19 junho 2017

a culpa, essa maldita...

Pacheco Pereira, hoje, no jornal Público e a propósito do incêndio de Pedrógão Grande:

«O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.
A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.
Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. (…) Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. (…)
Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbiespoderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém. (…)
São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.»

18 junho 2017

de luto

Ainda antes de me deitar e quando o número de mortos confirmados era de 19, ouvia o Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande dizer que tinha quase a certeza que o número de vítimas mortais seria bem mais do dobro dessas (19). Hoje ao acordar o número de mortos neste inferno de chamas era de 57.
Não sei mais o que escrever. Já o fiz em anos anteriores e quando nem sequer havia vítimas humanas. Perante tamanha catástrofe não sei o que se deve dizer, ou fazer, ou pensar. Apenas o silêncio por respeito a todas as vidas humanas que se perderam e pelo sofrimento dos sobreviventes. Por isto, irrita-me o voyeurismo de alguns canais de televisão e jornais, assim como me irrita esta nacional teimosia em nada se fazer preventivamente e se investir tudo na reacção e no combate aos incêndios. Talvez agora, depois de tantas e tantas mortes, haja coragem para mudar definitivamente o paradigma em relação aos incêndios e à floresta.

03 junho 2017

no III Festival Literário de Bragança

Ontem à tarde, no auditório Paulo Quintela, na sessão "tarde da crónica e romance"...




01 junho 2017

humanismo

A propósito do dia que se assinala hoje - o dia mundial da criança - mais do que repetir lugares comuns interessa-me reafirmar a minha profunda crença no ser humano, nas suas virtudes e qualidades, assim como nos seus defeitos e perversidades, em todos os seus estádios de desenvolvimento ontogenético. Claro que, enquanto humanistas, deveremos sempre acarinhar as crianças e proporcionar-lhes o melhor futuro possível, pois este será sempre delas e para elas. Acreditar na generosidade, na capacidade e na ambição das novas gerações é um bom princípio para podermos continuar a colocar o Ser Humano no centro do nosso mundo, ou a entendê-lo como denominador comum em todas e quaisquer equações possíveis, previsíveis e desejáveis.

mediascape: desconforto

Ao contrário daquilo que o jornal Público intitula de desconforto para os partidos à esquerda do PS com a hipótese de Mário Centeno ir para o Eurogrupo, não é desconforto que se pode sentir com essa possibilidade, mas sim indignação pela campanha orquestrada para afastar do governo português o seu ministro das finanças. Ao contrário da ideia que agora se tenta fazer passar da genialidade de Centeno, sei que este não passa de um tecnocrata (aparentemente bom) que, até ao presente, tem defendido os interesses nacionais. Não me sinto desconfortável com a sua ida para essa instituição transnacional e europeia, mas sinto-me enojado com a estratégia das lideranças da UE ao alimentarem esse cenário, que não parece ser mais do que uma tentativa de desestabilização do executivo português e das suas políticas, que teimam em remar em contra-ciclo e afrontando as orientações e políticas emanadas do directório de Bruxelas e Berlim. Independentemente dos méritos e créditos pessoais e profissionais de Mário Centeno, acredito nessa conspiração orquestrada para destruir o caminho alternativo que Portugal, por hora, trilha com relativo sucesso. O resto é spin, isto para não dizer que apenas se trata de ridículas punchlines que procuram desviar a atenção daquilo que é essencial.

31 maio 2017

não vale a pena

Num dia em que não almocei, chego ao final da tarde esfomeado e, de certo modo, desorientado pela falta de cafeína que por esquecimento, primeiro e por distracção, segundo, acabei por não ingerir durante todo o dia. Mas essa hora final de tarde é já tarde para tomar café, pois as consequências dessa toma seriam catastróficas para essa noite e madrugada, mas acima de tudo, para o dia seguinte.
Portanto, até porque não sabia a que horas iria conseguir jantar, entrei num café para repor calorias. Azar, balcões expositores já vazios e onde sobreviviam dois ou três rissóis de caracter duvidoso e um único pão-de-chouriço, perdido num imenso tabuleiro. Sem hesitar, peço esse pão e uma Coca-Cola que, por outro azar, tem que ser uma Pepsi. Tudo bem, venha ela para absorver alguma cafeína. Três euros e vinte e cinco cêntimos que paguei e apenas pude beber, uma vez que o pão-sem-chouriço nem se conseguia trincar. Se calhar, não era por acaso que ainda ali estava para ser vendido... Ainda pensei reclamar e, às tantas, arranjar alguma confusão, mas fiquei quieto. Não vale a pena, já não me vale a pena. Saí desaustinado em direcção a uma máquina self-service, onde encontrei uma deliciosa sande-mista em pão-de-forma sem côdea.

26 maio 2017

X L I V

Numa conta sempre de somar, vamos juntando os dias e, por trágica multiplicação, as dores do corpo e da alma também.
Atenuadas apenas pela simples divisão de afectos e carinhos que, na subtração do porvir, vagarosos serão saboreados.

19 maio 2017

interminável senda

Com o propósito de colmatar velhas lacunas e ignorâncias conscientes do universo literário português, do mais clássico ao mais contemporâneo, mantenho esforço de recuperação dessas incomensuráveis falhas. Objectivo ambicioso e, acima de tudo, demorado. Esta noite, e por sugestão da amiga Joana, o objectivo é resgatar o dinaussauro excelentíssimo José Cardoso Pires.

na feira do livro de Vinhais

Hoje à tarde, no auditório da Casa da Cultura (Solar dos Condes de Vinhais), apresentando o meu livro na Feira do Livro de Vinhais. Entre alunos do ensino básico, secundário e superior sénior, mais alguns amigos, é sempre um prazer regressar, estar e ficar na nossa terra. Em Vinhais estarei sempre em minha casa.
Com apresentação do amigo João Cristiano Cunha e a recepção de Roberto Afonso, amigo e Vereador da Cultura da C. M. de Vinhais, mais um momento feliz e simpático na existência deste apurriar de dez anos.
Ainda que escassos, ficam alguns dos momentos do evento...

(a sala minutos antes)

(João Cristiano Cunha, Roberto Afonso e Luís Vale)

 (apresentação do João incluiu a recolha de grande parte das capas dos meus livros...)

(aqui, numa fotografia com qualidade, roubada aqui)

15 maio 2017

avarias

Mesmo sabendo e compreendendo que os objectos, os utensílios, equipamentos e electrodomésticos, se desgastam e estragam, é sempre um stress quando um deles avaria cá por casa. Detesto tê-los avariados ou estragados e, por isso, procuro sempre solucionar logo esses, maiores ou menores, problemas. Este mês tem sido um fartote de avarias e não-funcionamentos aos quais tenho tentado dar resposta, até que ontem foi a vez da velha televisão dar um estouro, deixando a minha criança num sobressalto com o susto e por lhe interromper o importante jogo de futebol que estava a jogar na PlayStation, assim como a casa a cheirar a plástico queimado para o resto do dia. Solucionado o problema do jogo da criança, tenho agora que resolver o que fazer e estas palavras apenas acontecem porque estou indeciso no que fazer... Compro ou não uma TV nova para substituir esta?! Se morasse sozinho, não tinha qualquer dúvida e o espaço que esta peça de museu ocupa, daria lugar para aconchegar mais alguns livritos, mas como partilho a habitação com mais pessoas, será difícil convencê-los a não ter televisão. Ainda assim, vou tentar.