25 março 2017

passado recente da cultura e sociedade portuguesa


Tive conhecimento deste livro na última revista LER (Inverno 2016), onde o autor, António Araújo é entrevistado e apresenta o livro. Chamou-me a atenção o propósito da obra e o jeito, claro, objectivo e desempoeirado, com que o autor falava desse passado recente e, em concreto, da década de 80, tão desprezada pelo mainstream cultural e editorial da actualidade, procurando, a partir da direita, as clivagens que continuam a dividir as culturas de esquerda e de direita. Tal como explica o autor no inicio do livro e também explicara na entrevista à revista LER, este projecto editorial implicou a edição de um outro livro, escrito por João Pedro George, sobre o mesmo período histórico só que do ponto de vista da esquerda e que virá a público ainda este ano de 2017.
Rapidamente procurei o livro e o trouxe para casa. Foi a leitura das últimas noites - naqueles momentos em que já nada mais poderá acontecer a não ser esperar que o sono chegue.
Aconselho a todos e a todas que queiram conhecer um pouco melhor a nossa sociedade das últimas décadas.
Espero com alguma expectativa o livro de João Pedro George.

21 março 2017

racismo, europa e democracia

Nem de propósito, ou nem a pedido. Estava eu a dizer no texto anterior que os europeus deveriam cuidar dos seus cidadãos para evitarem populismos e suas personagens, quando nos chega esta pérola da boca de Jeroen Dijsselbloem, ainda ministro das finanças da Holanda e ainda presidente do Eurogrupo, que acusou os europeus do Sul de gastarem o seu dinheiro “em copos e mulheres” e “depois pedirem que os ajudem”. Pois muito bem, para além do óbvio, ou seja, que este senhor não tem condições para exercer os cargos que exerce, esta declaração diz muito mais acerca da sua mundivisão do que diz dos povos do sul da Europa. Este senhor, desesperado pelo resultado obtido pelo seu partido na Holanda e vendo o seu chão a desabar, revela-se em todo o seu ressentimento e racismo. Sim, esta declaração não é xenófoba, esta declaração é completamente racista e transmite todo o ódio e incompreensão pelos diferentes e variados modos de vida existentes na Europa democrática e pluralista.
Só tem uma escolha, demitir-se dos cargos europeus e regressar ao seu mundo perfeito, sério e responsável, aquele das virtudes públicas e dos vícios truncados pela privacidade. Siga sr. coiso.

populismos, europa e democracia

Ainda a propósito do rescaldo das eleições na Holanda e quando todos, ou quase todos, suspiram de alívio pela não vitória do partido de extrema-direita de Wilders, fartam-me os comentários dos eruditos do costume. É tão simples quanto isto:
Eu também fiquei satisfeito pela relativa derrota dessa política nacionalista, extremista e xenófoba, mas não entendo a deriva generalizada, na opinião publicada, acerca daquilo que é comum tratar-se por populismo. Estou farto desse raciocínio. E mais agoniado estou com o lugar comum das justificações encontradas para o crescimento desses populismos pela Europa. Reparem, segundo a maioria dos opinadeiros da nossa praça, a razão quase exclusiva dessa evolução é o esvaziamento dos centros políticos ou partidários (numa lógica direita/centro/esquerda). Não estou com isto a defender esse ou outro populismo, mas, parece-me esta explicação muito redutora e insuficiente, principalmente, quando e porque proferida sempre por quem ocupa esse centro, habituado aos privilégios das grandes organizações, ao mainstream da comunicação social e, não menos importante, à grande resistência e conservadorismo desses privilegiados do sistema em relação às periferias e, acima de tudo, em relação às mudanças de paradigma.
Minhas senhoras, meus senhores, vivemos ou não em democracia?! E a democracia é isso mesmo, permitir a existência de quem pensa, opina, age e acredita noutra estruturação para a sociedade. Podemos gostar ou não, podemos acreditar ou não, mas em democracia deveremos sempre aceitar os resultados do voto livre, consciente e democrático.
Tal como referi em relação aos EUA e à vitória de Trump - que me subtraiu qualquer vontade de comentar o que passou a chegar do outro lado do Atlântico - e direi sempre, vencedores e vencidos deverão sempre adaptar-se às novas realidades. Se não são dignas ou são impróprias, tratem de alterar as leis e os regulamentos, tratem de cuidar dos cidadãos e das suas comunidades. Assim se derrotarão todos e quaisquer populismos e seus personagens.

20 março 2017

a quem interessar...


Aula aberta a toda a comunidade escolar e não escolar. A quem interessar, apareça.

15 março 2017

hoje, na Holanda...

No próprio dia em que decorrem as eleições na Holanda e quando um dos possíveis vencedores poderá ser um extremista de direita, partilho aqui a minha preocupação perante tal possibilidade. Bem sei que será só mais um país onde o projecto europeu caducou, mas assusta verificar que os nacionalismos, ainda por cima populistas, estão de regresso um pouco por toda a Europa. Para além dessa preocupação, um outro sentimento me assaltou um destes dias, quando espreitei o "tempo contado" de J. Rentes de Carvalho e li:

Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver.

Cada um de nós tem o direito à sua opinião e a todas elas é devido o respeito e a tolerância democrática. Em relação a esta declaração de voto de Rentes de Carvalho, eu não posso deixar de a respeitar, mas desapontado direi que eu até poderia subscrever grande parte das suas preocupações e protestos, mas discordo totalmente quando esse voto é justificado como um instrumento para uma oposição construtiva, pois havendo a possibilidade de Wilders vencer, aquilo que teremos não será uma oposição nacionalista e defensora dos cidadãos holandeses, será a execução de um programa xenófobo e racista, que conduzirá a Holanda e, depois, a Europa, para um percurso perigoso e desconhecido.
Espero e quero que Wilders perca e bem estas eleições.

12 março 2017

na livraria Traga-Mundos, em Vila Real



Eu e o António Sá Gué à conversa sobre o livro "apurriar (2007-2017)" e sobre tantas outras coisas que o ambiente, acolhedor e intimista, proporcionou. No fim, registámos o momento com um trago de Porto. Simpático.

09 março 2017

mediascape: velha portugalidade

Depois do tão propalado e infeliz incidente com a conferência que Jaime Nogueira Pinto foi impedido de proferir na Universidade Nova, dei conta da existência de uma coisa chamada "nova portugalidade" e fiquei curioso. Vai daí e pûs-me a googlar e encontrei, para além dos feeds das notícias sobre o caso, uma página de facebook dessa associação(?), movimento(?), ou lá o que isso é(?) e fui conhecê-la. Bem, se a portugalidade nova é isto, se é assim que se apresentam ao mundo, então temos duas hipóteses: ou fugimos para bem longe dessa novidade, ou então rimos a bom rir, pela estupidez e soberba deste(s) indivíduo(s). Eu optei pela segunda hipótese, pois chega a ser vergonhosa a ideia de "novo" Portugal que se defende, pois não é mais do que um saudosismo bacoco dos mitificados feitos dos nossos lusos antepassados, uma glorificação masturbadora de personagens anacrónicos e perdidos na penumbra do tempo, uma sobrevivência ignorante de algo em extinção. Lamento informar, mas o que lá vai, já foi, não volta a ser e Portugal será sempre novo e, em simultâneo, sempre velho. Não tenho dúvidas, este protagonismo mediático foi o clímax de uma existência breve, pois aquilo que aqui se pretende não é uma nova, mas sim uma velha portugalidade.
Não, muito obrigado.

Adenda:
para que não julguem que é conversa minha ou fiada de alguém, deixo aqui duas ligações importantes para perceber ao que esta gente vem...

https://www.facebook.com/novaportugalidade/?ref=ts&fref=ts 
(página facebook nova portugalidade)

http://bomdia.lu/reerguer-a-portugalidade-e-o-dever-da-hora/ 
(um artigo do seu membro fundador(?) - aqui poderão encontrar autênticas preciosidades ou pérolas significantes da ignorância deste rapaz. Leiam, é giro!)

semiótica infantil

Ontem, dia em que se assinalou o dia internacional da mulher, a criança trouxe da escola um presente para a mãe. Em grande excitação entregou-lhe este desenho, dizendo-lhe que era pelo dia das mulheres.


Como não poderia deixar de ser, a mãe ficou toda contente e embevecida pela arte do filho. Ao olhar com atenção para o desenho não percebeu alguns pormenores e pediu ao seu autor para lhe explicar todos os elementos figurados, o que este fez com desembaraço e sem qualquer hesitação. Para além do óbvio, a figura humana é a mãe e o ponto que se vê entre as pernas desta é, disse ele, o umbigo. A mãe, tentando ser pedagógica, quis-lhe explicar que o umbigo é na barriga e não a meio das pernas. Resposta imediata da criança:
- ó mãe, não percebes nada! Se eu fizesse o pontinho na barriga da menina, não era um umbigo, ia ser um botão da roupa... por isso fiz ali e assim ninguém diz que é um botão.

08 março 2017

brinde a nós

Não me perguntem porquê, mas sinto-me invadido por uma alegria, talvez próxima da euforia. Estou sentado, e sozinho, num sofá e essa invasão repentina fez-me lembrar esta bonita e pouco sóbria cantiga. Estou a ouvi-la e a saborear cada estrofe da sua letra. Brinde a nós, a vós e a quem aí vier.

04 março 2017

solilóquio

Ainda que frequente, por opção, as caóticas praças de alimentação da modernidade, procuro sempre um canto ou recanto que me possibilite a sensação, ainda que ilusória, de refúgio desse caos visual, sonoro e olfativo.

nova paragem


Para quem possa estar ou passar por perto. Até lá.

25 fevereiro 2017

possuir

Ao percorrer a paisagem de sempre, por caminhos e canelhas dos lugares que sempre conheci, vou descobrindo as alterações que se vão verificando, aqui e ali, nem sempre felizes ou positivas, mas quase sempre significantes do tempo que passa, ou do desgaste e envelhecimento dos materiais e das pessoas, ou ainda do abandono compulsivo do território. É por tudo isto que o sobressalto é maior quando deparamos com algo como o que está na fotografia... Uma porta com carabelho, bem característica deste lugar, gasta pelo tempo e pelo uso, remendada para a poder perpetuar até um futuro desconhecido e uma imponente soleira, que para além de gasta, partida significa o abandono e a falta de serventia. Uma porta que já não serve nada, nem ninguém, mas ainda assim merece o cuidado da nomeação. Essa eterna preocupação da identidade e, acima dela, a essencialista necessidade de posse da terra e do património, que teima em perseguir o Homem, ainda que seja a posse de um monte de pedras, ou de um pedaço de nada.

23 fevereiro 2017

refúgios

Mesmo em espaços concebidos e destinados para considerável confusão e visível anarquia, como são as praças de alimentação dos centros comerciais, que eu também com regularidade frequento, procuro sempre um espaço, canto ou recanto, mais sossegado. Nem sempre o consigo, ou nem sempre é possível, o que me leva a querer sair dali. Por vezes, mesmo perante o aparente caos visual e sonoro, consigo encontrar refúgios improváveis e, assim, manter-me em paz e sossegado, alheado de tudo que me rodeia.

diálogos maiores

Encontrado, quase por mero acaso, numa feira de livros a preços reduzidos, aquilo que me despertou a atenção foi o nome de Marguerite Duras. Pois bem, por 4,90 € comprei este livro que compila cinco conversas entre a referida escritora e o então Presidente da República Francesa, François Mitterrand. Conversas improváveis pensarão muitos, e pensei eu, pois desconhecia a amizade e a longa história que este dois ilustres gauleses partilhavam, desde que a segunda guerra mundial os uniu na resistência francesa.
A estação de correios da rua Dupin, foi o título escolhido para esta edição, pela própria Duras e conta com um prefácio de Mazarine Pingeot, filha de François Mitterrand. Foi leitura das últimas horas e, uma vez mais, foi com surpresa que percebi a cumplicidade, o respeito e a amizade que se percebe a cada momento das conversas, que ocorreram entre 24 de Julho de 1985 e 16 de Abril de 1986, sendo que a primeira tem por título: "A estação dos correios da rua Dupin"; a segunda: "O último país antes do mar"; a terceira: "O Céu e a Terra"; a quarta: "África, África"; e a quinta: "A Nova Angoulême".
Mesmo tendo em conta a diversidade dos temas abordados e a frontalidade e franqueza perceptível em cada frase ou afirmação, a conversa que mais gostei foi a segunda, o último país antes do mar, que aconteceu no dia 23 de Janeiro de 1986, no Palácio do Eliseu e na qual os dois reflectem sobre o seu país, as suas qualidades, os seus defeitos, o seu ethos;e, parece-me, o seu pathos. Ao ler este diálogo pude perceber como a percepção da realidade social francesa era tão distinta da actual, ou então, como tudo evoluiu desde então e até à actualidade.


Como não poderia deixar de ser, fiz uma pequena ficha de leitura, que agora aqui partilho e onde se destacam alguns dos seus pensamentos:

[conversa: o último país antes do mar (23/01/1986)]
M.D. - A França é um país muitas vezes invadido e outras completamente invadido. (p.46)
F.M. - Mas é um país que absorve, absorve tudo. E com o que absorve faz uma coisa original. Uma catálise é sempre extraordinária. Sabe, o contributo das populações exteriores não me inquieta nada, não tenho de modo algum a impressão de que vamos perder um valor qualquer - aliás, bastante vago - que seria a "alma francesa". A alma francesa também é feita desses contributos e é muito bom que assim seja. (p.46)
F.M. - Há muito poucos excessos racistas em França. Há minorias racistas, mas raramente contaminam a nação inteira... (p.49)
M.D. - Você diz que é o passado comum, a História comum, nos eventos, feitos e ideias, que fazem a nação. Mas eu digo que somos compatriotas porque lemos os mesmos livros na mesma língua que aprendemos. (p.51)

[conversa: África, África (25/02/1986)]
F.M. - Na Palestina, a Bíblia reinventou uma das mais belas paisagens do mundo que se pode, assim, ler duas vezes. A alma tem a impressão de contornar a curva das colinas e de penetrar no segredo da terra e do mundo. Mas reconheço que você também tem razão: é necessário passar pela escrita. (p.98)
F.M. - Agora, é diferente. Há Israel.
M.D. - Sim, agora Israel é temível. É o segundo exército mais poderoso do mundo.
F.M. - Evitemos as comparações com as grandes potências. Mas se a grandeza está, como creio, na resolução, na força do espírito, Israel não está mal colocado.
M.D. - O Ocidente é judeu. Esta faculdade de o homem europeu ser simultaneamente o outro e ele mesmo é judia.
F.M. - O nosso mundo ocidental, sim, talvez. Os outros, os Chineses, os Indianos, já não.
M.D. - Concordo que é unicamente o nosso mundo ocidental. Somos todos judaico-cristãos. É a nossa origem comum. (p.99)
F.M. - Você faz-me pensar nos Carvalhos que eu planto. Serão adultos aos cem anos. Os meus netos não os verão na sua plenitude. É assim. Prever o que se passará depois de nós dá à vida a sua dimensão, uma dimensão individual - eu planto - e colectiva - os outros desfrutarão a doçura da sombra, admirarão a força e a harmonia de uma arquitectura viva. Existe uma filosofia da árvore. (p.103)

[conversa: a nova Angoulême (16/04/1986)]
F.M. - Nada se constrói assente no medo. O que espero da França é que não tenha medo do amanhã, nem da ciência, nem do pensamento, nem das formas. E que ela ouse e persevere no seu apreço pelas considerações universais, que ela se interrogue sobre os outros, sobre si mesma. Isso não proíbe nem as ideias, nem as palavras, nem as acções quotidianas. (p.123)

O encontro de dois vultos maiores da história recente francesa, que eu há muito e por razões diferentes admiro, resultou neste livro, que se apresenta também como um documento histórico e testemunha das experiências vividas pelos dois intervenientes. Leitura que se recomenda.

20 fevereiro 2017

imperdível, apurriar no Alvim

Para aqueles e aquelas que, por distracção ou omissão, não assistiram ao vivo, aqui fica o registo imperdível e para memória futura.