e lá fui eu, sem demora, buscá-lo. Curiosidade, não tinham um nem dois exemplares, tinham empilhados e em exposição doze destes livros. Mesmo em véspera de partir par férias consegui-o para o juntar aos demais que tenciono ler nestes dias de retiro em terras de Trás-os-Montes.

18 agosto 2017

esterco

porque só agora me apercebi disto...

O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver a possibilidade de qualquer um residir em Portugal se mantiver?
Pedro Passos Coelho, há uns dias, algures no Algarve.

grande

encontrei!

Porra! 
Não foi fácil, mas já encontrei a música que tanto procurei sem sucesso. Esqueçam o youtube, o Shazam. Não lá está. Apenas a encontrei no sítio da editora Cafetra Records. A banda ou cantor chama-se Éme e o álbum chama-se Domingo à Tarde. Fica a letra da música Roma - Sé (sétima no disco) para acompanhar o som da mesma.

Amigo, se estás triste
e o que queres não existe
traz um copo, bota em riste
e 'bora lá brindar:
Um brinde à manada
com bica na esplana,
Tuga não tem nada
mas há tanto mar.

Remar o dia inteiro,
ir dar ao Barreiro,
frota sem dinheiro
ali no Tejo a anhar,
alberga a neurinha,
traz a tua eu trago a minha,
neura assim sozinha
tem que ter um par
vem cá ter meu par
que é para seres meu par...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


E queres amor antigo
para cantares à nova
trago o meu comigo
e vai daqui à cova
puto eu tou contigo
se a vida dá-te sova.
tens amor de amigo e podes pôr à prova...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


17 agosto 2017

participar na res publica

Num tempo em que nos aproximamos das eleições autárquicas, Nelson Dias (sociólogo) escreve, no jornal Le Monde Diplomatique deste mês, um interessante artigo sobre os orçamentos participativos em Portugal. Nesta sua reflexão procura saber onde estão concentrados, qual a sua relação com a participação democrática (relação com os crescentes níveis de abstenção) e que capacidade têm os portugueses de se mobilizarem e associarem em torno de projectos concretos, assim como a sua capacidade de influenciarem o poder instituído, ou seja, o poder autárquico.
Diz-nos que foi num contexto de desaceleração do entusiasmo democrático, com uma confirmada tendência de descida dos índices de participação eleitoral, que surgiu, em Palmela, a primeira iniciativa de Orçamento Participativo(OP) em Portugal. Estávamos em 2002. A emergência e o desenvolvimento dos OP está intimamente relacionada com a quebra de confiança no regime e nos seus principais agentes políticos, assumindo-se como uma tentativa de resposta do Estado local, ainda que parcial, à necessidade de reconstruir pontes de diálogo e reaproximação com a população (...) o que, curiosamente, implicou uma actividade cívica e política mais intensa, pelo carácter anual destas práticas, e mais extensa, pelo cada vez maior número de pessoas envolvidas.
Numa análise mais profunda aos OP em Portugal, o sociólogo percebe que estes se transformaram , nalguns concelhos, nos principais barómetros para as autarquias, leia-se, presidentes e vereações, para a auscultação das sensibilidades e percepções dos seus munícipes e, assim, para o desenho das políticas públicas. Apresentando vários exemplos de OP em diferentes municípios, Nelson Dias afirma que estes instrumentos deixaram de ser mera curiosidade ou moda política. Entraram timidamente no nosso país e gradualmente instituíram-se como catalisadores de processos de mudança.
Nelson Dias termina o seu artigo num tom optimista ao afirmar que este modelo foi de tal forma apropriado pelas populações que hoje se converte num canal de interlocução directa para a discussão e definição de políticas públicas, cujos impactos sobre o território são muito superiores aos dos projectos dos próprios OP. Ao olharmos para estes nesta nova perspectiva entendemos que o seu potencial suplanta as expectativas iniciais, reforçando o seu potencial de credibilidade e, com isto, a sua sustentabilidade.
Sem querer discordar muito desta sua perspectiva optimista, eu seria um pouco mais cauteloso em relação às verdadeiras motivações e objectivos de muitos autarcas e executivos autárquicos em relação a este instrumento de participação cidadã. Digo isto, tendo em conta aquilo que é a minha experiência enquanto autarca. Se é verdade que inicialmente as autarquias desconfiavam dessas propostas, maioritariamente, apresentadas em sede de Assembleias Municipais e, nalguns (poucos) casos, de Freguesia, pelas oposições, rejeitando liminar e até jocosamente essas propostas, com o tempo e com algum esforço de conhecimento técnico, apropriaram-se desses instrumentos, passando-os a apresentar como propostas nos seus próprios manifestos programáticos e eleitorais, assim como nos seus orçamentos pluri-anuais. 
Recordo-me que em Bragança, enquanto membro da Assembleia Municipal (2005-2013) apresentei essa proposta  - a de criação de uma rubrica de Orçamento Participativo - durante vários anos e nunca foi aprovado pela maioria que governava o município que, primeiro, por ignorância, depois por receio e, por último, por despeito, ridicularizava essa ideia "comunal" e "cooperativa". Na verdade, mesmo em Bragança passou a existir um Orçamento Participativo no qual a população pode "participar" votando, no portal da autarquia, de entre um conjunto de projectos propostos pelos próprio executivo, aquele ou aqueles que gostariam que fossem concretizados. 
Concluindo, considero os OP uma excelente ferramenta naquilo que poderá ser um incremento da implicação dos munícipes no planeamento, reflexão e execução de projectos colectivos e de utilidade pública, mas também desconfio dos reais e verdadeiros propósitos dos autarcas que, por hábito e defeito da prática autárquica no nosso país, não quererão nunca abdicar do seu predicado poder de decisão e execução. Aquilo que assistimos na grande maioria dos OP existentes, salvo raras excepções, são adaptações e pequenas iniciativas que sob essa designação pomposa e pertencente às narrativas daquilo que é actualmente considerado correcto, não são mais do que instrumentos ao serviço do interesse e vontade dos executivos autárquicos e das suas clientelas, ou pura e simplesmente são verbo de encher em momentos como este, os de vésperas de eleições autárquicas.

irritante

Se há algo que me irrita seriamente são estas novas ferramentas dos aparelhos que todos nós, ou quase todos, utilizamos, que à medida que estamos a escrever o que queremos, nos vão corrigindo o texto, adulterando por completo o sentido e propósito daquilo que temos em mente. Nas mensagens de telemóvel isso é constante e eu não sei como alterar isso. Por exemplo, no Word eu tenho essa opção desactivada, mas no telefone não sei como o fazer e irrita-me a amígdala enviar mensagens sem sentido algum. Pronto, apenas isto.

11 agosto 2017

inveja

Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem. (Francisco José Viegas, aqui)

10 agosto 2017

o som que não consigo encontrar

Ando obcecado atrás de uma música portuguesa que tenho ouvido na Antena 3, mas não a tenho conseguido identificar. Como desconheço quem a canta e como se chama, tenho andado pelo youtube desesperado, mas sem qualquer sucesso, por hora (hei-de conseguir!). No entretanto, aqui ficam alguns sons em que tenho tropeçado e que, por tonalidades de ouvido diferenciadas, me agradam.





08 agosto 2017

mediascape:reutilizar, reutilizar e reutilizar os manuais escolares

A entrevista já foi publicada no dia 20 de Julho na Revista Visão, mas só hoje dei com ela, na sua versão online (ler aqui na íntegra). Falo de uma entrevista à Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, a propósito do programa de gratuitidade e reutilização dos manuais escolares que agora se põe na prática apenas para o primeiro ano do primeiro ciclo. Eu já simpatizava com esta senhora e com a sua atitude e discurso em relação às coisas da escola pública. Aqui, neste novo programa, está mais uma razão para admirar a sua posição política e cidadã.
Transcrevo partes do seu discurso:

A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita.
(...)
Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam.
(...)
De acordo com a lei, todos os manuais, sem exceção, devem ser concebidos para poderem ser reutilizados. Por exemplo, a prazo, temos de acabar com recortes, autocolantes. Sempre que for preciso escrever no manual, deve ser a lápis.
(...)
E não há qualquer relação direta entre o reaproveitamento e o aproveitamento. Pelo contrário, se ensinarmos às crianças o respeito pelo manual, a partilha, o respeito pelo outro que a seguir vai receber aquele livro, estamos a educar para a cidadania. É um avanço civilizacional e pode ser um elemento muito importante.
(...)
Portanto, o procedimento de aquisição está nas escolas desde julho do ano passado, o de reutilização desde maio. Mas admito que tudo isto seja muito novo e é preciso um período de adaptação. O sistema educativo é muito grande. Temos 811 agrupamentos, mais de três mil escolas, um milhão e trezentos mil alunos, 120 mil professores. Nós podemos informar, enviar as circulares, mas demora até se tornar rotina.
(...)
...tudo isto comporta já alguma incerteza do mercado. Incerteza com a qual os agentes económicos têm de viver. Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre.
(...)
Relativamente ao peso das mochilas, há duas soluções possíveis: deixar na sala de aula, até ao quarto ano, ou utilizar os cacifos, a partir do quinto. É uma questão de os alunos se habituarem a fazer a gestão dos livros que têm de ir para casa e os que podem ficar na escola. Outra solução será a desmaterialização dos manuais, garantindo que não vai cavar as assimetrias sociais.

Neste próximo ano lectivo, o meu filho mais novo irá frequentar o primeiro ano do ensino básico e eu, enquanto seu encarregado de educação, no momento de levantar o voucher para a aquisição gratuita dos seus livros, tive que assinar uma declaração em que me comprometia e responsabilizava pela manutenção dos manuais e pela sua devolução no final do ano lectivo. Muito bem, finalmente os livros passarão a ser propriedade das escolas e não dos alunos. Há medidas governamentais e políticas passíveis de discussão e debate, mas neste caso, se exceptuarmos o lobby da indústria dos manuais escolares, ninguém que use de senso se oporá à medida. Quanto a mim não só concordo, como a defendo. Digo mais, pecou por tardia.

25 julho 2017

sou snob?

A propósito do que poderá ser ou não a minha iliteracia, já aqui escrevi sobre aquilo que considerava ser a minha inépcia literária, naquela altura motivado pela incompetência sentida em ler Lobo Antunes. Nesse mesmo texto referi-me a Virginia Woolf, cuja leitura se me apresentava, desde a juventude, interdita. Pois bem, acabei de ler Momentos de Vida de Virginia Woolf, livro composto por cinco ensaios autobiográficos, encontrados entre os seus papeis após a sua morte, em 1941, mas apenas divulgados em 1976 e inéditos entre nós até esta edição (2017) da Ponto de Fuga. Já conseguira ler da mesma autora, num passado recente, "As Ondas" e "Flush: uma biografia" e agora estes Momentos de Vida, que nos propõem uma viagem pelas memórias e pensamentos da autora.
Com esta leitura confirmo, uma vez mais, a minha preferência pela dimensão biográfica dos escritores em detrimento das suas obras literárias. Por outras palavras, cada vez mais procuro conhecer a história de vida dos autores, sinto curiosidade pelas suas experiências de vida, independentemente de gostar ou não da sua literatura. Enquanto leitor, privilegio as polifonias sociais, familiares, psicológicas e físicas daqueles que, por diferentes razões, leio e admiro.


A determinado momento, no seu último ensaio deste livro, a autora questiona-se:
Sou snobe?
Logo depois escreve:
- O Snobe é uma criatura desmiolada e cabeça de vento tão pouco satisfeita com o seu estatuto que, com o propósito de consolidá-lo, esfrega a todo o momento um título ou uma honra na cara das outras pessoas para que estas possam acreditar, e o ajudem a acreditar, naquilo que ele mesmo, na realidade, não acredita: que ele ou ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que reconheço em mim mesma. (Virginia Woolf, 2017:238)

variações geográficas

Numa ampla sala-de-estar de um centro hospitalar público, na cidade do Porto e quase em surdina:
- Já viste estes desgraçados (profissionais de saúde)?!... Não param de um lado para o outro... trabalham horas e horas e recebem quase nada... a Fernanda disse-me que para tirar mil euros tem que trabalhar doze a catorze horas por dia... que vida! Eu lá tiro isso em duas semanas e sem me cansar muito... ainda me dizem para regressar!...

religião industrial

Na edição do mês de Julho do jornal Le Monde Diplomatique (Portugal), um texto muito interessante de Pierre Musso sobre o olhar antropológico que o Ocidente tem sobre si próprio e que remete para o processo de industrialização ocorrido a partir de 1800. Diz-nos este Professor jubilado que para que uma tal revolução industrial fosse concretizada foi preciso construir previamente uma visão do mundo partilhada e excludente de qualquer referente transcendente para celebrar a humanidade criadora e produtora. (...) Esse processo ocorre no interior da matriz cristã e estabelece as bases de uma religião secular.
Esta religião industrial ter-se-á desenvolvido no Ocidente em resultado de três momentos fracturantes, a saber:
1º - A Reforma Gregoriana, que conduz a uma primeira revolução industrial nos séculos XII e XIII, ligada à mudança do processo de trituração, com moinhos colocados ao longo dos rios a prefigurar as fábricas;
2º - O renascimento da ciência moderna e o programa de René Descartes destinado a "tornar-nos mestres e possuidores da natureza" em nome do progresso;
3º - A escolha industrialista de 1800 e a formulação simultânea de um "novo cristianismo" terrestre e científico;
Em cada um destes momentos, a industriação metamorfoseia-se e a instituição de produção que a encarna reorganiza-se: mosteiro, manufactura, fábrica e empresa. Cada uma destas instituições articula uma fé que dá sentido e uma lei que organiza uma comunidade de trabalho.
É estabelecida uma relação entre as ordens monásticas (S. Bento e S. Francisco) e seus mosteiros com a origem dessas comunidades de trabalho, argumentando-se que:
O monaquismo reconhece o "valor do trabalho" como complemento da oração e da contemplação. O trabalho representa ao mesmo tempo um instrumento de ascese, um meio de combater a ociosidade, uma actividade produtora e uma resposta à obrigação da caridade. Ainda hoje a regra de S. Bento é vista como um modelo de gestão. (...) O monge beneditino Hugues Minguet declara: "O monaquismo beneditino é sem dúvida a mais velha multinacional do mundo"...
No fim do século XI, a aceleração da circulação monetária e a multiplicação das trocas comerciais transformam a organização monástica e aí defrontam-se dois modelos: Cluny e Cister. Em Cluny vive-se na opulência, em Cister recusa-se o luxo. Nos seus mosteiros são implantadas todas as infra-estruturas da produção - rede de escoamento, moinhos, caminhos de serventia, oficinas, forja, lagar, celeiro, casa dos conversos - que fazem da abadia uma fábrica.
No século XVI ocorre uma segunda grande transformação, com a Reforma e em seguida com a revolução científica. A natureza torna-se o novo "grande Ser" que acolhe o mistério da Encarnação. Até então associada a Deus, a própria ideia de natureza modifica-se: o homem já não está "na", mas "perante" a natureza, e dedica-se a conhecê-la matematizando-a.
A terceira bifurcação da industrialização completa-se nos séculos XIX e XX, em dois momentos: por volta de 1830, com a revolução industrial, e entre 1880 e 1940 , com a revolução da gestão. A primeira formula a lei tecno-científica e a segunda fixa a lei da organização do trabalho. A fábrica-empresa liga-as solidamente. A crença num novo "grande Ser", a saber, a humanidade, reinveste o mistério da Encarnação tal como ele é instituído pelo filósofo Auguste Comte. Em 1848 o jovem Ernest Renan deseja "organizar cientificamente a humanidade..."
O criador todo-poderoso já não é um Deus supra-celeste, mas o próprio homem que se auto-realiza. Esta visão Faustiana de uma religião terrestre e racional tem por guia o progresso e a promessa de um bem-estar futuro.
(...) Depois de uma longa gestação nos claustros, a religião industrial manifesta-se de maneira fulminante por ocasião das revoluções industriais, atingindo o seu apogeu com a actual revolução digital.
Para lá da importação da novilíngua da gestão em política, o que triunfa é a religião industrial.

mediascape:ridiculum ultimatum

Ao ler as "gordas" da imprensa dou de caras com este título e com as declarações de Hugo Soares, líder da bancada do PSD na Assembleia da República, que em jeito de ameaça, fez ontem um ultimato ao governo para que apresente a lista dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande em 24 horas. Mas que raio de ameaça! Então e se o governo não satisfizer o pedido?! Qual é a grave consequência? Qual será o trunfo que a iluminária, líder parlamentar, tem para apresentar?!
Pois, como também se percebe nas suas palavras, nada ou quase. Apenas aproveitamento político de uma desgraça humana. Se houve ou não houve mais mortes do que aquelas que estão oficialmente contabilizadas não é relevante. Mais uma, duas?! Talvez. E depois? Qual é a responsabilidade do governo nessa contabilidade?
Ridículo, uma vez mais.

11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.

07 julho 2017

arrancar batatas

(fotografia roubada da internet)

Muitas vezes, enquanto criança e jovem, participei nessa actividade agrícola, normalmente um trabalho colectivo para a família, vizinhos, amigos e compadres, num esquema de torna-jeira, ajudando a apanhar da terra as batatas arrancadas a golpes de guinchas (na fotografia, utensílio visível nas mãos dos homens). Num claro exemplo daquilo que era, e ainda é, a clássica divisão do trabalho por género, aos homens competia-lhes percorrer os sulcos, alinhados e transversalmente (como também se vê na fotografia), e trazer para a superfície todos os batateiros que ficavam expostos e disponíveis para serem colhidas todas as suas batatas, numa tarefa destinada às mulheres e crianças que, logo atrás dos homens, as recolhiam num balde ou cesto e depois, quando estes cheios, vertiam-nas para sacas que iam ficando espalhadas pelo terreno. Para além da força e resistência necessárias para trabalhar com as guinchas, importava também não estragar as batatas, ou seja, escolher bem o sítio onde se golpeava a terra para não acertar em nenhuma - na terminologia local, para não enrilhar as batatas.
Pois bem, só hoje e já homem já mais do que adulto, é que tive o privilégio de usar umas guinchas e, por incrível que possa ter sido, não enrilhei nem uma batata. Alguém deveria ter registado esse longo momento, mas infelizmente tal não aconteceu.

06 julho 2017

a solução passaria por aqui...


Lamentavelmente foi rejeitada pela Assembleia da República com as abstenções do PSD e CDS e voto contra do PS.

gostei e por isso partilho


" Quatro anos "


Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.
A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.

28 junho 2017

ar pouco estival

Da janela deste quarto de hotel, onde estou de passagem, vislumbro a paisagem campestre que se estende ao longo de um vale encaixado e de tonalidades bem verdes. Perto da janela, dois plátanos maduros e frondosos fazem-me perceber o vento que os agita, teimoso a temperar o ambiente e a impedir que o calor estival se instalar definitivamente. Ainda há pouco, depois de almoço, quando subia de elevador, duas senhoras comentavam que hoje não era preciso ir apanhar ar. Ele já se tinha instalado em todo o lado.

26 junho 2017

mediascape:vergonha alheia

Num só dia, hoje, Pedro Passos Coelho, na sua missa de corpo presente (por ordem cronológica):

a) "Tenho conhecimento de vitimas indirectas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero". (Pedro Passos Coelho);

b) "Fui eu que dei ao Dr. Passos Coelho uma informação errada". (João Marques, candidato PSD Pedrogão Grande);

c) "Sinceramente peço desculpa por ter usado um dado não confirmado. Não devia ter utilizado essa informação". (Pedro Passos Coelho);

Não restam dúvidas, Pedro Passos Coelho é um cadáver político. E não me venham dizer que ele não sabe disso, que não está consciente da nulidade da sua posição!

a inevitabilidade e o estigma

Talvez seja apenas uma mera coincidência; Talvez apenas um azar; Quiçá, uma simples impressão, mas a verdade é que ser cliente dos CTT e frequentar as suas lojas e balcões transformou-se numa actividade irritantemente demorada e fastidiosa. Os dois ou três balcões de correios que frequentemente visito, salvo uma ou outra vez, estão sempre cheias de gente, o serviço é lento e os balcões, apesar de vários funcionários presentes e a circular de um lado para o outro, não estão a atender os clientes. Muitas vezes apenas um funcionário e um balcão a atender...
Aqui está um bom exemplo da inevitabilidade da privatização de um serviço outrora público, pois o estigma histórico e enraizado de tudo quanto era e é do Estado, era e é mal gerido, assim como o estigma perpétuo dos funcionários públicos e do seu absentismo, resultou nisto e mede-se agora pela qualidade do serviço prestado aos clientes, por uma gestão séria e rigorosa. Aqui, como em tantos outros casos, o serviço público é preterido por rádios de produtividade e variação percentual de lucros, ou seja, tudo aquilo que realmente interessa a essa casta iluminada, privilegiada e minoritária das elites económicas e financeiras.
Este exercício só foi possível porque primeiro, frequento e utilizo regularmente os serviços e os espaços CTT e, segundo, porque tenho memória e faço questão de me servir dela, assídua e convenientemente.

a des-cafeínar

Sentado à sombra e ao sabor de uma bem fresca brisa, proporcionada por um condicionado ar, tomo a dose de cafeína digestiva, enquanto penso sobre este nosso velho hábito do café expresso. Isto, porque constato que, nos últimos tempos, talvez meses, talvez já anos, esse hábito de prazer se transformou, acima de tudo, num hábito de necessidade. É verdade que estou, há longos anos, adicionado a esta substância excitadora dos sentidos e do cérebro, mas com o tempo fui perdendo o gosto pela bebida e muitos são os dias em que não tomo nenhuma dose, apercebendo-me da sua falta apenas quando se instala uma dor de cabeça, normalmente, ao final da tarde...
Agora, o ritual do café faz-se acompanhar com água, engarrafada ou da torneira, tanto me faz, sempre com o propósito de lavar a boca do sabor do café. Apesar disto, ir tomar café, estar a tomar café, ou ter ido tomar café, continua a ser um rito necessário para o equilíbrio de todo o organismo, principalmente, da mente e de seus humores.

gato morto, uma vez mais...

mediascape:patologias da democracia

Na edição de Junho do jornal Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), Evelybe Pieiller escreve um interessante e curioso artigo sobre os limites e as derivas das democracias, tal como as conhecemos na actualidade - "de um ideal, um progresso, uma conquista (...) a uma impossibilidade". Pondo em cheque a noção de soberania, a da nação e a do povo, a perda de confiança dos cidadãos e a imposição de poderes supranacionais como a União Europeia, cita Marcel Gauchet, que afirma: "nas nossas sociedades, a democracia já é apenas uma palavra, uma noção fantoche que dissimula, designadamente, o poder efectivo, exorbitante do complexo económico-financeiro". Um outro pensador citado, Alain Badiou, afirma que "a democracia está sempre ligada e enfeudada ao capital".
A nação já não é portadora da vontade geral, mas de um agregado de desejos particulares: o que pode corresponder a uma memorização, senão mesmo a uma perversão das lutas colectivas que ainda é preciso vencer para concretizar as promessas da democracia, em particular a igualdade, um dos nomes da emancipação. Apresentando um conjunto de abordagens múltiplas, a autora apresenta ainda o Comité Invisible, que saúda, na fragmentação em todos os domínios do nosso mundo, uma aspiração inaugural da "restituição a si próprias de todas as singularidades e a derrota dada à subsunção, à abstracção". Este Comité postula o seguinte: "Não há eu e o mundo, eu e os outros, há eu com os meus, neste pequeno pedaço do mundo que eu amo, irredutivelmente". Isto porque "a experiência vivida, fundamental, imemorial é a da comunidade". Malditos sejam, portanto, os engodos mortíferos intrínsecos à democracia, à nação, à humanidade, ou mesmo às divisões de classe...
São apresentadas duas razões principais para a crise democrática: as limitações impostas à soberania nacional (e a impotência do político); e a erosão de alguns valores que a fundam (e a suspeição em relação ao próprio sistema). Uma boa parte do povo já não se reconhece nos seus representantes habituais, os da moderação, e escolhem-se outsiders, alguns dos quais parecem perigosamente anti-democratas.
À questão: Por que motivo se esquece o povo de votar ou vota tão mal? A autora refere que esse fenómeno recebe explicações diversas, como, por exemplo, a de Ivan Krastev que diz: "os progressos das liberdades individuais e a difusão dos direitos humanos foram acompanhados por um declínio do poder do cidadão de mudar, pelo voto, não apenas de governo, mas também de orientação política". Uma outra ideia é a de que a dissolução das oposições essenciais entre a esquerda e a direita vai conduzir a que seja cada vez mais difícil diferenciá-las, portanto, para quê escolher entre elas? Nancy Fraser responde que a componente determinante do problema é que "o Liberalismo e o Fascismo constituem as duas vertentes profundamente interligadas do sistema mundial capitalista".
Como fazer então para que o povo de sinta representado? Como devolver ao povo a sua soberania?
É aqui que o pensamento dos ensaístas se torna, por vezes, surpreendente...
A filósofa Chantal Mouffe coloca a questão da necessidade de "construir um nós e um eles", de forma a conduzir um combate pela verdadeira concretização dos princípios ético-políticos da democracia liberal, porque "hoje, tudo o que se relaciona com a democracia entendida como igualdade e como soberania popular foi afastado pela hegemonia do liberalismo". Portanto, para derrubar estas relações de poder e dar uma representação autêntica ao "descontentamento órfão" dos cidadãos, importaria trabalhar na criação de um espaço público agonístico, isto é, conceitual, onde se exprimem os diferentes, os antagonismos e o desacordo, num quadro compatível com o pluralismo democrático. Para federar eficazmente os descontentamentos e as lutas contra as diversas subordinações, para além das clivagens esquerda-direita, torna-se indispensável a elaboração de um "arsenal simbólico" que contribuirá para envolver grupos sociais. Trata-se, portanto, não de acabar com a democracia representativa, mas de a radicalizar.
É com uma estratégia clara de "populismo de esquerda", alimentada, entre outras coisas, por batalhas culturais, que Chantal Mouffe propõe uma revitalização da representação democrática. Sendo que o mais notável nesta reflexão seja a importância dada aos "afectos". É que a teoria moderna da democracia associou-a durante muito tempo ao exercício da razão e seria, segundo esta autora, "incapaz de reconhecer que as paixões são a principal força motriz da política". Para construir uma distinção nós/eles progressista, seria necessário um discurso que apresentasse "identidades que dão sentido" a esta distinção. O acento tónico colocado sobre as "paixões", sujeito a variações múltiplas... o povo, os cidadãos, são frequentemente considerados como submetidos às suas emoções, particularmente quando vota fora das escolhas toleráveis. Como diz o jornalista David Van Reybrouck, "votar sobre uma questão precisa, que bem poucas pessoas realmente compreendem , quase só pode ter resultados desastrosos". Seria melhor, portanto, "designar ao acaso um pequeno número de pessoas, assegurando que elas dominam suficientemente as questões com as quais se vão confrontar e que estão em condições de tomar medidas sensatas"...
Mais do que pelas emoções e pelas insuficiências dos cidadãos, não é proibido pensar que as perversões actuais da democracia tal como a conhecemos são engendradas por um neoliberalismo notavelmente inventivo, que há muito tempo soube tornar desejáveis os seus valores e as suas soluções.