26 setembro 2016

mein kampf


Nos últimos dias de descanso deste Verão, dei comigo sem ter nada para ler. Esgotado o stock de livros levados para esses dias de remanso, socorri-me da pequena biblioteca que meu pai vai construindo na casa da aldeia e dei com os olhos nesta nova edição da Guerra & Paz do famoso livro de Adolf Hitler.
Na verdade, apesar de saber há muitos anos da sua existência e do estigma que sempre possuiu, nunca foi personagem ou assunto que me tenha despertado qualquer tipo de interesse ou sequer curiosidade. Contudo, nesse dia ao folhea-lo pensei que talvez já fosse tempo de, pelo menos, tentar lê-lo.
Foi o que fiz ao longo deste último mês, nas horas vagas e mentalmente disponíveis, pois a sua leitura obriga a alguma concentração e atenção. A este propósito dizer que esta edição tem uma letra pequena e muito texto por página, o que complica ainda mais a sua leitura. Apesar de possuir uma capa dura e visualmente ser bonito, não gostei do livro (objecto). Tal como percebi logo nas primeiras páginas, o melhor mesmo foi fazer uma ficha de leitura da obra, o que me facilitou a sua compreensão, mas atrasou a leitura. Nessa ficha de leitura fui coleccionando inúmeras passagens que, aos meus olhos, são significativas daquilo que é a própria obra, daquilo que foi a consequência prática do nacional-socialismo, assim como daquilo que me permitiu fazer um juízo, em jeito de recensão, do pensamento político de seu autor. Eis algumas passagens...

Só conhecendo os judeus, se pode compreender os propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. (p.137)

Com o decorrer dos séculos, o aspecto do Judeu havia-se europeizado e ele tornara-se parecido com um ser humano. (p.137)

Acredito agora que ajo de acordo com a vontade do Criador Omnipotente lutando contra o judaísmo, realizo a obra de Deus. (p.144)

Não se deve esquecer nunca que o mais elevado fim da existência humana não é a conservação de um Estado ou de um governo, mas o de conservar o seu carácter racial. (p.159)

Se na luta pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, isso significa que ela pesou muito pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutar pela vida tem o seu fim decretado pela Providência. (p.159)

O mundo não foi feito para povos covardes. (p.159)

O pecado contra o sangue e a raça é o pecado original deste mundo e o fim da humanidade que o comete. (p.239)

O judaísmo nunca foi uma religião e sim sempre um povo com características raciais bem definidas. (p.269)

Do ponto de vista ariano, é impossível imaginar-se, de qualquer maneira, uma religião sem a convicção da vida depois da morte. Em verdade, o Talmude também não é um livro de preparação para o outro mundo, mas sim para uma vida presente voa, suportável e prática. (p.269)

Os judeus foram responsáveis por trazer negros para o Reno, com o intuito final de abastardar a raça branca, por eles odiada, e assim diminuir o seu nível cultural e político, para que o judeu pudesse dominar.  (p.279)

A força motriz dos grandes avanços, em todos os tempos, não foi o conhecimento científico das grandes massas, mas sim um fanatismo entusiasmado e, às vezes, uma onda histérica que os impulsionava. (p.285)

O novo movimento é, na sua essência e na sua organização, anti-parlamentarista, isto é, rejeita, em princípio, qualquer teoria baseada na maioria de votos, que implique a ideia de que o líder do movimento se degrada à posição de cumprir as ordens dos outros. Nas pequenas como nas grandes coisas, o movimento baseia-se no princípio da indiscutível autoridade do chefe, combinada com uma responsabilidade integral. (p.288)

A concepção racista não admite, em absoluto, a igualdade das raças e sente-se no dever de promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos. (p.308)

Não pode aprovar a ideia ética do direito à existência, se essa ideia representa um perigo para a vida racial dos portadores de uma ética superior.(p.308)

Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a religião. (p.309)

Não passara pela ideia de ninguém que essa piolheira judaica, que, no Oriente, fala o alemão, só por isso deve ser vista como de ascendência alemã, como pertencente ao povo alemão. (p.312)

A condição essencial para a formação de uma humanidade superior não é o Estado, mas a raça. (p.313)

A paz do mundo não se mantém com as lágrimas de carpideiras pacifistas, mas pela espada vitoriosa de um povo dominador que põe o mundo ao serviço de uma alta cultura. (p.315)

Deve-se providenciar para que só pais sadios possam ter filhos. Só há uma coisa vergonhosa: é que pessoas doentes ou com certos defeitos possam procriar, e deve ser considerada uma grande honra impedir que isso aconteça. (p.319)

A rapariga deve conhecer o seu cavalheiro. Se a beleza física não se ocultasse hoje, completamente, sob as vestes da moda idiota, a sedução de centenas de milhares de moças, por judeus bastardos, de pernas tortas e desengonçados, não seria possível. Está também no interesse da Nação que se chegue à formação de corpos perfeitos, a fim de se criar um novo ideal de beleza. (p.323)

A missão de um Estado nacionalista é a de se esforçar para que seja escrita uma história do mundo em que a questão racial seja o problema dominante. (p.328)

O Estado nacionalista racista deve resumir o ensino intelectual, reduzindo-o ao que é essencial. Só depois disso é que se oferecerá a possibilidade de uma educação especializada, sobre bases sólidas. (p.328)

A educação deve ser orientada de tal modo que um jovem, ao deixar a escola, não seja um pacifista democrata ou coisa que o valha, mas um verdadeiro a alemão, na mais ampla acepção da palavra. (p.330)

Realizações criadoras só podem surgir quando se dá a aliança do saber com a capacidade. (p.331)

Deve partir do princípio de que a prosperidade do género humano nunca é devida às massas, mas às cabeças criadoras, que, por isso, devem ser vistas como benfeitoras da espécie. (p.340)

Todas as grandes modificações históricas foram devidas à palavra falada e não à escrita. (p.356)

A força vital de um povo, o seu direito à vida manifestam-se da maneira mais impressionante, no momento em que esse povo recebe a graça de um homem que o destino reservou para a realização das suas aspirações, isto é, para a libertação de um grande cativeiro, para a supressão de amargas dificuldades. (p.374)

Não devemos ter a mínima dúvida de que o inimigo mortal , inexorável, do povo alemão é e será sempre a França. (p.432)

O judeu é hoje em dia o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são da autoria de judeus. (p.434)

...os defensores da ditadura universal judaica... (p.441)

Seja qual for o destino que o céu nos reserve, hão-de reconhecer-nos pelo nosso altivo programa. (p.456)

Entre outras passagens mais extensas e mais complexas, este livro condensa em si todo o pensamento desse homem que depois veio a ser o responsável máximo pelo holocausto. A história está escrita e não adianta querer reescrevê-la. Não haverá nunca espaço para qualquer epifania ad hoc e qualquer tentativa nesse sentido será sempre num modo self-service e sem futuro. Este não é um livro de ódio, como tantas vezes foi e é nomeado, ou pelo menos, não é um livro apenas de ódio, pois para quem o conhece e leu, são vários os sentimentos que nele se encontram, tais como a xenofobia, o racismo, a soberba, a ignomínia, o ego e o etno-centrismo, a inveja, o narcisismo e a eugenia. Enfim, um livro de horrores.
A sua leitura permite também perceber a debilidade autoral, pois não é preciso ser um conhecedor ou um estudioso para encontrar alguns erros históricos e uma propensão para a análise superficial e para o julgamento ou valorização rápida.
Apesar de tudo e com o estigma ou com o carisma, dependendo do ponto de vista, do seu autor, percebe-se a transformação deste livro num objecto de culto, veneração e admiração, ou por outro lado, num objecto maldito e interdito.
No fim fica a profunda convicção que tudo aqui vertido é o resultado de uma mente doente, de um indivíduo com um enorme complexo de inferioridade e com uma imensa inveja da cultura judaica e do indivíduo judeu.

25 setembro 2016

finais de Verão, prefácios de Outono

lavagem de roupa suja

Depois de vários dias a ser notícia, a ser excomungado e vilipendiado, depois de vários opinadores da nossa praça terem dito e escrito tudo e mais alguma coisa sobre o novo livro de José António Saraiva, hoje fui surpreendido com uma cópia em pdf desse mesmo livro, que me chegou via email de um amigo, com o seguinte aviso: "evitar lucros". A minha primeira atitude, como que instintiva, foi eliminar o email, mas depois, reflectindo um pouco, fui recupera-lo ao caixote do lixo do gmail. Não sei se o vou ler ou não, mas em todo o caso, parece-me estúpido corroborar toda a crítica já produzida sem sequer saber do que se trata. Está devidamente guardado no computador, numa pasta chamada "leituras adiadas" para um dia destes, talvez, ser lido.

reflectir sobre territórios rurais

Nesta semana que passou, talvez 4ª ou 5ª feira, João Ferrão em entrevista ao Jornal de Notícias, reflecte sobre os territórios do interior do nosso país e, em particular, sobre as regiões do Norte de Portugal. Uma reflexão que importa trazer para a agenda política e que urge solucionar...

13 setembro 2016

história ou historicismo

No passado Sábado, dia 10 de Setembro, Pacheco Pereira na sua crónica semanal no jornal Público escreveu sobre a noção do Tempo e as diferentes perspectivas políticas desse factor como regulador de regimes e estados, assim como sobre o uso e o abuso do historicismo como fundamento e justificação para a imposição de austeridades e ajustamentos no presente, ou seja, o frequente hábito de ir ao tempo passado, seleccionar determinados momentos ou episódios e realizar um paralelismo entre esse pretérito e a situação experimentada no presente. Um erro e uma deturpação, considera Pacheco Pereira e eu não podia estar mais de acordo. Aliás, sempre me fez muita confusão a permanente necessidade de justificar, por exemplo, a crise que vivemos nos últimos anos, à luz da crise de 1929; ou estabelecer um paralelismo entre o tempo da geringonçae o tempo do PREC; Não faz qualquer sentido, nem histórico, nem social, nem económico, pois a montante de cada um desses momentos estiveram causas distintas, contextos diversos. Uma coisa é conhecer a História e saber interpretar os seus factos à luz de uma determinada época, outra é rasgar o Tempo e, sem critério e em modo self-service, trazer para o presente tudo e mais. Regressando ao texto de Pacheco Pereira, ele escreve: O tempo do Senhor D. João VI, do conselheiro Luciano de Castro, de D. Carlos, de Afonso Costa, de Salazar, de Delgado, de Marcelo Caetano, do 25 de Abril, de Otelo, de Mário Soares, mesmo já de Sócrates, não é o nosso tempo e é preciso muito cuidado para os paralelismos, a não ser como boas metáforas.
Mas o seu texto diz muito mais e é um excelente documento para a desconstrução dos paradigmas inventados e impostos nos últimos tempos em Portugal e na Europa. Por esta razão, incluo o texto na íntegra para que o possam ler e, quem sabe, para que possam aprender alguma coisa.

12 setembro 2016

mediascape: extermínio das praxes

Foi notícia na última semana, mas a mim passou-me despercebida e só agora a conheci, que Manuel Heitor, actual ministro do ensino superior, enviou carta às instituições de ensino superior exortando-as a não reconhecerem as comissões de praxes e outros órgãos que as regulam e propondo um outro modelo de recepção para os novos alunos.
Finalmente, alguém responsável e com o poder executivo nessa tutela tem a coragem de ir mais além do que a mera condenação das praxes. Que este possa ser o primeiro momento da decapitação de tal aberração que são os rituais das praxes académicas nas nossas universidades, escolas e institutos superiores.

10 setembro 2016

partilhar uma pequena satisfação

Pela primeira vez e desde hoje tenho livros da minha autoria à venda na Feira do Livro do Porto. No stand nº 68 daTraga-Mundos - livros e vinhos, coisas e loisas do Douro Património Mundial, livraria do amigo António Alberto Alves. Pronto, era só isto. Obrigado.

08 setembro 2016

bonita avenida das tílias

É sempre com enorme prazer que visito a Feira do Livro do Porto, mas desde que ela se mudou para a Avenida das Tílias, nos jardins do Palácio de Cristal, esse prazer é acompanhado por uma tranquilidade que nos envolve e nos obriga a demorar. A organização deste evento não teria encontrado na cidade do Porto outro lugar tão excepcional para esta realização.
Decidi visitar a Feira ontem porque me pareceu que o dia, mais fresco, era propício para poder andar para trás e para a frente entre livros. Assim foi, acompanhado pela filha e sem qualquer pressa, stress ou confusão, pude visitar cada um dos cerca de 130 expositores e conversar com alguns deles. Claro que há sempre muito e variado para se comprar, mas os meus olhos recaem sempre para os alfarrabistas que lá vão e que têm sempre tanta coisa que eu gostava de trazer para casa.
Ainda que não tenha regressado de mãos a abanar, nem, por outro lado, carregado de livros, trouxe estes cinco que em baixo as capas reproduzo. Para o ano haverá mais.

31 agosto 2016

mediascape: privado falido

Enquanto vou assistindo ao processo de destituição de Dilma Rousseff no Brasil, faço zapping e apanho as notícias das 18 horas e uma peça sobre um colégio ou escola privada - Arcorensis, cooperativa de ensino, em Vila Praia de Âncora, que tendo vivido às custas dos contratos com o ministério da educação, vai encerrar as portas por falta de financiamento e já não abre neste início de ano lectivo, o que deixou surpresa em toda a comunidade escolar local.
Excelente exemplo daquilo que estava errado no antigo modelo de atribuição de subsídios do Estado, pois bastou este fechar a torneira para o dito colégio privado pura e simplesmente fechar as portas, ou seja, era totalmente dependente do financiamento público. São casos como este paradigmáticos do rentável negócio do ensino em Portugal e que importa denunciar por todo o país. Nunca esteve em causa a existência de oferta privada no ensino, mas sim todas as situações de fraude e de total subsídio dependência.
Agora no ensino, num futuro próximo na saúde. Assim seja.

mediascape: impeachment brasileiro

Fui acompanhando à distância o processo de destituição da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ao longo dos últimos meses. Agora que o processo chegou ao fim e o Senado está a votar a destituição definitiva e o impedimento de ocupar cargos de eleição durante oito anos, acompanho, através da Globo News, essas votações e seus debates. Dilma foi condenada e perdeu o mandato com uma votação de 61 votos a favor e 20 contra. Está consumado o golpe. Sim, trata-se de um autêntico golpe de estado. É inacreditável como, sob um discurso e um ritual que obedece às regras e aos princípios democráticos e republicanos, um bando de corruptos e criminosos engravatados derrubam uma Presidente honesta e democraticamente eleita. Ouvir os senadores brasileiros que, sem vergonha e curvados pelo peso de tantos indícios de fraudes e crimes, se permitem ajuizar a presidência da República, é perturbador e demonstrativo da podridão ética e moral que atravessa a elite política brasileira. Lamento muito. Um país com as potencialidades do Brasil não consegue libertar-se das amarras e dos estigmas do terceiro mundo, ao qual parece estar destinado a pertencer eternamente.

12 agosto 2016

a falta que me faz

Nas horas que antecedem a partida para aquilo que toda a gente denomina de férias e que para mim, espero, possam ser horas, dias e semanas de algum descanso, leituras e algum trabalho de campo, ocorre-me a falta que sinto do café Lexinho. Há dois, talvez três anos a família resolveu fechar definitivamente a antiga taberna, agora café, deixando-me órfão de lugar para estar e socializar na pequena aldeia, que apesar de não me ter visto nascer, é a ela que eu me sinto pertencer.
O Lexinho, alcunha do seu proprietário, o Sr. Mário dos Santos, entretanto falecido, era uma personagem peculiar, reconhecido negociante e conhecido por toda a região. Amigo do seu amigo, era um conversador nato e contador de histórias inacreditáveis e caricatas. Quando o recordo lamento não ter conversado mais com ele, não ter aproveitado a sua fantástica memória e sabedoria. Enfim.
A taberna para onde eu diariamente ia, onde eu estava e onde toda a gente me conhecia, era o meu lugar em Vila Boa no Verão, no Natal, Carnaval e Páscoa, assim como em muitos fins-de-semana. Mais tarde, por razões maiores, só a espaços ia à aldeia, mas foi lá que passei as melhores tardes de Domingo, à conversa ou, de preferência, a jogar à Blota - jogo de cartas importado há muitas décadas e adaptado pelos locais, jogado com baralhos de cartas espanholas. Recordo também os finais de tarde em que regressando da escola de Vinhais onde leccionava, me sentava na sua pequena esplanada a beber cerveja e a contemplar o horizonte a poente e a conversar com os poucos que apareciam ou passavam.
Agora só pontualmente vou à aldeia e para além de visitar um ou outro familiar, recolho-me em casa e por lá fico nas brincadeiras com os miúdos ou nas minhas actividades de sempre. Com tristeza a aldeia perde centralidade na minha vida e essa nostalgia que me acompanha, relembra-me sempre como o tempo passa célere e como as referências, apesar de todas as distâncias, se mantêm. Faz-me muita falta esse lugar.

10 agosto 2016

mediascape: país que arde e toda a gente vê

Anda o país a arder e estamos todos muito preocupados com a situação. Vivemos nos últimos dias sob um céu de fumo que se vai estendendo por todo o país. As imagens desses incêndios são sempre impressionantes, mas aquelas que ontem, e ainda hoje, nos chegam da Madeira são dantescas e aflitivas. Como é possível?
Bem sei que em tempo de guerra não devemos desviar a atenção que deve e tem que estar toda concentrada no combate aos fogos e na salvaguarda das vidas humanas e dos seus bens, mas na verdade não podemos deixar de questionar: Como é possível?
Sabemos todos, sabe o Estado e suas instituições, sabem as corporações de bombeiros, sabe o Governo e seus elementos que este é um fenómeno cíclico e que, por estes meses, todos os anos, aqui, ali ou acolá estas coisas acontecem. Portanto, o país deveria estar equipado e preparado para dar resposta a estas situações.
Depois, temos a questão da floresta e aí não basta ao Primeiro Ministro dizer que temos que requalificar a nossa floresta. Para além de ser uma verdade, não é em tempo de crise que se fazem afirmações dessas, pois não passam de um mero recurso discursivo do politicamente correcto. O ordenamento do território, a gestão dos recursos florestais, a selecção das espécies de árvores e da flora são assuntos que requerem planeamento, tempo e muito dinheiro. Algo que já deveria estar feito há muito tempo e continua por fazer. Para além disto, o cadastro das propriedades e a sua limpeza é outra das premissas a ter em conta nesta requalificação, pois em cada imagem que nos chega dos cenários a arder, podemos identificar circunstâncias e caracteres altamente inflamáveis e pasto para as chamas dentro das localidades e à volta de cada habitação. Como é possível?
Os incêndios e os fogos são uma indústria forte em Portugal (assim como, provavelmente, noutros países), e que sempre funcionou e foi gerido de uma forma obscura. Os negócios que se fazem, os valores que se envolvem e as pessoas que com isso lucram, é tudo desconhecido dos portugueses, pois esses cartéis vivem sob o lema do voluntariado dos bombeiros e da simpatia do povo para com os seus heróis que, muitas vezes, dão a vida nessa luta. É por isto, também, que me revoltam as campanhas de solidariedade que surgem sempre nestes momentos, com peditórios de água, leite e alimentos para os bombeiros. Caramba, o Estado nem isso consegue fornecer às corporações? Como é possível?
Mais duas questões: porquê é que os fogos continuam a ser combatidos por "voluntários" e não por profissionais? e, porque é que não se podem utilizar meios aéreos no combate às chamas durante a noite?
No fim, sou e estou solidário com todos os homens e mulheres que dão o corpo ao manifesto e enfrentam a besta do fogo; estou e sou solidário para com todos aqueles que perdem os seus familiares e os seus bens.

08 agosto 2016

rotas e gastas, que raio de moda

Não consigo perceber o sentido estético ou a beleza que as pessoas, nomeadamente as mulheres, encontram nas calças rasgadas ao longo das pernas. Ainda mais me custa perceber como é que elas conseguem gastar euros, por vezes muitos, a comprar calças já rasgadas. Claro que nada tenho com isso e cada um faz o que quer com o dinheiro e cada um tem o seu gosto e sentido estético, mas a confusão no meu cérebro é real e justificada pela memória que teima em recordar-me o conceito de roupa nova, ou se preferirem, a ideia de comprar roupa nova. Não é birra de idade adulta ou má vontade, é mesmo uma questão de racionalidade e de bom senso.
Não será preciso recuar muitos anos ou décadas para encontrarmos aquilo que acontecia com a maioria da roupa e o cuidado que ela merecia por parte de quem a vestia ou comprava. Comprar ou usar roupa nova significava usar peças impecavelmente bem feitas, sem qualquer defeito e com garantia. Aos olhos desse tempo, as peças de hoje têm todas defeito e não são passíveis de qualquer garantia por parte dos fabricantes, pois já estão acabadas, rotas, descosidas e afins. É a perversão completa dessa ideia. Por outro lado, essa mesma memória leva-me até ao tempo em que as nossas mães e avós, viviam agarradas à linha e agulhas ou à máquina de costura para coser e recoser a roupa, para fazer remendos, para tentar dar longevidade às peças que teimavam em desgastar-se.
Esta questão ganhou relevância na minha vida a partir do momento em que a adolescente que lá tenho em casa começou a olhar para essas calças e a dizer que também gostava de ter calças assim. Claro que não, disse eu. Nem pensar em gastar dinheiro em calças já gastas e todas cortadas. Não faz sentido e fere-me a memória. Uma coisa são as calças que naturalmente se vão gastando e depois poderão ser utilizadas para mostrar pedaços das pernas, outra coisa é investir em roupa rota e gasta.
Não e não.


sempre, sempre, a luta

Justiça seja feita ao Jornal Público que não esquece a questão do Acordo Ortográfico e mantém a luta pela defesa da língua portuguesa. Este artigo é do dia de ontem, dia 7 de Agosto.