17 agosto 2017

participar na res publica

Num tempo em que nos aproximamos das eleições autárquicas, Nelson Dias (sociólogo) escreve, no jornal Le Monde Diplomatique deste mês, um interessante artigo sobre os orçamentos participativos em Portugal. Nesta sua reflexão procura saber onde estão concentrados, qual a sua relação com a participação democrática (relação com os crescentes níveis de abstenção) e que capacidade têm os portugueses de se mobilizarem e associarem em torno de projectos concretos, assim como a sua capacidade de influenciarem o poder instituído, ou seja, o poder autárquico.
Diz-nos que foi num contexto de desaceleração do entusiasmo democrático, com uma confirmada tendência de descida dos índices de participação eleitoral, que surgiu, em Palmela, a primeira iniciativa de Orçamento Participativo(OP) em Portugal. Estávamos em 2002. A emergência e o desenvolvimento dos OP está intimamente relacionada com a quebra de confiança no regime e nos seus principais agentes políticos, assumindo-se como uma tentativa de resposta do Estado local, ainda que parcial, à necessidade de reconstruir pontes de diálogo e reaproximação com a população (...) o que, curiosamente, implicou uma actividade cívica e política mais intensa, pelo carácter anual destas práticas, e mais extensa, pelo cada vez maior número de pessoas envolvidas.
Numa análise mais profunda aos OP em Portugal, o sociólogo percebe que estes se transformaram , nalguns concelhos, nos principais barómetros para as autarquias, leia-se, presidentes e vereações, para a auscultação das sensibilidades e percepções dos seus munícipes e, assim, para o desenho das políticas públicas. Apresentando vários exemplos de OP em diferentes municípios, Nelson Dias afirma que estes instrumentos deixaram de ser mera curiosidade ou moda política. Entraram timidamente no nosso país e gradualmente instituíram-se como catalisadores de processos de mudança.
Nelson Dias termina o seu artigo num tom optimista ao afirmar que este modelo foi de tal forma apropriado pelas populações que hoje se converte num canal de interlocução directa para a discussão e definição de políticas públicas, cujos impactos sobre o território são muito superiores aos dos projectos dos próprios OP. Ao olharmos para estes nesta nova perspectiva entendemos que o seu potencial suplanta as expectativas iniciais, reforçando o seu potencial de credibilidade e, com isto, a sua sustentabilidade.
Sem querer discordar muito desta sua perspectiva optimista, eu seria um pouco mais cauteloso em relação às verdadeiras motivações e objectivos de muitos autarcas e executivos autárquicos em relação a este instrumento de participação cidadã. Digo isto, tendo em conta aquilo que é a minha experiência enquanto autarca. Se é verdade que inicialmente as autarquias desconfiavam dessas propostas, maioritariamente, apresentadas em sede de Assembleias Municipais e, nalguns (poucos) casos, de Freguesia, pelas oposições, rejeitando liminar e até jocosamente essas propostas, com o tempo e com algum esforço de conhecimento técnico, apropriaram-se desses instrumentos, passando-os a apresentar como propostas nos seus próprios manifestos programáticos e eleitorais, assim como nos seus orçamentos pluri-anuais. 
Recordo-me que em Bragança, enquanto membro da Assembleia Municipal (2005-2013) apresentei essa proposta  - a de criação de uma rubrica de Orçamento Participativo - durante vários anos e nunca foi aprovado pela maioria que governava o município que, primeiro, por ignorância, depois por receio e, por último, por despeito, ridicularizava essa ideia "comunal" e "cooperativa". Na verdade, mesmo em Bragança passou a existir um Orçamento Participativo no qual a população pode "participar" votando, no portal da autarquia, de entre um conjunto de projectos propostos pelos próprio executivo, aquele ou aqueles que gostariam que fossem concretizados. 
Concluindo, considero os OP uma excelente ferramenta naquilo que poderá ser um incremento da implicação dos munícipes no planeamento, reflexão e execução de projectos colectivos e de utilidade pública, mas também desconfio dos reais e verdadeiros propósitos dos autarcas que, por hábito e defeito da prática autárquica no nosso país, não quererão nunca abdicar do seu predicado poder de decisão e execução. Aquilo que assistimos na grande maioria dos OP existentes, salvo raras excepções, são adaptações e pequenas iniciativas que sob essa designação pomposa e pertencente às narrativas daquilo que é actualmente considerado correcto, não são mais do que instrumentos ao serviço do interesse e vontade dos executivos autárquicos e das suas clientelas, ou pura e simplesmente são verbo de encher em momentos como este, os de vésperas de eleições autárquicas.

irritante

Se há algo que me irrita seriamente são estas novas ferramentas dos aparelhos que todos nós, ou quase todos, utilizamos, que à medida que estamos a escrever o que queremos, nos vão corrigindo o texto, adulterando por completo o sentido e propósito daquilo que temos em mente. Nas mensagens de telemóvel isso é constante e eu não sei como alterar isso. Por exemplo, no Word eu tenho essa opção desactivada, mas no telefone não sei como o fazer e irrita-me a amígdala enviar mensagens sem sentido algum. Pronto, apenas isto.

11 agosto 2017

inveja

Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem. (Francisco José Viegas, aqui)

10 agosto 2017

o som que não consigo encontrar

Ando obcecado atrás de uma música portuguesa que tenho ouvido na Antena 3, mas não a tenho conseguido identificar. Como desconheço quem a canta e como se chama, tenho andado pelo youtube desesperado, mas sem qualquer sucesso, por hora (hei-de conseguir!). No entretanto, aqui ficam alguns sons em que tenho tropeçado e que, por tonalidades de ouvido diferenciadas, me agradam.





08 agosto 2017

mediascape:reutilizar, reutilizar e reutilizar os manuais escolares

A entrevista já foi publicada no dia 20 de Julho na Revista Visão, mas só hoje dei com ela, na sua versão online (ler aqui na íntegra). Falo de uma entrevista à Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, a propósito do programa de gratuitidade e reutilização dos manuais escolares que agora se põe na prática apenas para o primeiro ano do primeiro ciclo. Eu já simpatizava com esta senhora e com a sua atitude e discurso em relação às coisas da escola pública. Aqui, neste novo programa, está mais uma razão para admirar a sua posição política e cidadã.
Transcrevo partes do seu discurso:

A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita.
(...)
Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam.
(...)
De acordo com a lei, todos os manuais, sem exceção, devem ser concebidos para poderem ser reutilizados. Por exemplo, a prazo, temos de acabar com recortes, autocolantes. Sempre que for preciso escrever no manual, deve ser a lápis.
(...)
E não há qualquer relação direta entre o reaproveitamento e o aproveitamento. Pelo contrário, se ensinarmos às crianças o respeito pelo manual, a partilha, o respeito pelo outro que a seguir vai receber aquele livro, estamos a educar para a cidadania. É um avanço civilizacional e pode ser um elemento muito importante.
(...)
Portanto, o procedimento de aquisição está nas escolas desde julho do ano passado, o de reutilização desde maio. Mas admito que tudo isto seja muito novo e é preciso um período de adaptação. O sistema educativo é muito grande. Temos 811 agrupamentos, mais de três mil escolas, um milhão e trezentos mil alunos, 120 mil professores. Nós podemos informar, enviar as circulares, mas demora até se tornar rotina.
(...)
...tudo isto comporta já alguma incerteza do mercado. Incerteza com a qual os agentes económicos têm de viver. Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre.
(...)
Relativamente ao peso das mochilas, há duas soluções possíveis: deixar na sala de aula, até ao quarto ano, ou utilizar os cacifos, a partir do quinto. É uma questão de os alunos se habituarem a fazer a gestão dos livros que têm de ir para casa e os que podem ficar na escola. Outra solução será a desmaterialização dos manuais, garantindo que não vai cavar as assimetrias sociais.

Neste próximo ano lectivo, o meu filho mais novo irá frequentar o primeiro ano do ensino básico e eu, enquanto seu encarregado de educação, no momento de levantar o voucher para a aquisição gratuita dos seus livros, tive que assinar uma declaração em que me comprometia e responsabilizava pela manutenção dos manuais e pela sua devolução no final do ano lectivo. Muito bem, finalmente os livros passarão a ser propriedade das escolas e não dos alunos. Há medidas governamentais e políticas passíveis de discussão e debate, mas neste caso, se exceptuarmos o lobby da indústria dos manuais escolares, ninguém que use de senso se oporá à medida. Quanto a mim não só concordo, como a defendo. Digo mais, pecou por tardia.

25 julho 2017

sou snob?

A propósito do que poderá ser ou não a minha iliteracia, já aqui escrevi sobre aquilo que considerava ser a minha inépcia literária, naquela altura motivado pela incompetência sentida em ler Lobo Antunes. Nesse mesmo texto referi-me a Virginia Woolf, cuja leitura se me apresentava, desde a juventude, interdita. Pois bem, acabei de ler Momentos de Vida de Virginia Woolf, livro composto por cinco ensaios autobiográficos, encontrados entre os seus papeis após a sua morte, em 1941, mas apenas divulgados em 1976 e inéditos entre nós até esta edição (2017) da Ponto de Fuga. Já conseguira ler da mesma autora, num passado recente, "As Ondas" e "Flush: uma biografia" e agora estes Momentos de Vida, que nos propõem uma viagem pelas memórias e pensamentos da autora.
Com esta leitura confirmo, uma vez mais, a minha preferência pela dimensão biográfica dos escritores em detrimento das suas obras literárias. Por outras palavras, cada vez mais procuro conhecer a história de vida dos autores, sinto curiosidade pelas suas experiências de vida, independentemente de gostar ou não da sua literatura. Enquanto leitor, privilegio as polifonias sociais, familiares, psicológicas e físicas daqueles que, por diferentes razões, leio e admiro.


A determinado momento, no seu último ensaio deste livro, a autora questiona-se:
Sou snobe?
Logo depois escreve:
- O Snobe é uma criatura desmiolada e cabeça de vento tão pouco satisfeita com o seu estatuto que, com o propósito de consolidá-lo, esfrega a todo o momento um título ou uma honra na cara das outras pessoas para que estas possam acreditar, e o ajudem a acreditar, naquilo que ele mesmo, na realidade, não acredita: que ele ou ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que reconheço em mim mesma. (Virginia Woolf, 2017:238)

variações geográficas

Numa ampla sala-de-estar de um centro hospitalar público, na cidade do Porto e quase em surdina:
- Já viste estes desgraçados (profissionais de saúde)?!... Não param de um lado para o outro... trabalham horas e horas e recebem quase nada... a Fernanda disse-me que para tirar mil euros tem que trabalhar doze a catorze horas por dia... que vida! Eu lá tiro isso em duas semanas e sem me cansar muito... ainda me dizem para regressar!...

religião industrial

Na edição do mês de Julho do jornal Le Monde Diplomatique (Portugal), um texto muito interessante de Pierre Musso sobre o olhar antropológico que o Ocidente tem sobre si próprio e que remete para o processo de industrialização ocorrido a partir de 1800. Diz-nos este Professor jubilado que para que uma tal revolução industrial fosse concretizada foi preciso construir previamente uma visão do mundo partilhada e excludente de qualquer referente transcendente para celebrar a humanidade criadora e produtora. (...) Esse processo ocorre no interior da matriz cristã e estabelece as bases de uma religião secular.
Esta religião industrial ter-se-á desenvolvido no Ocidente em resultado de três momentos fracturantes, a saber:
1º - A Reforma Gregoriana, que conduz a uma primeira revolução industrial nos séculos XII e XIII, ligada à mudança do processo de trituração, com moinhos colocados ao longo dos rios a prefigurar as fábricas;
2º - O renascimento da ciência moderna e o programa de René Descartes destinado a "tornar-nos mestres e possuidores da natureza" em nome do progresso;
3º - A escolha industrialista de 1800 e a formulação simultânea de um "novo cristianismo" terrestre e científico;
Em cada um destes momentos, a industriação metamorfoseia-se e a instituição de produção que a encarna reorganiza-se: mosteiro, manufactura, fábrica e empresa. Cada uma destas instituições articula uma fé que dá sentido e uma lei que organiza uma comunidade de trabalho.
É estabelecida uma relação entre as ordens monásticas (S. Bento e S. Francisco) e seus mosteiros com a origem dessas comunidades de trabalho, argumentando-se que:
O monaquismo reconhece o "valor do trabalho" como complemento da oração e da contemplação. O trabalho representa ao mesmo tempo um instrumento de ascese, um meio de combater a ociosidade, uma actividade produtora e uma resposta à obrigação da caridade. Ainda hoje a regra de S. Bento é vista como um modelo de gestão. (...) O monge beneditino Hugues Minguet declara: "O monaquismo beneditino é sem dúvida a mais velha multinacional do mundo"...
No fim do século XI, a aceleração da circulação monetária e a multiplicação das trocas comerciais transformam a organização monástica e aí defrontam-se dois modelos: Cluny e Cister. Em Cluny vive-se na opulência, em Cister recusa-se o luxo. Nos seus mosteiros são implantadas todas as infra-estruturas da produção - rede de escoamento, moinhos, caminhos de serventia, oficinas, forja, lagar, celeiro, casa dos conversos - que fazem da abadia uma fábrica.
No século XVI ocorre uma segunda grande transformação, com a Reforma e em seguida com a revolução científica. A natureza torna-se o novo "grande Ser" que acolhe o mistério da Encarnação. Até então associada a Deus, a própria ideia de natureza modifica-se: o homem já não está "na", mas "perante" a natureza, e dedica-se a conhecê-la matematizando-a.
A terceira bifurcação da industrialização completa-se nos séculos XIX e XX, em dois momentos: por volta de 1830, com a revolução industrial, e entre 1880 e 1940 , com a revolução da gestão. A primeira formula a lei tecno-científica e a segunda fixa a lei da organização do trabalho. A fábrica-empresa liga-as solidamente. A crença num novo "grande Ser", a saber, a humanidade, reinveste o mistério da Encarnação tal como ele é instituído pelo filósofo Auguste Comte. Em 1848 o jovem Ernest Renan deseja "organizar cientificamente a humanidade..."
O criador todo-poderoso já não é um Deus supra-celeste, mas o próprio homem que se auto-realiza. Esta visão Faustiana de uma religião terrestre e racional tem por guia o progresso e a promessa de um bem-estar futuro.
(...) Depois de uma longa gestação nos claustros, a religião industrial manifesta-se de maneira fulminante por ocasião das revoluções industriais, atingindo o seu apogeu com a actual revolução digital.
Para lá da importação da novilíngua da gestão em política, o que triunfa é a religião industrial.

mediascape:ridiculum ultimatum

Ao ler as "gordas" da imprensa dou de caras com este título e com as declarações de Hugo Soares, líder da bancada do PSD na Assembleia da República, que em jeito de ameaça, fez ontem um ultimato ao governo para que apresente a lista dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande em 24 horas. Mas que raio de ameaça! Então e se o governo não satisfizer o pedido?! Qual é a grave consequência? Qual será o trunfo que a iluminária, líder parlamentar, tem para apresentar?!
Pois, como também se percebe nas suas palavras, nada ou quase. Apenas aproveitamento político de uma desgraça humana. Se houve ou não houve mais mortes do que aquelas que estão oficialmente contabilizadas não é relevante. Mais uma, duas?! Talvez. E depois? Qual é a responsabilidade do governo nessa contabilidade?
Ridículo, uma vez mais.

11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.

07 julho 2017

arrancar batatas

(fotografia roubada da internet)

Muitas vezes, enquanto criança e jovem, participei nessa actividade agrícola, normalmente um trabalho colectivo para a família, vizinhos, amigos e compadres, num esquema de torna-jeira, ajudando a apanhar da terra as batatas arrancadas a golpes de guinchas (na fotografia, utensílio visível nas mãos dos homens). Num claro exemplo daquilo que era, e ainda é, a clássica divisão do trabalho por género, aos homens competia-lhes percorrer os sulcos, alinhados e transversalmente (como também se vê na fotografia), e trazer para a superfície todos os batateiros que ficavam expostos e disponíveis para serem colhidas todas as suas batatas, numa tarefa destinada às mulheres e crianças que, logo atrás dos homens, as recolhiam num balde ou cesto e depois, quando estes cheios, vertiam-nas para sacas que iam ficando espalhadas pelo terreno. Para além da força e resistência necessárias para trabalhar com as guinchas, importava também não estragar as batatas, ou seja, escolher bem o sítio onde se golpeava a terra para não acertar em nenhuma - na terminologia local, para não enrilhar as batatas.
Pois bem, só hoje e já homem já mais do que adulto, é que tive o privilégio de usar umas guinchas e, por incrível que possa ter sido, não enrilhei nem uma batata. Alguém deveria ter registado esse longo momento, mas infelizmente tal não aconteceu.

06 julho 2017

a solução passaria por aqui...


Lamentavelmente foi rejeitada pela Assembleia da República com as abstenções do PSD e CDS e voto contra do PS.

gostei e por isso partilho


" Quatro anos "


Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.
A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.

28 junho 2017

ar pouco estival

Da janela deste quarto de hotel, onde estou de passagem, vislumbro a paisagem campestre que se estende ao longo de um vale encaixado e de tonalidades bem verdes. Perto da janela, dois plátanos maduros e frondosos fazem-me perceber o vento que os agita, teimoso a temperar o ambiente e a impedir que o calor estival se instalar definitivamente. Ainda há pouco, depois de almoço, quando subia de elevador, duas senhoras comentavam que hoje não era preciso ir apanhar ar. Ele já se tinha instalado em todo o lado.

26 junho 2017

mediascape:vergonha alheia

Num só dia, hoje, Pedro Passos Coelho, na sua missa de corpo presente (por ordem cronológica):

a) "Tenho conhecimento de vitimas indirectas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero". (Pedro Passos Coelho);

b) "Fui eu que dei ao Dr. Passos Coelho uma informação errada". (João Marques, candidato PSD Pedrogão Grande);

c) "Sinceramente peço desculpa por ter usado um dado não confirmado. Não devia ter utilizado essa informação". (Pedro Passos Coelho);

Não restam dúvidas, Pedro Passos Coelho é um cadáver político. E não me venham dizer que ele não sabe disso, que não está consciente da nulidade da sua posição!

a inevitabilidade e o estigma

Talvez seja apenas uma mera coincidência; Talvez apenas um azar; Quiçá, uma simples impressão, mas a verdade é que ser cliente dos CTT e frequentar as suas lojas e balcões transformou-se numa actividade irritantemente demorada e fastidiosa. Os dois ou três balcões de correios que frequentemente visito, salvo uma ou outra vez, estão sempre cheias de gente, o serviço é lento e os balcões, apesar de vários funcionários presentes e a circular de um lado para o outro, não estão a atender os clientes. Muitas vezes apenas um funcionário e um balcão a atender...
Aqui está um bom exemplo da inevitabilidade da privatização de um serviço outrora público, pois o estigma histórico e enraizado de tudo quanto era e é do Estado, era e é mal gerido, assim como o estigma perpétuo dos funcionários públicos e do seu absentismo, resultou nisto e mede-se agora pela qualidade do serviço prestado aos clientes, por uma gestão séria e rigorosa. Aqui, como em tantos outros casos, o serviço público é preterido por rádios de produtividade e variação percentual de lucros, ou seja, tudo aquilo que realmente interessa a essa casta iluminada, privilegiada e minoritária das elites económicas e financeiras.
Este exercício só foi possível porque primeiro, frequento e utilizo regularmente os serviços e os espaços CTT e, segundo, porque tenho memória e faço questão de me servir dela, assídua e convenientemente.

a des-cafeínar

Sentado à sombra e ao sabor de uma bem fresca brisa, proporcionada por um condicionado ar, tomo a dose de cafeína digestiva, enquanto penso sobre este nosso velho hábito do café expresso. Isto, porque constato que, nos últimos tempos, talvez meses, talvez já anos, esse hábito de prazer se transformou, acima de tudo, num hábito de necessidade. É verdade que estou, há longos anos, adicionado a esta substância excitadora dos sentidos e do cérebro, mas com o tempo fui perdendo o gosto pela bebida e muitos são os dias em que não tomo nenhuma dose, apercebendo-me da sua falta apenas quando se instala uma dor de cabeça, normalmente, ao final da tarde...
Agora, o ritual do café faz-se acompanhar com água, engarrafada ou da torneira, tanto me faz, sempre com o propósito de lavar a boca do sabor do café. Apesar disto, ir tomar café, estar a tomar café, ou ter ido tomar café, continua a ser um rito necessário para o equilíbrio de todo o organismo, principalmente, da mente e de seus humores.

gato morto, uma vez mais...

mediascape:patologias da democracia

Na edição de Junho do jornal Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), Evelybe Pieiller escreve um interessante e curioso artigo sobre os limites e as derivas das democracias, tal como as conhecemos na actualidade - "de um ideal, um progresso, uma conquista (...) a uma impossibilidade". Pondo em cheque a noção de soberania, a da nação e a do povo, a perda de confiança dos cidadãos e a imposição de poderes supranacionais como a União Europeia, cita Marcel Gauchet, que afirma: "nas nossas sociedades, a democracia já é apenas uma palavra, uma noção fantoche que dissimula, designadamente, o poder efectivo, exorbitante do complexo económico-financeiro". Um outro pensador citado, Alain Badiou, afirma que "a democracia está sempre ligada e enfeudada ao capital".
A nação já não é portadora da vontade geral, mas de um agregado de desejos particulares: o que pode corresponder a uma memorização, senão mesmo a uma perversão das lutas colectivas que ainda é preciso vencer para concretizar as promessas da democracia, em particular a igualdade, um dos nomes da emancipação. Apresentando um conjunto de abordagens múltiplas, a autora apresenta ainda o Comité Invisible, que saúda, na fragmentação em todos os domínios do nosso mundo, uma aspiração inaugural da "restituição a si próprias de todas as singularidades e a derrota dada à subsunção, à abstracção". Este Comité postula o seguinte: "Não há eu e o mundo, eu e os outros, há eu com os meus, neste pequeno pedaço do mundo que eu amo, irredutivelmente". Isto porque "a experiência vivida, fundamental, imemorial é a da comunidade". Malditos sejam, portanto, os engodos mortíferos intrínsecos à democracia, à nação, à humanidade, ou mesmo às divisões de classe...
São apresentadas duas razões principais para a crise democrática: as limitações impostas à soberania nacional (e a impotência do político); e a erosão de alguns valores que a fundam (e a suspeição em relação ao próprio sistema). Uma boa parte do povo já não se reconhece nos seus representantes habituais, os da moderação, e escolhem-se outsiders, alguns dos quais parecem perigosamente anti-democratas.
À questão: Por que motivo se esquece o povo de votar ou vota tão mal? A autora refere que esse fenómeno recebe explicações diversas, como, por exemplo, a de Ivan Krastev que diz: "os progressos das liberdades individuais e a difusão dos direitos humanos foram acompanhados por um declínio do poder do cidadão de mudar, pelo voto, não apenas de governo, mas também de orientação política". Uma outra ideia é a de que a dissolução das oposições essenciais entre a esquerda e a direita vai conduzir a que seja cada vez mais difícil diferenciá-las, portanto, para quê escolher entre elas? Nancy Fraser responde que a componente determinante do problema é que "o Liberalismo e o Fascismo constituem as duas vertentes profundamente interligadas do sistema mundial capitalista".
Como fazer então para que o povo de sinta representado? Como devolver ao povo a sua soberania?
É aqui que o pensamento dos ensaístas se torna, por vezes, surpreendente...
A filósofa Chantal Mouffe coloca a questão da necessidade de "construir um nós e um eles", de forma a conduzir um combate pela verdadeira concretização dos princípios ético-políticos da democracia liberal, porque "hoje, tudo o que se relaciona com a democracia entendida como igualdade e como soberania popular foi afastado pela hegemonia do liberalismo". Portanto, para derrubar estas relações de poder e dar uma representação autêntica ao "descontentamento órfão" dos cidadãos, importaria trabalhar na criação de um espaço público agonístico, isto é, conceitual, onde se exprimem os diferentes, os antagonismos e o desacordo, num quadro compatível com o pluralismo democrático. Para federar eficazmente os descontentamentos e as lutas contra as diversas subordinações, para além das clivagens esquerda-direita, torna-se indispensável a elaboração de um "arsenal simbólico" que contribuirá para envolver grupos sociais. Trata-se, portanto, não de acabar com a democracia representativa, mas de a radicalizar.
É com uma estratégia clara de "populismo de esquerda", alimentada, entre outras coisas, por batalhas culturais, que Chantal Mouffe propõe uma revitalização da representação democrática. Sendo que o mais notável nesta reflexão seja a importância dada aos "afectos". É que a teoria moderna da democracia associou-a durante muito tempo ao exercício da razão e seria, segundo esta autora, "incapaz de reconhecer que as paixões são a principal força motriz da política". Para construir uma distinção nós/eles progressista, seria necessário um discurso que apresentasse "identidades que dão sentido" a esta distinção. O acento tónico colocado sobre as "paixões", sujeito a variações múltiplas... o povo, os cidadãos, são frequentemente considerados como submetidos às suas emoções, particularmente quando vota fora das escolhas toleráveis. Como diz o jornalista David Van Reybrouck, "votar sobre uma questão precisa, que bem poucas pessoas realmente compreendem , quase só pode ter resultados desastrosos". Seria melhor, portanto, "designar ao acaso um pequeno número de pessoas, assegurando que elas dominam suficientemente as questões com as quais se vão confrontar e que estão em condições de tomar medidas sensatas"...
Mais do que pelas emoções e pelas insuficiências dos cidadãos, não é proibido pensar que as perversões actuais da democracia tal como a conhecemos são engendradas por um neoliberalismo notavelmente inventivo, que há muito tempo soube tornar desejáveis os seus valores e as suas soluções.