12 janeiro 2017

um estranho

Há cerca de um mês que a minha criança tem vindo a manifestar um comportamento estranho quando está em casa, não querendo que estejamos todos juntos numa mesma divisão da casa, obrigando-nos a estar em espaços diferentes durante o jantar, enquanto brinca e mesmo quando vai dormir. Esse comportamento só se manifesta em casa (nossa ou dos avós) e tem estrangalhado os nervos aos pais e demais familiares, assim como tem rebentado com qualquer tentativa de estarmos em família. Ainda que as consultas com os especialistas estejam já marcadas, a estratégia tem sido tentar perceber o que se passa e procurar devolver-lhe a paz e a tranquilidade no espaço que deveria ser, por excelência, seguro e calmo. Está nos livros que as crianças passam em idades distintas por períodos de maior melindre. Dizem que os cinco anos é uma dessas idades de medos variados, nomeadamente, da morte. Eu e a mãe lá vamos fazendo perguntas sobre os receios que o sobressaltam, mas ele não tem colaborado, até que hoje, quando a mãe lhe pediu para desenhar a causa do seu medo, ele desenhou este boneco, dizendo que tem medo que este estranho entre em casa...

10 janeiro 2017

reza por mim

- Reza por mim Luís Miguel.
Foram estas as últimas palavras que lhe ouvi, deitado no seu leito e consciente do que o esperava. Com a vida a fugir-lhe e numa agonia sofrida, nada mais me disse. Guardei desse derradeiro momento o seu olhar, negro e profundo, mas ao mesmo tempo vago, a caminho de um vazio eterno. Aproximei-me e, debruçando-me sobre ele, despedi-me com um beijo no rosto. Nada mais disse.
Esse Natal, recordo, foi particularmente frio, o que nos obrigava a permanecer dentro de casa e por bem perto do lume. Em casa o ambiente, como seria expectável, era taciturno, ao contrário da agitação, ruído e confusão que, normalmente, acompanhavam os dias de férias e de descanso. O silêncio, apenas entrecortado pelas dores de meu avô, reinava. A única agitação que se fazia sentir era a dos filhos e filhas que, tentando acudir ao pai, se revezavam nas vigílias às horas todas de cada dia. Estranhamente, não consigo localizar a minha avó por esses dias...
Entretanto, o regresso ao Porto e às rotinas quotidianas, no início de Janeiro, impuseram um relativo distanciamento daquela situação terminal, mas não foram precisos muitos dias até sermos confrontados com a notícia da sua morte. O meu avô João morreu assim, ladeado pelos filhos, neste dia dez de Janeiro, faz hoje vinte anos.

09 janeiro 2017

perspectiva de Appadurai

Por manifesta falta de tempo, aproveitei os dias de descanso do final do ano passado para actualizar grandes e pequenas leituras que se foram acumulando ao longo dos últimos tempos. Uma delas foi a entrevista do antropólogo cultural Arjun Appadurai ao P2 do Jornal Público, realizada por Alexandra Prado Coelho, no dia 18 de Dezembro de 2016.
Tendo estado recentemente em Portugal, orador convidado para as comemorações do 25º aniversário da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, Appadurai, nascido na Índia e a viver nos EUA, onde lecciona Media, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova Iorque, falou acerca da sua perspectiva sobre a actualidade mundial e, em particular, norte americana.
Sobre a vitória de Donald Trump nas últimas eleições este antropólogo refere que existiu um hiato entre a passagem de ridículo a real, que foi rápido, e a capacidade de análise e interpretação que não foi assim tão rápida. Para além do choque inicial, há que perceber o que se passou, entender a coligação de muita gente diferente que se criou em torno de Trump... éuma coligação da maioria branca que ultrapassa as divisões de classe e, de certa forma, até de género. Coligação de gente ressentida, desapontada e zangada com as políticas de Obama e cépticas em relação ao liberalismo. Para além disto, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente do país.
O grande mérito de Trump, diz Appadurai, foi conseguir ligar duas mensagens bem distintas: a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América, o que resultou em algo do género, vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.
Outro problema identificado por Appadurai foi o desconhecimento por parte dos média e do universo mediático e académico da América profunda, dando o exemplo dos media tradicionais que são mais liberais, assim como muitas das pessoas que marcam o debate público e que estão protegidos desse mundo real e desses sentimentos da população; outro exemplo dado é o das universidades, onde pouco se sabe sobre a vida religiosa dos cidadãos norte-americanos e quando 80% destes são profundamente religiosos. Mas este pensador ainda identificou outro problema, que foi a tendência que existe para muita gente associar os liberais com uma ideia de elite e não uma ideia de massas. Diz Appadurai: o liberalismo não pode ser apenas uma posição por defeito. Tem de ter uma qualidade que se assemelhe ao espírito revolucionário em França.
Em relação a Bernie Sanders afirma que havia aí um verdadeiro potencial e que a verdade é que nos EUA existe uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista, pois esta palavra está demasiado próxima do comunismo... Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.
Por falar em verdade, quando questionado sobre a "pós-verdade", Appadurai refuta a ideia actualmente criada de que se vive num mundo da "pós-verdade", em que tudo se tornou imagem, opinião e perspectiva e tudo não passa de uma batalha de imagens, preferindo ser mais insidioso, ao afirmar que as más notícias estão sempre a empurrar as boas. As más movem-se mais rapidamente.Levanta a questão de como podem as visões liberais, de inclusão, de não violência, ganhar alguma força, face ao desafio retórico sobre como usar os meios de comunicação de massas para mobilizar o sentimento liberal.
Há um padrão global que avança para um mundo mais populista, afirma o autor, reforçando esta ideia com alguns exemplos de líderes de países importantes que têm exercido o seu poder de forma autoritária e populista, tais como na Rússia, na Turquia, na Hungria, nas Filipinas e agora nos EUA. Isto é tanto mais importante quando as questões das soberanias nacionais se deslocou da economia para as questões da identidade e da cultura nacional. Para estes líderes populistas que querem controlar o Estado é muito mais fácil dizer que o jogo está no debate sobre a censura, comportamentos sexuais, direitos das mulheres, minorias e questões de pureza étnica.
Regressando aos EUA e à sua actual situação, Appadurai relembra que aí sempre houve um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. É a terra onde equidade significa que pessoas como Trump devem ter uma oportunidade para fazer negócios e dinheiro, e equidade significa que todos devem tentar e que alguém irá ganhar. Justiça significa que não devemos todos estar a lutar.
Aborda também as questões económicas, alertando para a transferência do capital das manufacturas e da indústria, dos bens e dos serviços, para a troca de instrumentos financeiros, o que transforma radicalmente a economia, não havendo escassez e possibilitando uma acumulação de capital sem fim... a dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela.Termina esta entrevista dizendo que temos que encontrar a fórmula de nos apoderarmos desses instrumentos financeiros e de os democratizar. O risco faz parte das nossas vidas de qualquer forma - só que há outras pessoas a transformá-lo em dinheiro. Porque é que não podemos ser nós?

Adenda: o conceito de mediascape, que eu adaptei e uso aqui no blogue, é um conceito de Arjun Appadurai, retirado precisamente da sua obra de referência "Dimensões Culturais da Globalização", que eu li em contexto de mestrado, mas que me tem servido de referência em vários momentos e contextos.

assim sendo...


08 janeiro 2017

gato morto

Aqui está um novo projecto musical muito interessante, digo eu. Para além do mano mais novo, o puto Ramon, que aqui toca as guitarras, o gato morto é constituído ainda pelo Elísio Donas (Ornatos Violeta) no piano e teclas e pelo Paulo Franco na bateria. Ainda que quase de relance, podemos ver o Lopes, o grande Carlos Lopes, a produzir qualidade. Para ouvir bem alto e esperar pelo que há-de vir.

07 janeiro 2017

Mário Soares

Morreu Mário Soares.
Morreu a figura principal da democracia portuguesa, o principal responsável pelo país que hoje somos, o ideólogo do percurso que a sociedade portuguesa seguiu, pelo menos, nos últimos quarenta anos. Independentemente de concordarmos ou não com aquilo que fez e aquilo que disse, ao longo da sua extensa vida pública e política, não restarão dúvidas da sua centralidade nos momentos de decisão e nos meandros do poder. Morreu a figura maior do nosso país, livre e democrático, e acaba de nascer um vulto da nossa história que figurará por muitas gerações na nossa memória colectiva.
Mário Soares nunca mereceu a minha simpatia, nunca me senti confortável com o seu discurso, nunca fui um soarista, nem sequer algum dia votei nele, mas isso não me impede o reconhecimento, a referência e o respeito pela sua vida, pela sua intervenção cívica e política. A primeira recordação que tenho dele é a campanha de 1985 e do seu slogan: Soares é fixe.
Morreu o badochas e, apesar de expectável, este é um dia triste.

04 janeiro 2017

mediascape: masturbação

Hoje foi notícia (aqui) a pretensão de um deputado federal brasileiro criminalizar a masturbação. Eu, perante tal dislate, não sei se ria ou se chore! Mas posso estar enganado, pois face ao que tem sido o passado recente deste mundo, eu ando completamente desfasado da realidade, ou seja, aquilo que eu dou como adquirido pela civilização, afinal não é assim tão consensual e hegemónico, muito pelo contrário, diz apenas respeito a uma pequena minoria.
O que me irrita a tiróide em notícias e factos deste género é haver segmentos da sociedade, normalmente associados a religiões ou com ligações a movimentos religiosos e suas intangíveis morais, que considera que pode regulamentar e ajuizar aquilo que são os costumes, hábitos e práticas dos cidadãos. O seu conservadorismo no que diz respeito aos costumes é obtuso, obsoleto e com cheiro a naftalina, uma vez que regressam sempre a este discurso moralizador do que deve e não deve ser a conduta íntima e pessoal de cada indivíduo. Era o que mais faltava que alguém, que não eu, me impedisse a masturbação. O corpo é meu e o prazer daí obtido será apenas meu, pessoal e intransmissível. Não percebo o incómodo.
Para ser intelectualmente honesto, eu até considero que o mal de muitos indivíduos (gajos e gajas), com quem me cruzo por aí, é a falta de prazer, de satisfação sexual e de libertação da sua libido, ainda que num formato "a solo". Tal como cantavam os Ena Pá 2000: Masturbação para o bem da Nação... (era mais ou menos isto).
Força nisso!

depois de muito esperar, aqui está ela, a LER


Nem no blogue, nem na página do facebook, se encontra a referência a este novo número. Não sei o que se passa, mas para desgosto meu, parece que cada vez é mais difícil publicar a LER.

01 janeiro 2017

a paz como ambição

António Guterres iniciou hoje oficialmente o seu mandato como Secretário Geral das Nações Unidas e no seu primeiro discurso deu ênfase àquilo que poderá, deverá, ser a sua prioridade, a paz. A paz a nível global, regional e local. Grande ambição. Assim seja.

m train

As últimas horas de 2016 e as primeiras de 2017 foram passadas a ler o que faltava do livro M Train de Patti Smith. Já em Agosto escrevi sobre a sua escrita, quando a propósito da leitura do seu outro livro Apenas Miúdos. Apesar de se tratarem de ambientes - espaços e tempos - distintos, percebe-se uma coerência existencial, uma continuidade na escrita, nas reflexões e na sua visão do mundo. Se o primeiro livro me surpreendeu, este apenas veio confirmar a autora como uma excelente escritora. Entre um e outro percebe-se uma evolução ontológica, naquilo que é o processo do seu amadurecimento e de uma certa paz com o seu mundo, de relativa aceitação pelo destino pessoal. Desconheço o resto da sua obra literária, mas gostaria de ler mais e de conhecer o resto do seu universo. 

31 dezembro 2016

à la palice

Acabo de receber um email com a seguinte pergunta: comeu demasiado no Natal?(apresentam depois umas dicas para se emagrecer ou recuperar desse excesso...)
Eles não querem que eu responda, mas eu respondo, aqui:
Não! Não comi. No Natal eu como sempre é pouco, muito pouco. Natal é dia de fome para mim e a única dica que eu daria, para evitar excessos, seria: não comam.
Simples e barato.

30 dezembro 2016

ad eternum, ou melhor, ad nauseam

Não sou comprador, nem sequer leitor, desta publicação. Muito de vez em quando, lá me vem parar às mãos e, então aí, folheio-a e leio com atenção e interesse um ou outro cronista. A edição cuja capa aqui reproduzo é bem paradigmática das razões pelas quais eu não a leio... Até quando vão repetir a receita? E os ingredientes? É que todos os anos são sempre os mesmos! Para além de estarmos fartos de saber as suas opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, fica a sensação de que estas personagens nos acompanham desde sempre e até sempre e, na verdade, já estamos nauseados.

28 dezembro 2016

o regresso aos cromos

A minha criança, há cerca de dois meses, trouxe do jardim infantil uma caderneta de cromos do campeonato nacional deste ano 2016/17. Achou piada e quis fazer a colecção. Eu, confesso, também lhe achei piada e, nostálgico da idade em que fiz inúmeras colecções, passei a comprar-lhe quase diariamente algumas saquetas de cromos. Estão caros! Todos os dias, ou quase, o ritual de abrir essas saquetas de 6 cromos e ver se faltam ou são repetidos, tornou-se hábito cá em casa. Agora, com a caderneta quase completa, tornou-se mais difícil conseguir cromos novos e, ao contrário do que aconteceu na minha meninice, não há por perto com quem trocá-los. A maravilha da internet permitiu-me descobrir vários fóruns e sítios onde se podem trocar cromos de toda a espécie e qualidade - novos, velhos, nacionais, internacionais, entre outros - e cá ando eu todo satisfeito a traficar cromos, em encontros previamente combinados, ou através dos CTT. A verdade é que só já faltam vinte ou trinta cromos para completar a caderneta e não vamos parar até o conseguir.
A minha criança completará assim a sua primeira caderneta, que eu com cuidado guardarei para um dia lha entregar. Eu, tal como noutras situações esperadas na vida dos miúdos, cá ando entretido e divertido com os cromos e a reviver tempos idos.

26 dezembro 2016

panóptica do eu

(primeiras linhas do que está já em produção)
Dez anos, aqui e agora, vertidos em textos. Sinto este volume como uma transparência que permite tudo ver e perceber. O panóptico está aqui, através dele, quem quiser, poderá ver-me a mim, translúcido e desmascarado, às vezes eufórico, outras vezes cáustico, nem sempre optimista, mas sempre crítico. Será, em todo o caso, um bom retrato meu.

22 dezembro 2016

alheado e obcecado

Decisão com algum tempo de vida, esta de me manter, confortável e sossegadamente, afastado da torrente informativa e noticiosa que nos empurra numa vertigem cronológica. Alheado então desse abismo contemporâneo, tenho vivido as minhas horas e dias a fazer o que mais gosto, tranquilo e apenas obcecado pelo cumprimento dos prazos estabelecidos e combinados. Assim, não só os dias crescem, como a produção é mais rentável, possibilitando ainda outros prazeres que, por pudor relativo a todos os meus amigos e amigas que labutam das "9 às 6", me abstenho pronunciar. Por outro sim, importa salientar que neste findar de mais um ano civil, as perspectivas para o novo e próximo ano são muito interessantes e, para ser verdadeiro, nada me é mais catalisador do que perceber que não tenho, ou terei, tempo útil para o tudo que tenho em mãos. Por outro não, talvez seja melhor não estar para aqui com esta atitude de cigarra e regressar ao modus faciendi da pequenina formiga.
Não sei, talvez, há quem diga que sim. Fui.