12 agosto 2016

a falta que me faz

Nas horas que antecedem a partida para aquilo que toda a gente denomina de férias e que para mim, espero, possam ser horas, dias e semanas de algum descanso, leituras e algum trabalho de campo, ocorre-me a falta que sinto do café Lexinho. Há dois, talvez três anos a família resolveu fechar definitivamente a antiga taberna, agora café, deixando-me órfão de lugar para estar e socializar na pequena aldeia, que apesar de não me ter visto nascer, é a ela que eu me sinto pertencer.
O Lexinho, alcunha do seu proprietário, o Sr. Mário dos Santos, entretanto falecido, era uma personagem peculiar, reconhecido negociante e conhecido por toda a região. Amigo do seu amigo, era um conversador nato e contador de histórias inacreditáveis e caricatas. Quando o recordo lamento não ter conversado mais com ele, não ter aproveitado a sua fantástica memória e sabedoria. Enfim.
A taberna para onde eu diariamente ia, onde eu estava e onde toda a gente me conhecia, era o meu lugar em Vila Boa no Verão, no Natal, Carnaval e Páscoa, assim como em muitos fins-de-semana. Mais tarde, por razões maiores, só a espaços ia à aldeia, mas foi lá que passei as melhores tardes de Domingo, à conversa ou, de preferência, a jogar à Blota - jogo de cartas importado há muitas décadas e adaptado pelos locais, jogado com baralhos de cartas espanholas. Recordo também os finais de tarde em que regressando da escola de Vinhais onde leccionava, me sentava na sua pequena esplanada a beber cerveja e a contemplar o horizonte a poente e a conversar com os poucos que apareciam ou passavam.
Agora só pontualmente vou à aldeia e para além de visitar um ou outro familiar, recolho-me em casa e por lá fico nas brincadeiras com os miúdos ou nas minhas actividades de sempre. Com tristeza a aldeia perde centralidade na minha vida e essa nostalgia que me acompanha, relembra-me sempre como o tempo passa célere e como as referências, apesar de todas as distâncias, se mantêm. Faz-me muita falta esse lugar.

10 agosto 2016

mediascape: país que arde e toda a gente vê

Anda o país a arder e estamos todos muito preocupados com a situação. Vivemos nos últimos dias sob um céu de fumo que se vai estendendo por todo o país. As imagens desses incêndios são sempre impressionantes, mas aquelas que ontem, e ainda hoje, nos chegam da Madeira são dantescas e aflitivas. Como é possível?
Bem sei que em tempo de guerra não devemos desviar a atenção que deve e tem que estar toda concentrada no combate aos fogos e na salvaguarda das vidas humanas e dos seus bens, mas na verdade não podemos deixar de questionar: Como é possível?
Sabemos todos, sabe o Estado e suas instituições, sabem as corporações de bombeiros, sabe o Governo e seus elementos que este é um fenómeno cíclico e que, por estes meses, todos os anos, aqui, ali ou acolá estas coisas acontecem. Portanto, o país deveria estar equipado e preparado para dar resposta a estas situações.
Depois, temos a questão da floresta e aí não basta ao Primeiro Ministro dizer que temos que requalificar a nossa floresta. Para além de ser uma verdade, não é em tempo de crise que se fazem afirmações dessas, pois não passam de um mero recurso discursivo do politicamente correcto. O ordenamento do território, a gestão dos recursos florestais, a selecção das espécies de árvores e da flora são assuntos que requerem planeamento, tempo e muito dinheiro. Algo que já deveria estar feito há muito tempo e continua por fazer. Para além disto, o cadastro das propriedades e a sua limpeza é outra das premissas a ter em conta nesta requalificação, pois em cada imagem que nos chega dos cenários a arder, podemos identificar circunstâncias e caracteres altamente inflamáveis e pasto para as chamas dentro das localidades e à volta de cada habitação. Como é possível?
Os incêndios e os fogos são uma indústria forte em Portugal (assim como, provavelmente, noutros países), e que sempre funcionou e foi gerido de uma forma obscura. Os negócios que se fazem, os valores que se envolvem e as pessoas que com isso lucram, é tudo desconhecido dos portugueses, pois esses cartéis vivem sob o lema do voluntariado dos bombeiros e da simpatia do povo para com os seus heróis que, muitas vezes, dão a vida nessa luta. É por isto, também, que me revoltam as campanhas de solidariedade que surgem sempre nestes momentos, com peditórios de água, leite e alimentos para os bombeiros. Caramba, o Estado nem isso consegue fornecer às corporações? Como é possível?
Mais duas questões: porquê é que os fogos continuam a ser combatidos por "voluntários" e não por profissionais? e, porque é que não se podem utilizar meios aéreos no combate às chamas durante a noite?
No fim, sou e estou solidário com todos os homens e mulheres que dão o corpo ao manifesto e enfrentam a besta do fogo; estou e sou solidário para com todos aqueles que perdem os seus familiares e os seus bens.

08 agosto 2016

rotas e gastas, que raio de moda

Não consigo perceber o sentido estético ou a beleza que as pessoas, nomeadamente as mulheres, encontram nas calças rasgadas ao longo das pernas. Ainda mais me custa perceber como é que elas conseguem gastar euros, por vezes muitos, a comprar calças já rasgadas. Claro que nada tenho com isso e cada um faz o que quer com o dinheiro e cada um tem o seu gosto e sentido estético, mas a confusão no meu cérebro é real e justificada pela memória que teima em recordar-me o conceito de roupa nova, ou se preferirem, a ideia de comprar roupa nova. Não é birra de idade adulta ou má vontade, é mesmo uma questão de racionalidade e de bom senso.
Não será preciso recuar muitos anos ou décadas para encontrarmos aquilo que acontecia com a maioria da roupa e o cuidado que ela merecia por parte de quem a vestia ou comprava. Comprar ou usar roupa nova significava usar peças impecavelmente bem feitas, sem qualquer defeito e com garantia. Aos olhos desse tempo, as peças de hoje têm todas defeito e não são passíveis de qualquer garantia por parte dos fabricantes, pois já estão acabadas, rotas, descosidas e afins. É a perversão completa dessa ideia. Por outro lado, essa mesma memória leva-me até ao tempo em que as nossas mães e avós, viviam agarradas à linha e agulhas ou à máquina de costura para coser e recoser a roupa, para fazer remendos, para tentar dar longevidade às peças que teimavam em desgastar-se.
Esta questão ganhou relevância na minha vida a partir do momento em que a adolescente que lá tenho em casa começou a olhar para essas calças e a dizer que também gostava de ter calças assim. Claro que não, disse eu. Nem pensar em gastar dinheiro em calças já gastas e todas cortadas. Não faz sentido e fere-me a memória. Uma coisa são as calças que naturalmente se vão gastando e depois poderão ser utilizadas para mostrar pedaços das pernas, outra coisa é investir em roupa rota e gasta.
Não e não.


sempre, sempre, a luta

Justiça seja feita ao Jornal Público que não esquece a questão do Acordo Ortográfico e mantém a luta pela defesa da língua portuguesa. Este artigo é do dia de ontem, dia 7 de Agosto.

05 agosto 2016

apenas miúdos


Não sendo um conhecedor da obra de Patti Smith, foi com entusiasmo e avidez que li em pouco mais de 24 horas o seu livro "Apenas Miúdos". Neste seu primeiro livro em prosa, ela guia-nos pela sua memória ao longo da sua infância e, principalmente, ao longo do final da década de sessenta, setenta e oitenta. Através da sua escrita sensata é-nos dado a conhecer Nova Iorque e suas transformações: as suas ruas, cantos e recantos, lugares vividos e espaços experimentados. Num discurso na primeira pessoa, Patti Smith reconstrói o seu crescimento enquanto mulher e artista e dá-nos a conhecer a cena musical e artística e muitos dos personagens que povoaram Nova Iorque daquela época. Só no fim do livro nos confidencia a sua verdadeira motivação: prometera a Robert Mapplethorpe (na foto), o seu companheiro de "viagem" e também artista visual, quando este estava a morrer, que um dia escreveria a história da caminhada que juntos fizeram.
Tenho para ler o seu mais recente livro, "M Train", mas vou deixar para mais tarde. Partirei agora para outros e ainda desconhecidos universos.

03 agosto 2016

01 agosto 2016

aí está ela, a luta...

saber popular

Diz a sabedoria popular, pelo menos aquela que habita e conhece essa realidade, que é nas três primeiras noites do mês de Agosto que as castanhas germinam nos castanheiros. Para tal acontecer, o ideal é que as noites sejam calmas, com ou sem luar, mas sem humidade e sem vento. Se assim for a colheita estará assegurada e, lá para Novembro, podem esperar-se dias e dias de apanha e grande estafa. Assim seja.

falta de vergonha

Inadmissível o comportamento da empresa Metro do Porto que, nos dias um de cada mês, dia em que maior parte dos seus "clientes" recarrega os passes e os andantes, transforma as suas vidas num caos. Não é o primeiro, nem o segundo mês, é já um comportamento habitual, em que as máquinas existentes nas estações do Metro não aceitam dinheiro, ou não aceitam cartão, ou não aceitam moedas, ou não aceitam notas, ou não dão troco, ou seja, tornam impossível o recarregamento dos passes e andantes. Claro que mais logo ou amanhã já estará tudo a funcionar em pleno.
Trata-se de uma verdadeira e inqualificável falta de respeito para com os utentes e utilizadores do serviço de metro, numa atitude bem característica das empresas que vivem com o monopólio ou a exclusividade nos seus sectores. Haja alguém (administração) com vergonha e que normalize a situação.

30 julho 2016

ler e gostar, muito

Está escolhido e eleito o texto do número sete da revista Granta portuguesa. Acabada de ler, o melhor ficou quase para o fim, isto porque é meu hábito lê-la do fim para o princípio, excluindo o Editorial. O texto "Quando em meu mudo e doce pensamento", de Tiago Rodrigues (desconhecido até então para mim), arrebatou-me os sentidos e remexeu-me os sentimentos. Pelo fio da navalha, somos levados alternadamente por um actor em palco, uma conversa com George Steiner, uma aldeia do Portugal remoto e a poesia de Shakespeare. Bonito, intenso e arrebatador. Mais uma forte razão para continuar a comprar e ler a revista Granta. Sempre boa. Nunca mais é Novembro.

29 julho 2016

21 julho 2016

mediascape: caixa de pandora


Hoje, no jornal Público, o acto primeiro de algo que degenerou até chegar à vergonha actual. Digo eu.

15 julho 2016

baú da memória XIII

Hoje entrei no café Mon Ami em Vila Nova de Gaia, depois de mais de vinte anos sem lá ir. Apesar da sala ser a mesma, tudo está diferente daquilo que guardo na memória desse café, desde a disposição da sala (mesas e cadeiras), empregados, balcão, serviço, movimento, clientela, gerência, etc., apenas o quiosque lá se mantém mais ou menos como o recordo no canto direito, junto à entrada e em frente à escadaria que dá acesso ao primeiro andar.
Pedi uma bebida e lá estive numa contemplação comparativa e retrospectiva com o início da década de noventa, altura em que quase diariamente lá ia, lá estava e lá ficava. Nesse tempo, em que era apenas estudante e em que não tinha carro, nem sequer carta de condução, e me deslocava de autocarro entre casa e as escolas que frequentava em Gaia - a Escola Profissional de Soares dos Reis e a Escola Secundária Almeida Garrett, e as muitas horas de espera pelo transporte que eram passadas no Mon Ami à conversa com colegas e amigos, ou sozinho a ler. Recordo bem as noites de sexta-feira, em que comprava e lia o saudoso semanário Independente e delirava com a perspicácia e acutilância de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, assim como me deliciava com as boas francesinhas que lá havia. Depois, o regresso a casa no último autocarro da noite, o da uma da madrugada. Mas também era lugar de rotinas a horas diversas, de comprar o jornal, beber um café, dar duas de letra, jogar no totobola e comprar tabaco. Lugar de encontro e de celebração, várias vezes participei em almoços e jantares lá organizados.
Um lugar, no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, usado e experimentado pelas pessoas. Agora, agora não sei como vive. Desconfortável não me senti, mas já não é a mesma coisa.

chegou-me há dias

"No elevador de um hotel em Macedo de Cavaleiros. 
Muito bom gosto..."

(recebido há dias no email e proveniente de um aluno amigo)

01 julho 2016

para os dias de veludo que se aproximam...

palavras razoáveis e certeiras

Na última revista LER, que por falta de tempo, ando a ler muito devagar e a espaços, Maria do Rosário Pedreira, editora e poetisa, fala sobre a sua vida e, essencialmente, sobre livros e edição. Porque já a leio há muito tempo, visito regularmente o seu blogue, li com atenção as suas palavras e reconheci-me em muitas delas...

Acredito que haja um público que se interessa por poesia. Acho é que há menos público para a literatura em geral porque se minou a edição com livros que não valiam nada e se educou o gosto por uma bitola muito baixa e é muito difícil trazer essas pessoas que estão habituadas a esse tipo de livros para a verdadeira literatura,  que exige atenção, esforço, concentração, cultura, exige uma data de coisas que hoje os leitores provavelmente não têm. E isso é que é problemático.
(...)
Isso hoje é que não se faz nas escolas. Duvido que numa escola primária os miúdos leiam poemas a sério. Devem ler as quadrilhas dos livros infantis, da girafa e do elefante, mas não sei se se dá, hoje em dia, às crianças poesia a sério. Mesmo que não compreendam tudo, é importante.
(...)
Não consigo desistir desta minha vontade de dar visibilidade a quem tem talento. Não posso demitir-me da minha responsabilidade de publicar uma pessoa que pode fazer a diferença e ser lembrada daqui a muitos anos. Embora fosse mais fácil para mim, para fazer os meus números, fazer livros maus de pessoas conhecidas. Mas não é isso que me move. O que me move é aquilo que pode ficar. Obviamente, só daqui a 50 anos é que saberemos se estes autores novos que foram lançados já no século XXI ficaram, mas eu gostava que alguns ficassem. Sei que não acontecerá com todos. 
(...)
O que eu gostava é que as pessoas lessem um livro e o livro não fosse mal escrito, não fosse estúpido, não fosse manipulador, que também há, como aquele tipo de "literatura Paulo Coelho", que é sobretudo manipuladora porque aquilo nem sequer está mal feito mas é horrível, as pessoas vão atrás daquilo.
(...)
O que mais me irritou nestes últimos anos foi a quantidade de gente que se convenceu de que era mais importante pagar uma dívida externa do que alimentar os filhos. Isto irritou-me muito porque acho que é mais importante dar de comer a quem tem fome do que pagar a conta ao merceeiro. Claro que é importante não fazer dívidas, mas há coisas que acho que estão acima de outras. 

mediascape: ar abençoado

Já tinha ouvido falar deste novo produto associado a outras geografias, mas agora chegou até nós e mais em concreto até Fátima (só podia). Há gente sem qualquer escrúpulo. Vender latas com "ar sagrado" de um qualquer lugar é vender latas vazias ou cheias de nada. Mais me impressiona é haver quem acredite neste logro e pague três euros por algo que não existe. O ar ainda é de todos e não se paga para respirar. O aproveitamento da fé e da crença das pessoas, principalmente daquelas menos esclarecidas, é algo que não deveria ser permitido. Aliás, a Igreja deveria intervir e impedir que sob a influência do seu santuário Mariano houvesse charlatães a vender a banha da cobra.

30 junho 2016

pois é, a literatura

Bem escreve Francisco José Viegas na última LER.